NewsLetter:
 
Pesquisa:

Como fazemos nossas HQs
Por Roberto Guedes
16/07/2007

Meteoro, numa belíssima ilustração de JJ Marreiro para a 4ª capa da publicação americana ALPHA-OMEGA 133 - lançada
no começo de 2007 (clique na imagem para ampliá-la)

Muitos de vocês já me perguntaram nas listas Marvel BR e Gibihouse, outros em PVT, como é que se dava o processo de criação das minhas Histórias em Quadrinhos na época da Fire Comics. Bem, o que posso dizer é que, dada às devidas circunstâncias e de quem seria o desenhista, eu procurava sempre trabalhar da maneira mais adequada com o estilo e perfil do parceiro – afinal, cada artista tem suas próprias características, facilidades, limitações e percepções de como conduzir e interpretar um enredo. Quando comecei profissionalmente (1988) com o editor Gilberto Firmino na GED (Galvão Editora e Distribuidora), e depois com o Tony Fernandes e Wanderley Felipe (Vanderfel) nas editoras Ninja e Phenix, eu nem tinha idéia de como formular um roteiro decente, então fazia tudo no rafe (esboço).

Por exemplo, no princípio dos anos 1990, quando fiz muitas coisas com Joe Prado, Reginaldo Borges, Hamilton Tadeu e Cal, eu costumava enviar os roteiros totalmente rafeados. Ou seja, eu praticamente rascunhava todas as páginas, demarcando visualmente a posição dos personagens, a quantidade de quadros, os close-ups etc., etc., etc. Era assim que eles preferiam e, como na ocasião, eu também tinha mais tempo ocioso (por vezes, até desenhava e finalizava uma de minhas próprias HQs – que horror!), acabou por se tornar o padrão de produção daquele período. Entre 1992 e 2000, a Fire Comics produziu cerca de 50 revistas em Quadrinhos independentes, que saíam em títulos como Meteoro, Força Máxima, Os Protetores, Quartel-General, Slady e Guepardo. Nada mal, convenhamos. Ah, não estou computando aqui os fanzines de informação, propriamente ditos, que também costumavam trazer HQs curtas, e, claro, a produção das capas – sempre elaboradas por mim e minha equipe criativa. O André Valle, por exemplo, é um sujeito que você só precisa dar uma idéia de como quer a capa, e ele já vem com aquelas cenas acachapantes... totalmente super-herói!

Até mesmo com o genial Marcelo Borba, cheguei a fazer um roteiro assim, rafeado, talvez na história do Slady que ele desenhou em 1997 – nosso primeiro trabalho em parceria. Mas logo de cara percebi que ele era um desenhista diferenciado e que gostava de participar mais ativamente da produção das histórias, dando sugestão para conceitos, reformulando visualmente alguns personagens originalmente idealizados por mim, entre outros detalhes menores, mas não menos importantes. É por isso que Borba é o co-criador do herói dos Anos de Chumbo Guepardo (1998), por exemplo. De uns anos para cá, não tive mais tempo de fazer rafes de nada, exceto, claro, durante a criação visual dos meus personagens – coisa que faço questão de manter até hoje – e na elaboração das capas de algumas revistas da Opera Graphica (Batman Saga, por exemplo) de alguns anúncios nas revistas e, claro, nas capas de meus livros. Puro cacoete de editor que pensa entender alguma coisa de desenho.

Poucas vezes trabalhei com roteiros tradicionais – aqueles totalmente redigidos, já com os diálogos e minúcias das situações, quadro a quadro. Foi assim na elaboração da graphic novel do Vigilante Rodoviário que escrevi para o Studio Elenko em 2001, e que jamais, infelizmente viu a luz do dia. A equipe artística era tremenda: Aluízio de Souza e Marcos Farrel (desenhos) e André Valle (arte-final). Foi assim, também, com a história do Mylar, personagem do mestre Eugênio Colonnese, desenhada com muita competência pelo Emir Ribeiro, com interessantes tons de cinza. Também está inédita até hoje. Deve ser algum tipo de praga, por isso, estou bem decidido quanto ao fato de nunca mais escrever um roteiro da maneira “tradicional”...

Deixando a brincadeira de lado, desde que comecei a parceria com o Borba, Horácio Jordan e, depois com Aluízio de Souza e Júlio César Zvir (esta dupla é a responsável pela sensacional arte da nova série do Meteoro, a estrear em breve), prefiro redigir um roteiro quase completo, com as descrições completas de página a página mas sem os diálogos e narrativas. Deixo isto por último, e só coloco quando estou com as artes em mãos. É muito melhor, pois quando vejo as expressões faciais dos personagens, tenho novas inspirações para redigir as falas. E, dependendo das partes de ação (as brigas entre heróis e vilões), deixo por conta da imaginação do desenhista, detalhando apenas uma coisinha ou outra, tipo o começo e o fim da mesma. Não chega a ser o famoso “Estilo Marvel” de contar uma história, mas é tão divertido quanto, pois os desenhistas têm gostado muito de trabalhar assim comigo.

Esboço do novo personagem
de Guedes e Borba (clique
na imagem para ampliá-la)

Abaixo, segue a transcrição de uma mensagem que o Marcelo Borba enviou para mim recentemente e que dá uma idéia precisa de como trabalhamos. O “croqui” a que ele se refere, é um esboço que fiz para ele se basear (e que não está reproduzido aqui). Omiti também, o nome do personagem em questão, por razões de registro. Logo mais, todo mundo ficará sabendo quando o mesmo for publicado:

Caro Roberto:
Aí vai a imagem que comentei com você. Creio que esse seu croqui foi feito na época em que estávamos bolando o Guepardo, pois no verso do papel em que você desenhou há uns rabiscos que parecem as primeiras linhas dele. Bom, o "XXXXX" como você o batizou inicialmente, não sei se para ser herói ou vilão, tem um jeitão bem bacana – uma versão "Batman Brazil", talvez?...

A arte que você vê aí é uma preliminar, para colocar no papel as primeiras diretrizes e ver como fica o visual. Eu coloquei as "asas" nele (como as teias dos primórdios do Homem-Aranha ou mesmo da Mulher- Aranha) por que imaginei que os "jatos de ar comprimido" seriam apenas para dar impulso inicial, e então ele manteria o vôo "planando", aterrissando mais suavemente nos prédios. Sei que a idéia não é original, mas tem seu charme e acho que funcionaria. Bem, é isso... Já faz algum tempo que fiz esse desenho, mas acabei esquecendo numa pasta e ficou por lá. Como você é pai da idéia, aí vai "tua filha de volta".
 
Por fim, independente das dificuldades de se publicar Quadrinhos no Brasil, eu me considero um cara de muita sorte. Afinal, durante todos esses anos têm sido incrível poder contar com o talento e criatividade desses grandes artistas da arte seqüencial na elaboração de inúmeras Histórias em Quadrinhos. E, vai por mim... estamos só começando.

Tá Falado!

 Do mesmo Colunista:

Nos tempos do Clube do Bloquinho

O futuro dos gibis depende de você, meu chapa

DUM SPIRO, SPERO ou: Uma alegoria “imaginada”

Impressão sob demanda – A futura tendência?

Responsabilidade e Poder nos Quadrinhos

Eu tive um sonho

A nova e a velha cara da HQB – parte II

A nova e a velha cara da HQB - parte I

O Quadrinho Brasileiro vai Vencer!

Registro Geral: Todas as Colunas

Quem Somos | Publicidade | Fale Conosco
Copyright © 2005-2017 - Bigorna.net - Todos os direitos reservados
CMS por Projetos Web