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Burne Hogarth: O Michelangelo das Histórias em Quadrinhos
Por Mário Latino e Marcio Baraldi
07/10/2010

Poucos artistas fizeram tanto quanto este gênio da ilustração para dar às Histórias em Quadrinhos o status de arte.

“Lembro-me de um dia, faz muito tempo, quando eu tinha doze anos de idade. Meu pai, com um pacote debaixo do braço, levou-me numa longa viagem de bonde ao Instituto de Arte de Chicago, e, ali, desenrolando uma pilha de meus desenhos, esboços e rabiscos – que tinha guardado com todo cuidado – perguntou aos senhores que estavam no balcão se aquilo tudo seria razão suficiente para que me deixassem matricular-me nas aulas de sábado da escola. E foi assim que tudo começou. Eu devolvo este livro a meu pai. Ele teria ficado muito orgulhoso de ver estas páginas.”
(Dedicatória de Hogarth no livro Tarzan, O Filhos das Selvas)

O quadrinho de aventuras surgiu nos anos vinte com Washington Tubbs de Roy Crane. Na esteira dele veio uma enxurrada de personagens que transformaram radicalmente o meio, até então dominado pelas histórias de humor. Um deles, talvez o mais famoso, foi Tarzan. Nascido da pena do escritor Edgar Rice Burroughs, já tinha sido adaptado ao cinema com sucesso quando o United Features Syndicate decidira transpô-lo para as páginas dos jornais. A escolha para desenhar Tarzan recaiu em Harold Foster que teve o mérito de adotar, por primeira vez, técnicas cinematográficas como ângulo de visão, planos, campo e contra-campo. O trabalho que Foster realizou ao narrar as aventuras do homem-macaco, como é sabido, foi clássico desde qualquer ponto de vista. O problema é que Foster não estava contente trabalhando para o United Features e abandonou a tira em 1936, para tentar fortuna no King Features Syndicate com as aventuras do Príncipe Valente. Tentando manter o nível da tira, os executivos do United Features começaram a procurar um substituto à altura. Entre os candidatos estava um jovem desenhista que atendia pelo nome de Burne Hogarth. Seu trabalho gráfico e domínio da anatomia fizeram que fosse contratado de imediato.

De início, Hogarth começou imitando o estilo sóbrio do prestigiado antecessor, mas aos poucos e na medida em que ganhava confiança, começou a impor o seu próprio. Assim, o universo de Tarzan, simples e majestoso na concepção de Foster, transformou-se em algo retorcido e quase aterrador, num mundo angustiante e cheio de formas pontiagudas e sombras ameaçadoras, onde homens e bestas tinham que lutar desesperadamente para sobreviver. Os leitores adoraram e Hogarth, cuja carreira como quadrinhista começara em 1926, tinha atingido o pináculo da profissão quase sem percebê-lo.

Burne Hogarth nasceu em Chicago no ano de 1911 e aprendeu a desenhar no Instituto de Arte de Chicago. Aos 15 anos começou a trabalhar como desenhista no Associated Editors Syndicate e foi professor de História da arte para uma dessas agências criadas pelo Presidente Roosevelt para avaliar a crise econômica. Em 1934 mudou-se para Nova Iorque e trabalhou alguns meses como assistente nos estúdios do King Features Syndicate até que o Mc Naught Syndicate lhe deu uma chance. Aí se encontrava, desenhando uma história de piratas, quando soube que o United Features procurava por alguém que substituísse Hal Foster.

Hogarth, ferrenho admirador de Michelangelo, dos artistas barrocos, do expressionismo alemão e das artes orientais, fez de Tarzan um laboratório para seus experimentos tanto no aspecto visual como nas técnicas narrativas. Seu Tarzan tinha o rosto e postura nobres e altivas, lembrando um anjo vingador saído direto de alguma pintura de Michelangelo. Mas apesar do excelente trabalho realizado, Hogarth não estava contente. Tarzan era uma história que não lhe pertencia e Burrouhgs, assim como seus herdeiros, não admitiam modificações nos roteiros. Por outro lado Hogarth também tinha problemas com o syndicate. Finalmente abandonou Tarzan em 1945, após oito anos de trabalho. Nesse mesmo ano apresentou o projeto de Drago, tira de sua autoria, para o Robert Hall Syndicate. Drago era uma tira ambientada nas pampas argentinas e seu protagonista, um gaúcho cuja fisionomia lembrava um Tarzan mais jovem, enfrentava os nazistas numa Argentina que só existia na mente de Hogarth. Talvez fosse essa falta de pesquisa histórica aliada a alguns erros de desenho, como cavalos totalmente desproporcionados, ou o roteiro pouco empolgante e cheio de erros, mas um ano depois a tira deixou de ser publicada.

Em 1947 e depois de reiteradas solicitações do United Features, Hogarth voltou para Tarzan, naquele que é considerado seu melhor período desenhando as aventuras do homem-macaco. Em 1950 Hogarth abandonou Tarzan para fundar a Escola de Artes Visuais de Nova Iorque, onde se dedicou a ensinar os segredos do ofício a aspirantes a desenhistas. Nessa escola se formaram artistas do calibre de Wallace Wood, Al Williamson, Dick Hodgins e Gil Kane, entre outros. Dedicou-se também a elaborar uma série de livros de desenho nos quais abordou temas como perspectiva, anatomia, luz e sombras que são hoje procurados como jóias raras por aqueles que desejam aprender os segredos da arte seqüencial. Após profundas diferenças com seu sócio Sylas Rhode, abandonou a escola em 1970, passando a se dedicar à pintura. Nesse período foi descoberto pelos críticos de arte de França que expuseram seus trabalhos em museus e escreveram numerosos ensaios sobre sua qualidade artística, resgatando-o do limbo em que tinha sido, injustamente, colocado.

Nos anos 70, Hogarth voltou brevemente a desenhar Tarzan, desta vez para a empresa do Edgard Rice Burroughs. Foram dois livros, Tarzan of the Apes e Jungle Tales of Tarzan, que saíram pela Watson-Guptill.

Ultimamente envolvido em palestras sobre a arte dos quadrinhos em ambos lados do Atlântico, Hogarth morreu em 1996, deixando seu nome inscrito no panteão dos imortais das histórias em quadrinhos. Hogarth formava com Alex Raymond (Flash Gordon) e Hal Foster (Principe Valente) o trio dos virtuosos da Golden Age (era de Ouro dos Quadrinhos), pois enquanto a maioria esmagadora dos artistas de Quadrinhos dessa época possuíam um traço caricato e exagerado (por vezes desengonçado), os três usavam uma anatomia perfeita e impecável. Dominavam o estilo clássico dos grandes pintores da Renascença, desenhando corpos e rostos exuberantes, inseridos em cenários detalhadíssimos, realistas e deslumbrantes. Verdadeiras cenas cinematográficas! Foi a grande contribuição que trouxeram para os Quadrinhos, conferindo as suas páginas a qualidade de uma obra de arte digna de figurar nos grandes museus do planeta.

Tal competência e genialidade fez os Quadrinhos subirem vários degraus de valorização estética e cultural, afastando-os da mera função de entretenimento descartável de então para colocá-los, definitivamente, num patamar até então nem sonhado: o da Nona Arte! Por tudo isso e muito mais Burne Hogarth será eternamente lembrado e reverenciado como o Michelangelo  dos Quadrinhos e as selvas densas e repletas de vida, detalhes e cores de seu Tarzan será sua eterna Capela Sistina! Amém!

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