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Por Caio Luiz 07/03/2011
Qualquer um com instintos ou percepções afloradas sabe de longe que envolver-se com John Constantine é pedir para ter dor de cabeça aguda e lancinante. O patife o faz mergulhar em uma piscina de problemas sobrenaturais porque há uma aura ocultista que o precede e atrai. Sempre puxando as cordas, John é um mago sacana que circula pelos bastidores, seja da política, de seitas milenares, de bruxaria e magia negra, impulsionado pelo vício em adrenalina que é sua sina. O anti-herói é alguém sempre no lugar e na hora certa para jogar xadrez com o destino, se valendo dos contatos que possui com o submundo e acionando favores nos quatro cantos do globo, atropelando os direitos de quem estiver em seu caminho. Aliado, amante, inimigo, não importa, primeiro é necessário preservar a própria pele e resolver o emaranhado diabólico em que ele se enfiou e, com sorte, quanto tudo estiver resolvido, talvez sobre tempo para quem tiver sido usado ser resgatado. Má reputação
No ponto em que a trama daquele gibi estava, o mundo vinha registrando uma série de eventos bizarros, em especial nos EUA, que, por intermédio de um bando de lunáticos, culminariam na ressurreição da entidade do caos o que, eventualmente, engoliria o planeta. Sem ter ideia do que se passava, o monstro verde que habita os brejos do Alabama vira um mero peão a executar os serviços sujos do trapaceiro vindo das terras da Rainha. Afinal, manipulação é a especialidade do malandro beberrão. A inserção do coadjuvante foi feita a pedido dos ilustradores da revista do Monstro do Pântano durante a década de 1980, John Totleben e Steve Bissete, que pediram à Moore que desse um jeito de colocar alguém com as feições do cantor da banda The Police, Sting, nas páginas da revista. O autor gostava de trabalhar com as sugestões de parceiros e fez a sugestão se encaixar dentro do contexto das histórias. Oras, por que não introduzir este ser amoral, saído da classe trabalhadora inglesa, repleto de charme e de amizades perigosas que transita pelas bordas do Universo DC resolvendo casos feito detetive? Assim, nas primeiras histórias, é possível acompanhar John (em uma revista que nem era dele, metalinguagem irônica perfeita para o caráter aproveitador do personagem) cruzando a América do Norte com uma trupe de freaks – uma freira, um motoqueiro, um gênio debilóide e uma gótica depressiva – se preparando para algo grande e reunindo outros personagens antigos, alguns esquecidos e anteriores a década de 1940, pertencentes à ala mágica da editora como Dr. Oculto, Mister 10, o Vingador Fantasma e Zatara. Passado punk
Delano, outro inglês, foi bibliotecário e taxista. Portanto, fica fácil de entender como conseguia mesclar histórias com embasamento político e social com o clima de cidade grande ameaçadora e imperdoável. Foi ele quem desenvolveu o passado conturbado de Constantine, um jovem loiro nascido em Liverpool, na época em que os Beatles extasiavam os continentes com suas franjinhas e terninhos idênticos.
Delano seguia a premissa que orientou as histórias sob a batuta de Moore, usava acontecimentos sobrenaturais como ponto de partida para criticar comportamentos da sociedade anglo-saxônica com narrativas poluídas e sufocantes que externavam o horror que a cidade por si só pode proporcionar. A diferença estava no tratamento menos esotérico e mais visceral do conteúdo. Delano ia longe feito o predecessor, porém imprimia contornos mais próximos do dia-a-dia de quem lesse a revista e conhecesse minimamente o que se passa na Inglaterra. Hooligans eram objeto de análise da violência gratuita, yuppies eram dissecados ao negociarem almas na bolsa de valores, fanatismo religioso era o alvo quando abordou o poder de grupos que transformam crença em escorregador para a alienação. Moore chegou a declarar que Delano e o desenhista John Ridgway demonstraram brilhantemente que o horror inglês não havia se evaporado com o fim da era Vitoriana e que a obra era de arrepiar a espinha. Então vem Garth Ennis, escritor irlandês também conhecido por Preacher e Hitman, que despontou em Hellblazer tornando-se responsável pela fase mais famosa da publicação, valendo-se de diálogos inteligentes, violência e humor negro. A grande sacada da etapa foi deixar que o mundo místico que abriga as histórias servisse como pano de fundo, trazendo o foco para as características humanas de Constantine, evidenciando que é uma pessoa como qualquer outra.
É da profundidade e complexidade de Constantine que vem o interesse dos leitores por suas desventuras latrina abaixo. Até que ponto ele vai sujar as mãos na próxima edição? Como fará para salvar o mundo, a si mesmo e a quem mais tenha envolvido concomitantemente e sendo tão corruptível? Pois é, ele não vai! Fará somente o que está ao seu alcance. Fará escolhas porque não é super e acordará no dia seguinte, depois de uma farta bebedeira, em um hotel úmido, para arcar com as consequências do que aprontou. Punindo-se, maço após maço. O time de escritores que já contemplaram a série vai dos mencionados a Neil Gaiman, Grant Morrison, Brian Azzarello e Peter Milligan. A arte nunca é das melhores, em minha opinião. A não ser pelo período de Steve Dillon, parceiro de Ennis em Preacher. De longe, pelas referências e inteligência no argumento, é meu quadrinho favorito em dez anos como colecionador. Pegue sua jaqueta e vá pro inferno, John! |
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