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A conclusão de Akira por decisão judicial é lenda urbana?
Por Gonçalo Junior
23/11/2009

Akira #34 (Editora Globo)

Um dos assuntos que mais me intrigaram como leitor de Quadrinhos e pesquisador desde que consumo gibis e acompanho o mercado foi ter me deparado, por volta de dezembro de 1997, com o inusitado volume 34 do mangá Akira, obra-prima do quadrinhista japonês Katsuhiro Otomo. A edição trazia o selo da Globo. Eu tinha todos os 33 anteriores, publicados pela mesma editora, e, claro, comprei um exemplar na hora. Antes, corri ao expediente, pois havia a possibilidade daquele ser apenas o número de um lote de encalhe que eu havia perdido. Afinal, nada menos que quatro anos haviam se passado desde a sua interrupção, em setembro de 1993. Nunca – salvo engano – havia acontecido algo assim na história do mercado editorial brasileiro de Quadrinhos.

Quando chegou ao Brasil, Akira trazia a reputação de ser um dos mais populares mangás japoneses de sua época – e se tornaria um clássico de todos os tempos. Foi classificado por críticos como uma série das mais representativas do estilo cyberpunk, uma das tendências culturais da década de 1980 – definido por dicionaristas como um sub-gênero de ficção científica que une elementos dos velhos romances policiais, com cinema noir do pós-guerra e prosa pós-moderna, cujo exemplo máximo é o filme O Caçador de Andróides (Blade Runner). Logo virou longa-metragem de animação com o mesmo nome, lançado em 1988, com roteiro e arte do próprio Otomo. Que uma editora deu continuidade a um título de outra concorrente, inclusive a partir do número seguinte ao que foi interrompido, embora raro, não era novidade no segmento nacional de Quadrinhos. Foi assim, por exemplo, com o faroeste Tex em duas oportunidades: quando a RGE/Globo assumiu a antiga revista da Vecchi, que faliu, em 1983; e com a Mythos, em 1999. Ou seja, o mocinho de Bonelli e Gallepini se aproxima hoje do volume 500, depois de passar por quatro selos editoriais diferentes – sem dúvida, um raro esforço de respeito ao leitor-colecionador. 

Akira #35, 36, 37 e 38 (Editora Globo)


Só havia uma explicação possível para o caso Akira: uma decisão judicial que tivesse obrigado a editora de Roberto Marinho a terminar a coleção. Como a Justiça no Brasil se arrasta por excesso de subterfúgios e artimanhas jurídicas, a medida teria demorado tanto tempo. Quando a publicação foi interrompida, não se sabia ao certo quantos números ficariam sem ser publicados. O motivo provável, especulou-se, teriam sido as baixas vendas, é óbvio. A Globo explicou em nota no final da última edição que voltaria a publicar a revista assim que tivesse material novo. Com o título ressuscitado em 1997, a especulação sobre tal medida judicial que teria obrigado a editora fazer isso correu o país e virou fato. Hoje, há quem afirme de modo convicto que realmente assim aconteceu – é engraçado (e trágico) como no meio dos Quadrinhos nas coisas são ditas como verdades absolutas e inquestionáveis, quase sempre. Ao que parece, ninguém jamais procurou apurar o que realmente ocorreu. Como saber? Primeiro, mandei um e-mail à assessoria de imprensa do Procon em busca de ajuda: ou saber se tal sentença existiu ou ao menos identificar a pessoa que teria acionado a Globo na defesa do consumidor. Esperei alguns dias e não veio a resposta.

Cena do longa-metragem em animação baseado no mangá Akira


Deveria procurar também, claro, alguém que estivesse envolvido diretamente no episódio da parte da editora Globo. Pedi ajuda ao sempre gentil amigo Leandro Luigi del Manto, que na época era editor da revista e hoje comanda os lançamentos em quadrinhos da Devir. Leandro, se alguém não sabe, é um ícone dos Quadrinhos no país, um dos seus mais importantes e produtivos editores. Ele começou profissionalmente como assistente de produção pela Editora Abril em 1986. Na Globo, começou em 1989 justamente para cuidar da linha de Quadrinhos adultos. Pelas suas mãos passaram as edições dos mais importantes lançamentos nos últimos 30 anos, como O Cavaleiro das Trevas, Elektra Assassina, Watchmen, Ronin (todas pela Abril); Sandman, V de Vingança, Orquídea Negra e Akira (Globo); Authority e Liga Extraordinária (Pandora), Sin City, Lost Girls e tudo o mais que a Devir publicou nos últimos seis anos. Ele prontamente me concedeu a seguinte entrevista por e-mail, que foi complementada com a troca de mais algumas mensagens com dúvidas. Confira a nossa conversa:

Uma dúvida que me atormenta: a Globo levou quatro anos para concluir a cultuada série japonesa Akira. Como você trabalhava na editora, sabe dizer se isso foi resultado de um processo judicial movido por algum consumidor?
Eu era editor da série na época e me lembro de alguma coisa, sim. A publicação de Akira só foi interrompida por nós porque a série ainda estava sendo produzida no Japão naquele momento, e o ritmo deles era menor do que a produção mensal dos americanos da Epic (um dos selos da Marvel Comics). O que aconteceu foi que a produção americana (isto é, tradução + colorização) se equiparou à dos japoneses e os americanos tiveram de esperar a Kodansha (a editora original da série) terminar tudo antes de retomar a "ocidentalização" e só então publicar o restante. Portanto, tivemos que fazer o mesmo no Brasil.

Vocês publicavam a série quase simultaneamente com os Estados Unidos?
Sim. No Brasil, como utilizávamos os fotolitos da edição americana, tivemos de esperar também, primeiro, que os americanos terminassem a série, para que não ficássemos a "ver navios". Nesse meio-tempo, um leitor que se sentiu prejudicado fez uma reclamação junto ao Procon, sim. Mas a decisão de terminar a série em 1997, depois de quatro anos, já estava tomada havia muito tempo. Quem pegar a última edição lançada verá que nós simplesmente explicamos que a série havia sido interrompida por causas dos motivos que eu listei acima e que a série seria retomada tão logo tivéssemos todo o material em mãos (o que ocorreu tempos depois).

Então existiu realmente um processo contra a Globo movido por um leitor-consumidor...
Foi feita uma reclamação no Procon, como disse. Mas essa história de que a série foi publicada por causa de uma intervenção judicial de um leitor é mais uma das muitas "lendas urbanas" do mundo dos Quadrinhos... Nada disso é verdade. Uma editora não pode se comprometer a publicar uma série até o final porque depende de vários fatores externos. Akira não foi interrompida por causa de vendas baixas, mas, como expliquei, apenas porque não dispunha de material de reprodução disponível. Além disso, não existiam as facilidades de comunicação que a Internet nos propicia hoje em dia.

Akira era muito comentada, celebrada, cultuada, adorada. Até hoje seus exemplares são valorizadíssimos nos sites de vendas. A saga vendia muito mesmo?
Não sei qual era a tiragem real de Akira pela Globo, pois nós da redação não tínhamos acesso a esses números. Mas sabíamos que a venda girava em torno de sete mil exemplares. A venda era quase uma linha reta nos gráficos! (ou seja, havia um volume constante e fiel de compradores/colecionadores). Quando terminou, a venda estava por volta de cinco mil exemplares.

Em 1997, como se deu a decisão de concluir a série? Vocês estavam com o material inédito havia muito tempo ou demorou-se muito para concluí-la nos Estados Unidos e chegar a vocês?
Embora o contrato de publicação fosse com a editora japonesa Kodansha, como disse acima, o material de reprodução era comprado por nós da Marvel, que produziu as edições colorizadas. Assim, decidiu-se que só retomaríamos a publicação quando houvesse certeza absoluta de que não haveria mais interrupções. Quando a Marvel lançou a edição americana
#38, a última da saga, foi feito por nós o pedido de fotolitos e, em alguns poucos meses, a Globo retomou a série.

Suponho que você disse: temos o material, vamos completar a série? Foi isso?
Exatamente. Nós recebíamos todas as edições impressas da Epic e, no caso de Akira, mesmo sem uma autorização oficial por parte da diretoria da Globo, começamos a produzir a tradução. Basicamente, foi o respeito ao leitor que nos levou a fazer isso e a argumentar que deveríamos terminar a coleção. Eu respondia diretamente à Diretora de Redação, que era Flavia Ceccantini. Daí, ela levou o caso aos seus chefes. Quando recebemos o "OK", foi só mandar letrerar (na época, o processo ainda era manual e muito mais demorado) e fechar cada edição. Para mim e para as outras pessoas da nossa equipe, foi um alívio quando conseguimos terminar a série, pois éramos todos grandes fãs!

Alguém da Globo chegou a desaconselhar a não lançar o material tanto tempo depois?

Sim, aconteceu isso. Mas, felizmente, conseguimos fazer com que o projeto não fosse "derrubado". Vale observar que a Globo não era (e não é) uma editora de Quadrinhos. Os Quadrinhos sempre foram um segmento editorial e, num cenário mais amplo, não geravam muito dinheiro (com exceção, talvez, da Turma da Mônica). As outras publicações da casa (revistas adultas de informação e entretenimento) geravam uma receita publicitária muito, muito maior. Então, foi tudo uma questão de "não levar prejuízo" com a produção e distribuição do último lote de Akira do que qualquer outra coisa.

Para se colocar em definitivo uma pedra sobre essa história, apelo aqui que o leitor que entrou com uma queixa no Procon contra a Globo por causa de Akira entre em contato para dar detalhes de sua iniciativa pelo e-mail goncalo.junior@gmail.com. A história dos Quadrinhos no Brasil agradece.

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