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A nova e a velha cara da HQB – parte II
Por Roberto Guedes
23/02/2006

Outras vertentes

Já a Editora Edrel foi uma grande representante da produção de quadrinhos no Brasil, investindo principalmente em artistas de origem japonesa e na propagação do estilo mangá – mais de trinta anos antes do sucesso de animês como Cavaleiros do Zodíaco. Tinha como símbolo um bonequinho chamado “Tupãnzinho”. Comandados por Minami Keizi, os desenhistas Paulo Fukue, Cláudio Seto, Fernando Ikoma e Lukaz se dividiam em núcleos de produção – algo tão inovador que, mesmo a poderosa Marvel só começaria a atuar desse jeito em fins dos anos 1970. O finalzinho da década de 1960 seria marcado pela publicação do primeiro número de O Pasquim, idealizado por jornalistas e cartunistas importantes: Jaguar, Ziraldo, Paulo Francis, Millôr Fernandes e Henfil – só para citar alguns.

Após fechar contrato com Mauricio de Sousa, a Abril lançou o nº 1 de Mônica e sua Turma, em maio de 1970. Nesse período, houve as primeiras manifestações de cartunistas como Laerte e Angeli na publicação universitária O Balão. Na década seguinte, esse pessoal faria fama em revistas como Circo e Chiclete com Banana (ambas, do editor visionário Toninho Mendes). Jayme Cortez lançaria Zodiako, sua obra mais autoral e que lhe conferiu o troféu O Tico-Tico. Zodiako estreou na revista Crás da Editora Abril, em 1974. Concebida por Cláudio de Souza – que tinha o sonho de ver uma revista da Abril só com artistas brasileiros – Crás foi inspirada em publicações européias como a Linus. Infelizmente, quando Cláudio saiu da Abril para fundar sua própria editora – a Idéia EditorialCrás foi cancelada. De Curitiba, partiam as principais revistas eróticas e de cunho folclórico, sob o selo da Grafipar, que aglutinou em suas fileiras, novos e veteranos autores, sob a editoria de Cláudio Seto. Mais que uma constante exposição de artistas e roteiristas nas bancas do país, a Grafipar, enquanto teve fôlego, operou como uma “grande” e influenciou o modo de trabalhar e encarar o mercado de todos os profissionais que passaram por ela.

Em 1980, a editora carioca Vecchi, especializada em “faroeste-espaguete”, lançou Chet (quase um anagrama de Tex), com roteiros do jornalista Wilde Portela e desenhos de seu irmão, o (então) novato, Watson Portela. Watson se transformaria num dos desenhistas preferidos de toda a HQB. Com um traço fortemente influenciado pelo quadrinho europeu, e suas “viagens” seqüenciais com a série Paralelas, Watson marcou para sempre a geração de leitores da revista de terror Spektro, editada por Otacílio d’Assunção Barros, o conhecido Ota. Em dezembro de 1981, o veterano desenhista Rodolfo Zalla deu início às publicações de sua editora, a D-Arte. Durante mais de uma década, abrigou reconhecidos talentos da indústria nas páginas de Calafrio e Mestres do Terror – duas das principais revistas de terror brasileiras em todos os tempos.

Outros rumos

Por volta de 1986, com a euforia gerada pelo primeiro governo civil brasileiro desde 1964 e com o efêmero “Plano Cruzado”, houve um boom de lançamentos em quadrinhos no Brasil. A Press Editorial (antiga Maciota), – começou a editar revistas de terror e ficção científica sob a batuta do editor Franco de Rosa – o mesmo que, anos antes, havia criado (com desenhos de Seabra) o personagem Capitão Caatinga, para o jornal Notícias Populares.

Em 1988, comecei a roteirizar para as revistas underground das editoras Ninja e Phenix, antes de iniciar uma profusa produção de fanzines e revistas independentes – como Meteoro e Os Protetores – sob o selo Fire Comics (que abrigou e/ou ajudou a promover gente do calibre de Joe Prado, André Valle e Marcelo Borba). Na realidade, as revistas independentes de quadrinhos encontram sua origem nos próprios fanzines de informação, que remontam à era “pré-xerox”, quando então, eram feitos em mimeógrafos. O primeiro que se tem notícia no Brasil é o Ficção (Boletim Intercâmbio Ciência-ficção “Alex Raymond”), de Edson Rontani, lançado em outubro de 1965. O Ficção se tornou uma referência para outros editores independentes Brasil afora, assim como o Historieta, de Oscar Kern, que circula até hoje – e que teve até uma edição especial pela Press.

Com o surgimento de modernas copiadoras, duplicadores digitais e de gráficas dispostas a oferecer serviços em off-set mais generosos, revistas baratas e de baixa tiragem tornaram possível a exposição de muita gente talentosa, caso do pessoal do grupo Saga (Alessandro Librandi e Walter Jr.); Wellington Srbek com o seu gibi Solar; Lacarmélio de Araújo, com a revista Celton; os quadrinhos “via download” da editora Nona Arte, editados por André Diniz; e, mais recentemente, inúmeras edições alternativas aclamadas no fandom, casos da publicação cooperada Brado Retumbante e da Manicomics (que apresenta a ótima Mulher-Estupenda, de JJ Marreiro).

Em 1990, o então Presidente da República, Fernando Collor, fechou a Funarte (Fundação Nacional de Arte), comandada por Ziraldo; acabando com a chance de muitos artistas publicarem suas tiras em jornais. Mais ou menos no mesmo período, desenhistas brasileiros começaram a desenhar para fora, principalmente para os títulos de linha da Marvel e DC Comics. Os que se destacaram foram: Marcelo Campos, Luke Ross, Joe Bennett, Roger Cruz e principalmente, Mike Deodato. Anos depois, com fama e dinheiro, criaram escolas especializadas, onde puderam transmitir seu know-how. Assim, surgiram o Curso Impacto de Luke Ross e a Fábrica de Quadrinhos – que era encabeçada por Marcelo Campos e que chegou a produzir a abertura do programa da Tiazinha para a TV Bandeirantes. Há alguns anos, houve uma cisão em seu corpo administrativo, surgindo a Quanta.

A partir de 2001, a Opera Graphica começou a lançar revistas com autores brasileiros, como Brakan, de Mozart Couto e Geraldão, de Glauco, além de álbuns de luxo sob o selo genérico Coleção Opera Brasil. Assim, tanto os antigos apreciadores, quanto uma nova geração de leitores pôde conhecer o trabalho de Emir Ribeiro, Flavio Colin, Rubens Lucchetti, Marcio Baraldi e muitos outros talentos.

Crise de identidade

A praticidade gerada pelos sites, blogs e fotologs, propiciou aos autores uma maior proximidade com seu público (casos de Seabra, Emir Ribeiro, E. C. Nickel, entre tantos outros), o que, sem dúvida, ajuda em muito na hora de vender seu “peixe”. Mas, na mesma proporção, a mídia virtual parece querer “empurrar” a mídia papel ao ostracismo, devido, principalmente, ao maior trabalho e custo para ser produzir uma revista impressa. 

Vivemos a “Era da Informática”, que deixou o mundo “menor”, sem barreiras e fronteiras. Cada vez mais se pensa em termos globalizados e, ao que parece, quem não se adequar a esta nova condição, estará fadado ao completo esquecimento! Se por um lado, toda a tecnologia disponível encurta as distâncias, por outro, rouba a identidade... não a do quadrinho, mas a do autor, que fica, cada vez mais, preso a uma estética pré-estabelecida de um modus operandi universalizado. A briga não pode – e jamais deveria ter sido sobre o que escrever – “Saci Pererê” ou “Pé Grande” (?) –, mas sim, sobre como escrever. E o melhor modo de se escrever ou desenhar uma História em Quadrinhos brasileira é, claro, o seu, o dele e o meu modo de escrever.... enfim, a escrita única e exclusiva de cada autor brasileiro. Afinal, por mais que haja globalização, jamais deveremos esquecer o princípio básico da benção divina de Deus: a de que... ninguém é igual a ninguém.

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