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Mutarelli volta a produzir Quadrinhos
Por Gonçalo Junior
05/11/2009

O maior, melhor e mais original autor do país surgido nos últimos 30 anos vai voltar a produzir Histórias em Quadrinhos. Lourenço Mutarelli pretende começar em poucos meses – assim que concluir um romance, já na reta final – um álbum, ainda sem título definido (o que costuma fazer quando o trabalho está quase pronto). Ele adianta que o protagonista da trama será um aposentado bem idoso, que vive isolado de tudo e de todos, envolvidos com problemas existenciais. "Estou amadurecendo essa história há muito tempo e voltei a sentir a mesma empolgação do passado para fazer Quadrinhos. Daí minha decisão de voltar". E acrescenta: "Nessa trama, quero falar da decadência física e humana de uma pessoa, um tema que sempre me interessou e que está presente de diversas formas em minha obra", observa.

A história não tem número de páginas pré-estabelecido. Vai ser desenvolvida para o Escritório RT e publicado provavelmente pela Companhia das Letras, com quem mantém um acordo de exclusividade para seus romances. No começo deste mês, Mutarelli pretende apresentar o projeto da graphic novel a um dos sócios da empresa, Rodrigo Teixeira, que foi o produtor do filme O Cheiro do Ralo e com quem o artista tem desenvolvido uma série de trabalhos em diversas áreas, inclusive teatro. Se aprovado, o próprio RT dará um adiantamento e buscará um editor, além de ficar responsável por sua transposição para outras mídias, como o cinema. Esse retorno aos Quadrinhos não significa que Mutarelli se cansou ou se deu mal como romancista ou pretende nunca mais fazer cinema. Muito pelo contrário. A cada novo livro – acaba de lançar dois volumes de uma só vez, pela Companhia das Letras (O Natimorto e Miguel e os Demônios) ganha mais reputação nessa área. E até o começo do ano deve estrear o longa-metragem O Natimorto, do diretor Paulo Machline, com Simone Spolodoreno. No filme, o artista interpretará o protagonista.

Mutarelli parou de fazer Quadrinhos há cinco anos e deixou um buraco sem tamanho e sem fundo na produção nacional. Seu último trabalho, que estava na gaveta havia muito tempo, saiu em 2006, com o título de A Caixa de Areia. Ao mesmo tempo em que começou uma bem sucedida relação com o cinema – fez os desenhos da personagem principal do longa Nina e teve O Cheiro do Ralo (ambos dirigidos por Heitor Dália) adaptado para o cinema - no qual ele fez sua estreia como autor e roubou a cena como um impagável guarda trapaceiro. E passou a se dedicar à literatura. Foi então que chegou a declarar que estava abandonando os Quadrinhos para sempre. O motivo principal foi a sua chateação acumulada ao longo de uma década de parceria com a editora Devir, com quem jamais assinou contrato e de quem recebia regularmente pequenos "adiantamentos". Enquanto o fim da relação permanece num impasse, que pode acabar nos tribunais, Mutarelli repensou e agora quer começar vida nova na arte que o consagrou. Entusiasmado, ele fala de seus planos. Deseja cuidar do novo álbum pessoalmente. "Quero realizar um velho sonho de ter, por exemplo, uma edição de capa dura, o que eu nunca consegui na Devir".

O artista também pretende trabalhar com cores, vai principalmente usar ecoline e acrílico. Até pretende sugerir ao editor o tipo de papel para impressão do miolo, o mesmo usado no volume 2 da revista literária Serrote, que acaba de ser lançada. "Gostei muito da cor, do resultado da impressão sobre o papel, que tem um tom mais macio e de brilho fosco", divaga. Outra opção que ele quer sugerir é tentar imprimir a edição como algo mais próximo da velha revista Seleções do Digest, cujas gravuras ele adorava olhar quando criança. Na verdade, Mutarelli nunca deixou de produzir Quadrinhos. Fazia para si mesmo, sem pretensão de publicar, de forma experimental. Ele guarda nada menos que vinte cadernos de histórias, que recentemente foram temas de um trabalho de conclusão de curso de estudantes da Universidade Metodista, de São Bernardo. Não são histórias convencionais, faz questão de dizer. Muitas são devaneios, sensações, percepções, impressões, desejos, vontades etc. Tudo feito como exercício de criação e terapia, sem o propósito de ser publicado. “Tem muita coisa ali que me agrada muito, existe uma espontaneidade que me parece bem legal”, ressalta, sem esconder a possibilidade de que esse material venha a ser publicado. Em julho deste ano, ele deu sinal de vida ao publicar uma História em Quadrinhos curta na revista Piauí.

Em 25 de janeiro de 2002, publiquei no jornal Gazeta Mercantil o último de vários ensaios que escrevi sobre a obra de Mutarelli. Na época, comecei dizendo que se um livro muitas vezes vende pela capa, valia a pena correr o risco no caso do novo álbum, A Soma de Tudo. Afirmei ainda que quem não conhecia seu trabalho se surpreenderia com a edição que a Devir lançava naquele momento. “O livro pega o leitor à primeira vista, com uma capa arrebatadora, que combina desenho e pintura com cores - integradas ao gênero sombrio que o colocou na posição de principal revelação das Histórias em Quadrinhos brasileiras na década de 1990”. e acrescentei: “internamente, a qualidade se repete em relação aos livros anteriores da trilogia policial protagonizada pelo detetive Diomedes, um anti-herói azarão que busca a fama pela solução de crimes”. Foi uma história que dividiu os leitores de Mutarelli. Parte não gostou do resultado. Diomedes reaparecia no que deveria ser a conclusão da trilogia antecedida por O Dobro de Cinco e O Rei do Ponto, lançados com intervalo de um ano cada, a partir de 1999. Anotei: “Trata-se do melhor que se produziu em Histórias em Quadrinhos nacionais nos últimos três anos”. Afirmei que, como seu processo de produção era meticuloso e detalhista, Mutarelli frustrava o leitor, de certa forma, por não encerrar a série, como havia prometido. Com o adendo de 'Parte 1', o novo livro tinha menos ação e preparava para o desfecho que viria no próximo volume. Não significava, porém, queda na qualidade de seu trabalho. Pelo contrário.

Mutarelli, na verdade, rompeu com o convencionalismo e resolveu dar um break na série para retribuir o modo como foi ovacionado em Portugal, um status que não tivera até então no seu país. Ele, aliás, com seu jeito de produzir e de se expor no mercado de Quadrinhos nacional sem se deixar seduzir pelas panelinhas, acabou por se impor como artista ímpar e talentoso que é - repito, sem temer a pieguice, o maior de todos - em relação aos prêmios que recebeu. Simplesmente porque não era possível não premiá-lo. Ia pegar mal. “Passei uma semana entre Amadora e Lisboa e posso garantir que foram os dias mais encantadores e mágicos que vivi”, disse-me na época. Na ocasião, ele também me falou que fazer Quadrinhos era um processo lento e árduo, que exigia sacrifício e disciplina. Por outro lado, se não bastasse o desgaste normal no seu processo de produção, A Soma de Tudo foi realizado num momento doloroso, quando o autor perdeu o pai, revisor e principal incentivador de suas obras. Talvez, por isso, tenha se tornado mais especial que os outros. Este sofrimento, no entanto, não interferiu no resultado técnico do livro. O episódio passava a sensação de uma produção cinematográfica nos moldes do que faziam os grandes estúdios americanos das décadas de 1930 a 1960 – tamanho era o seu zelo em buscar a melhor angulação, cenários e figurinos e arrancar de seus personagens as expressões de dramaticidade mais convincentes. O resultado mostra um êxito que só diretores como Billy Wilder, Robert Capra, George Stevens e John Huston, entre tantos outros, conseguiam.

Um exemplo disso é Diomedes, pensado para aparecer apenas no primeiro livro, mas que mostrou mais talento e convenceu seu criador a transformá-lo em protagonista da série. 'Todas as minhas personagens morriam no final da história. Diomedes foi mais forte, eu fraquejei, não consegui matá-lo', escreveu o autor no posfácio. Assim fechei o texto: “Mutarelli continua a se distanciar da maioria dos artistas brasileiros de Quadrinhos por causa da sua visão de como fazer histórias a partir da combinação do desenho com o texto elaborado e imaginado como parte fundamental do conjunto. Ou seja, ilustração e roteiro são indissociáveis para se fazer bons Quadrinhos. Seus trabalhos são pensados em detalhes, a partir de uma série de elementos visuais e de efeito que ele pega principalmente do cinema e da literatura policial - americana e inglesa. Por outro lado, muitos artistas contemporâneos ou de gerações anteriores patinam na sobreposição auto-suficiente e arrogante do desenho sobre a ideia. Como se o roteiro fosse algo menor em qualquer narrativa de imagem. Por essas e outras, ele se consagra como um artista completo”.

Tanto tempo depois com Mutarelli longe dos comics, pouca coisa mudou no mercado de Quadrinhos e, a meu ver, quase sempre para pior, como a entrada de editores tubarões atrás de adaptações literárias para mamar no programa de compra de livros do Governo Federal. Saber que Mutarelli vai voltar com o primeiro de muitos álbuns que certamente virão é uma alegria, um alento, uma esperança de que o nível e a qualidade dos Quadrinhos brasileiros possam melhorar. Amém!

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