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O caso Conrad: censura como nos velhos tempos
Por Gonçalo Junior
04/08/2006

Assim que vi no site Universo HQ a capa do álbum El Gaucho, genial parceria entre Hugo Pratt e Milo Manara que seria lançado pela Conrad, mandei um e-mail para Rogério de Campos, dono da editora. Somos velhos amigos e cobrei dele uma explicação para a publicação na capa da mesma imagem usada na do meu livro Tentação à Italiana – Um Perfil dos Mestres do Erotismo Contemporâneo, lançado há exato um ano, pela Opera Graphica. Perguntei a ele se não teria sido mais correto colocar a ilustração adotada em praticamente todas as edições estrangeiras, que traz uma linda garota em pose de dançarina. A única exceção é a americana, que a editora brasileira resolveu ter como referência.

Rogério me ligou e deu uma explicação à queima-roupa e em tom de desabafo: optou pelo desenho porque assim seria “mais fácil” driblar a censura. Driblar a censura? Como assim, cara-pálida? Depois de se desculpar – disse que não se lembrou de Tentação à Italiana na hora de definir a escolha –, passou a relatar uma série de episódios de censura que sua editora tem enfrentado com várias distribuidoras de revistas e livros por todo Brasil. O problema se estende também a determinadas redes ou livrarias. Principalmente as regionais. No final da conversa, autorizou-me a citar alguns casos aqui. Vamos lá.

Como se sabe, a Conrad tem um esquema bem particular – e eficiente – de venda de livros em bancas de jornal, já consolidado, diga-se – algo que só a gaúcha L&PM, com seus livros de bolso, tem experimentado. Pois bem. A questão é que, para que isso seja feito, a editora é obrigada a submeter previamente as capas de suas obras à censura daqueles que vão levar os exemplares até os consumidores. E eles têm vetado determinados títulos. Em certos estados do Sul/Sudeste do Brasil, por exemplo, os títulos do Robert Crumb não podem ser vendidos por causa do seu conteúdo considerado pornográfico.

E olha que já se passaram quase 40 anos desde que boa parte do material publicado pela Conrad foi produzida. São os álbuns: América, Minha vida, Fritz the cat, Mr. Natural, Mr. Natural vai para o hospício e até o musical Blues. Pouca gente sabe, mas Crumb se transformou sem querer – era pirateado – no estopim para que a ditadura militar proibisse a circulação da revista Grilo, que existiu entre 1971 e 1973 e teve 48 números publicados. Foi um caso único em que a censura não deixou que uma revista em Quadrinhos continuasse durante o regime.

Segundo Rogério, uma grande rede de livrarias, de alcance nacional, recusa-se a vender Antígona, que acaba de sair. O gerente alegou que a capa era muito “lasciva” apenas porque o traço lembra as muitas versões do Kama Sutra. A propósito, seu conteúdo é dirigido ao público infanto-juvenil e foi escrito há aproximadamente 2.500 anos. Para quem não sabe, trata-se de um dos maiores clássicos da tragédia grega. A peça conta as desventuras da filha de Édipo e Jocasta, que luta sozinha contra um rei tirânico, seu próprio tio, para garantir um funeral digno a um de seus irmãos, considerado um traidor. Firme em suas convicções, Antígona se torna vítima e símbolo dos abusos gerados pelo excesso de poder. A versão da Conrad é uma adaptação feita por dois dos principais autores infanto-juvenis da Índia, Gita Wolf e Sirish Rao. O texto, em 32 páginas, foi ilustrado a partir das peças de cerâmica da Grécia Antiga por Indapramit Roy, um dos mais influentes artistas indianos contemporâneos.

Outro caso de censura: o genial Preto no Branco, de Allan Sieber, não pôde ser vendido em alguns pontos de Curitiba porque o autor foi considerado obsceno. O Vampiro que ri, de Suehiro Maruo, traz uma surreal aventura de sexo e terror pelas ruas de Tóquio, com colegiais maliciosas que lucram com o desejo de velhinhos pervertidos. Mas não foi esse o motivo do veto. Sua capa teve de ser trocada por exigência de outro distribuidor. O editor admite que, por causa da pressão, a Conrad tem se autocensurado. Ele levou a questão para ser discutida numa reunião da Associação Nacional de Editoras de Revistas (ANER), mas se queixa que não mereceu a devida atenção. Um dos sócios teria lhe dito que ele não sabia nem a missa metade do que estava acontecendo em relação a pressões para mexer no conteúdo de revistas de diversos gêneros – e não apenas aquelas que tratam de nudez ou de sexo.

Em 1954, os editores de gibis criaram um código de ética com o propósito de justificar para a opinião pública que gerenciavam uma indústria responsável e que não induziria mais crianças e adolescentes ao crime, à prostituição e ao homossexualismo. Medida semelhante fora tomada em 1948, mas se mostrara ineficiente porque poucos donos de editora a respeitaram. Da segunda vez, entretanto, foi diferente, uma vez que o papel do distribuidor se tornou decisivo. Eles cumpriram à risca a promessa de só repassar revistas com o código. No caso do Brasil, hoje, o fato é que não vivemos mais com o pessoal dos quartéis no poder, quando a tesoura decepava a liberdade de expressão sem rodeios. A censura agora vem travestida de moralismo. Mesmo que, para isso, as criancinhas sejam usadas como pretexto. Explico. Muitos juizes de menores em todo país não se cansam de condenar os editores de revistas de sexo de infligirem o Estatuto da Criança e do Adolescente, com suas capas de grande apelo “pornográfico”. E, de vez em quando, exercitam o poder – e manda fazer apreensões.

O caso mais conhecido é de um magistrado carioca. Há anos, revistas como Playboy, Sexy, Private e Buttman circulam na capital carioca com capas mais comportadas em que nem mesmo um seio aparece. São impressas exclusivamente para a cidade. Só assim não são recolhidas. Em estados do Nordeste, a pressão é contra G Magazine, revista dirigida ao público homossexual. Sua circulação em determinados locais é proibida. Como se o enfoque funcionasse como uma praga e desviasse algum marmanjo para a “perversão”. Haja hipocrisia. Haja preconceito. O que parece urgente é discutir a crescente onda de retrocesso rumo aos tempos de trevas da censura não muito distantes. Não existe boa ou má censura. Todas são perversas, estúpidas, burras. E feita por perversos, estúpidos e burros. O censor é a escória da racionalidade, um ser sem respeito próprio porque se justifica pela necessidade do dever cumprido. Confessa, assim, sua subserviência em realizar tarefa tão suja.

Na ditadura, a censura era policial. Agia-se a força, dentro da máxima “eu prendo e arrebento”. Hoje, é empresarial, moral, econômica e ideológica. Censura-se preventivamente em nome do politicamente incorreto. Nas redações de grandes jornais, que conheço um pouco, muitos jornalistas puxa-sacos e carreiristas que ocupam cargos de comando vetam matérias por convicção ou apenas para não causar aborrecimento aos donos. Ou porque a linha política é neoliberal “moderninha”. A Rede Globo censurou os cartuns dinamarqueses contra o Alcorão no ano passado num suposto respeito às religiões islâmicas. A moral vem em nome de Deus, das religiões, da tradição. Visa atender a uma classe média brasileira perversa, como disse recentemente o governador paulista Cláudio Lembo, que está sempre pronta a impedir qualquer avanço social porque isso significa fazer concessões.

E assim o mundo gira e a censura se banaliza. Como a violência, a corrupção e a impunidade. É imprescindível que alguém de bom-senso traga isso à discussão. Que se dane o politicamente correto. Que se dane a moral. Quero ter o direito de dizer isso e de ler o que quiser. E o resto que vá fazer sexo, pois é muito bom para o corpo e a mente.

A seguir: Os quadrinhistas brasileiros e o mito de Copyright Kid

 Do mesmo Colunista:

O tabu das panelinhas, um mal dos Quadrinhos

Crise nos Infinitos Gibis – Parte 2 (Por que o cinema não salva os super-heróis?)

Crise nos Infinitos Gibis - Parte 1 (O Mangá e o mito da nova tecnologia)

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