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Roberto Marinho, o vilão que amava os Quadrinhos
Por Gonçalo Junior
06/02/2008

A notícia veiculada no dia 28 de janeiro pelo site Universo HQ sobre a saída da Editora Globo do mercado de revistas em Quadrinhos é muito mais grave e lamentável do que parece. Pelo menos assim acredito que precisa ser visto. Não é apenas mais uma empresa que deixa o segmento – embora anuncie que migrará para edições em livros com venda restrita a livrarias. O fato deve ser visto como um acontecimento histórico importante e de grande relevância até mesmo para a História dos Quadrinhos no Brasil. E um pretexto para algumas reflexões sobre as causas dessa medida e o impacto direto ou indireto que isso terá no mercado. Principalmente porque é raro que uma editora se proponha a publicar material 100% nacional, como vem acontecendo há algum tempo.
 
É preciso salientar, inicialmente, que a Globo ocupava o posto de uma das duas últimas grandes editoras brasileiras de Quadrinhos de bancas do século XX. Agora, resta apenas a Abril, moribunda nesse segmento. A Brasil-América (Ebal, de Adolfo Aizen), O Cruzeiro (Assis Chateaubriand) e a Bloch (Adolfo Bloch) desapareceram entre as décadas de 1960 e 1990 da mesma forma, decadentes e longe do brilho de outrora. Mais que isso, sem a Globo, encerra-se um ciclo de 71 anos de atividades editoriais de Quadrinhos de banca do grupo, uma longa tradição iniciada precisamente em junho de 1937 por Roberto Marinho, quando este mandou para as bancas o primeiro número do suplemento trissemanal O Globo Juvenil. De lá para cá, seu negócio apenas mudou de nome, mas o empresário jamais deixou de publicar gibis. Primeiro, os tablóides e revistas saiam como edições O Globo; em 1952, Marinho fundou a Rio Gráfica e Editora (RGE), que virou Globo em meados dos anos de 1980.

Marinho teve uma história gloriosa como editor de quadrinhos, sempre auxiliado pelo inseparável Djalma Sampaio – os dois trabalharam juntos durante pelo menos quatro décadas. No começo, os tablóides foram editados por ninguém menos que Antonio Callado e Nelson Rodrigues. Marinho e Sampaio fizeram gibis inesquecíveis que ainda hoje encantam velhas e novas gerações de colecionadores. Qualquer adulto, especialmente do sexo masculino, que tenha entre 35 e 80 anos e leu Quadrinhos na infância ou na adolescência, lembra-se de algum título da RGE. Nos anos de 1930, circulou O Globo Juvenil; na década de 1940, Globo Juvenil Mensal, Biriba e Shazan!, entre outros. A seguir, só para citar alguns exemplos, destacaram-se O Fantasma e Flash Gordon (anos de 1950). Na década seguinte, veio Recruta Zero. Para os mais novos, os anos de 1970 foram marcados pelos personagens infantis Riquinho, Bolota e Brotoeja; e pelos super-heróis Marvel. Ah, sem esquecer a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo. Por fim, a fase dos heróis (Tex) e nova tentativa com super-heróis a partir de 1982. Nos últimos 15 anos, o que se viu foi uma editora que mais parecia uma nave à deriva, que só não perdeu o rumo graças a Mauricio de Sousa.

Existem bons motivos para se acreditar que a Globo não voltará a publicar gibis no formato como Marinho ajudou a consagrar. Talvez nem tenha sido uma decisão tão difícil quanto parece, pois a editora deu várias mostras de incompetência e ou de descaso com as revistinhas, cuja pá de cal aconteceu quando deixou Mauricio de Sousa escorrer como água pelos dedos das mãos e migrar para a multinacional Panini. Mauricio foi o último grande empreendimento de ousadia das Organizações Globo, quando um vantajoso contrato tirou o mais bem sucedido artista brasileiro da concorrente Abril no final de 1986. Mauricio, ao que parece, migrou para a Panini porque estava insatisfeito e sem perspectivas. Na Globo, suas vendas despencaram em duas décadas e ele não teve o prestígio que esperava e merecia da televisão. Ou seja, ter seus desenhos animados exibidos e apoiados na maior emissora de TV do país – por duas ou três vezes eu o entrevistei para o jornal Gazeta Mercantil sobre seus planos de entrar na grade da Globo. Se tivesse ocupado uma faixa do decrépito programa da Xuxa, por exemplo, com seus bonecos e animações, seus gibis certamente teriam um suporte importante para vendas. Até que ponto a saída do empresário e criador teve impacto ou relevância na decisão não se sabe publicamente. Deixaram ele partir como parte de um plano para sair dos Quadrinhos de bancas? Por que se fazer isso com quem mais vende gibis no país? As perguntas são muitas.



Lúcia Machado, diretora da Unidade de Negócios Infantis da Globo, culpa a distribuição e os jornaleiros pelo fim dos gibis da Globo. Em entrevista a Sidney Gusman, ela disse: "É uma decisão econômica, financeira e de mercado. Estamos saindo temporariamente das bancas, por estarmos meio descontentes com a distribuição". Em seguida, "Hoje, simplesmente se coloca a revista lá e ponto final. Não há um trabalho de visibilidade, de marketing, nada. Um produto novo não tem nenhuma chance de sucesso. É preciso mudar tudo". Ora, essa responsabilidade não cabe ao próprio departamento de marketing e promoção da Globo? Não é novidade que esses dois braços do mercado sempre tiveram suas sujeiras e golpes contra os concorrentes. Mas não sejamos levianos. Quem menos tem culpa nesse processo de decadência da Globo nos gibis são a distribuição e venda. A troco do que a Globo seria penalizada com a exposição de seus poucos gibis? Por interesse da Abril, que foi desbancada do topo pela Panini e por editoras de menor porte? Onde, portanto, o departamento editorial e a própria direção do grupo Globo errou? Por que não buscou outras linhas de Quadrinhos como material americano ou japonês? Por que não se usou a mídia do próprio conglomerado para alavancar as vendas? Por que não se tentou patrocínio? Por que não se fez promoção casada de gibis com revistas ou com os jornais?

A recente compra da Fernando Chinaglia pela Dinap, da Abril, em outubro passado, trouxe à tona a discussão da distribuição de revistas para banca. A fusão das duas maiores distribuidoras do Brasil - e a criação da Treelog S. A. Logística e Distribuição, uma nova empresa da Abril - foi muito criticada pelos concorrentes. Principalmente pela Globo, apesar da promessa de um comunicado da Abril de que as duas empresas seguiriam com administração e operações comerciais separadas, atendendo normalmente seus respectivos clientes. O objetivo da fusão, ainda segundo o comunicado, é “alcançar eficiência ainda maior na distribuição de publicações”, levando em conta também o “surgimento e consolidação de novas plataformas de distribuição, notadamente a Internet e demais mídias digitais”. O discurso, claro, é louvável. Esperemos a prática. Mas a discussão aqui é outra. A Globo tratou seu núcleo de Quadrinhos nos últimos anos como um estorvo, sem qualquer estratégia de crescimento ou de consolidação que esbarra, mais uma vez, numa suposição de descaso ou de incompetência. Nadou displicentemente contra a corrente ao apostar nos personagens de Ziraldo, que nunca se provaram eficientes em bancas, somente nas livrarias. Na burocracia de um mega conglomerado de empresas de comunicação, a memória de seu fundador provavelmente sequer foi lembrada na hora de se tomar uma decisão que interrompe a mais longa trajetória de atuação do mercado editorial brasileiro. Será que os executivos sabem o quanto os Quadrinhos tiveram importância para a construção do grupo e até mesmo como valor sentimental para o empresário que gerou tudo aquilo? Se não, vou lembrar: os gibis deram muito dinheiro para Marinho. Muito mesmo. E por muito tempo, até a fundação da TV Globo.

Roberto Marinho, assim como Aizen, seu amigo-inimigo-concorrente-amigo, criou uma afeição e até uma paixão por essa forma de entretenimento que tanto encantou gerações de crianças e adolescentes. Dona Lourdes, proprietária da distribuidora de Quadrinhos Intercontinental Press, contou-me em entrevista à Gazeta Mercantil, em 2002, que, até alguns anos antes de sua morte, o próprio empresário cuidava pessoalmente dos contratos de compra das tiras para o jornal O Globo. Escolhia um número bem maior de personagens do que publicaria porque era assim que encarava a concorrência, mesmo que ela praticamente não mais existisse. Foi uma de suas últimas tarefas no seu jornal. O jornalista construiu uma biografia controversa, polêmica. Suas ligações com o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco o transformou num aliado da ditadura e um vilão da democracia, combatido com ferocidade pela esquerda. Por suspeitas diversas, ainda não devidamente provadas. No segmento de Quadrinhos, ele tomou os heróis de Adolfo Aizen numa manobra pouco ética e também virou um vilão para muitos seguidores da Ebal. Mas não se pode negar à sua memória o reconhecimento por seu empenho em estabelecer a indústria dos gibis no Brasil. Nem impedir que caia uma lágrima pela ausência que ele faz quando seus seguidores resolvem ignorar seu passado e sua história.

P.S.: Numa entrevista que me concedeu em abril de 2000, quando a Abril completava 50 anos, Roberto Civita me disse que enquanto existisse a editora, O Pato Donald continua a circular. Mesmo que se tivesse de fazer isso de forma holográfica, uma vez que o pato fazia parte de uma história de sucesso.

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