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O Homem-Aranha (é) de Lee e Ditko!
Por Roberto Guedes
14/04/2011

Desde que foi anunciado na imprensa que os herdeiros de Jack Kirby entraram com ação contra a Marvel Comics pelos direitos autorais de vários personagens que o "Rei dos Quadrinhos" criou para a editora nos anos 1960, muita gente tomou como fato concreto e consumado sua participação na elaboração do Homem-Aranha. Mas não é bem assim...

Certa vez, Kirby comentou que ofereceu a Stan Lee a idéia de um herói chamado "Silver Spider" (Aranha de Prata). De acordo com o “Rei”, Stan teria rebatizado o herói como “Homem-Aranha” e lhe encomendado a produção da história de origem. Após Kirby apresentar as cinco primeiras páginas, Stan mandou que Ditko refizesse tudo.

Essa versão dos fatos é equivocada. Excetuando-se o fato de Kirby ter realmente feito cinco páginas que foram recusadas por Lee, o resto da história contada pelo desenhista não procede. A verdade é que o tal Silver Spider é o protótipo de OUTRO personagem, conforme Joe Simon (ex-parceiro de Kirby) comentou em 1998, numa entrevista ao magazine Comic Book Marketplace:
“Kirby disse em entrevista a Will Eisner que eu e ele criamos o Homem-Aranha para a Crestwood Publications. Isto está completamente errado! Ele confundiu tudo! O Mosca (The Fly) chamava-se Silver Spider e eu o criei para a Harvey Comics. Lá, o personagem foi desenhado por C.C. Beck (nota: co-criador do Capitão Marvel), mas ficou mofando na redação, até que decidi vendê-lo para a Archie – onde foi rebatizado como O Mosca”.

A origem do Mosca foi redesenhada por Kirby e, talvez por isso, o artista a tenha confundido com a origem do Aranha – afinal, quando desenhava uma HQ, Kirby, por ser um bólido criativo, costumava inserir suas próprias idéias nas tramas, geralmente apreciadas e aceitas pelos roteiristas.

Mas quando Kirby fez tal "revelação", para alguns, soou com fato verídico, e para outros, puro despeito de Lee e sua maior criação. Stan, por outro lado, chegou mesmo a creditar Kirby como co-criador, devido, com certeza, à sua notória falta de memória. O próprio Ditko – conhecido por sua personalidade fechada e por evitar entrevistas – decidiu quebrar o silêncio e comentar sobre a concepção do Aranha, tanto no aspecto visual, quanto na complexidade da trama e personalidade:
“Não havia nada de semelhante entre o Aranha de Kirby e o meu. O uniforme feito por Kirby era diferente – parecido com o do Homem-Formiga – e ele usava uma pistola. Naquelas cinco páginas inacabadas, havia um tio muito parecido com o General Ross (da série do Hulk), e uma tia, além de um vizinho meio cientista louco. Esta foi TODA a história do Aranha desenvolvida por Kirby. Toda sua criação! O Homem-Aranha que eu desenhei – a partir de uma sinopse de Stan Lee – e publicado em Amazing Fantasy, tinha muito mais personagens, ação e dramas complexos! E a idéia da máscara fechada foi minha, bem como as meias no lugar das botas, já que ele escalava as paredes!”.

Posteriormente, Lee concordaria com esta versão de Ditko para o fato em questão, mas faria questão de frisar o seguinte:
"Steve achava que, apesar da idéia original, da história de origem, e da descrição de todos os personagens coadjuvantes terem partido de mim, tudo isso não teria existido de fato sem as ilustrações dele. Bem, apesar de eu ter a minha própria opinião sobre o que realmente significa a 'criação' de um personagem, meu respeito por Steve é tão grande, e sua contribuição para a série foi de tal importância, que eu me sinto disposto a dividir os créditos, chamando-o de co-criador."

Para aqueles que ainda insistiam na participação de Kirby na gênese do herói, alegando que era algo corriqueiro as histórias serem boladas a partir da produção das capas, valendo-se aí, do fato que a capa publicada de Amazing Fantasy 15 ter sido feita por Kirby, informo que a referida ilustração se constituía, na realidade, de uma segunda capa, versão de outra feita anteriormente por Ditko.

Por incrível que pareça até mesmo Beck chegou a insinuar que teria participação na criação do Cabeça-de-Teia, como se este se resumisse a uma simples imagem, à estética, ignorando por completo todo o seu background (personalidade, motivações e universo fictício como um todo). Convenhamos: Mary Jane, Tia May, Jonah Jameson, Clarim Diário... o que diacho C. C. Beck tem a ver com tudo isso?

O renomado biógrafo George Mair parece ter as palavras certas a respeito de toda essa celeuma:
“Naturalmente, o velho ditado serve para Stan: ‘O fracasso é órfão, mas o sucesso tem um milhão de pais’. Stan não viu ninguém redigir uma linha sequer para promover o Homem-Aranha, quando ele e Ditko o criaram. Na verdade, um monte de gente deve ter rido pelas costas de Stan e de seu personagem. Mas, no instante em que ficaram sabendo do resultado das vendas, todo o mundo quis abocanhar um pedaço do bolo!”

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