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Mil Perigos – Parte 2
Por José Salles
27/04/2007

As capas de Mil Perigos #2, 3 e 4

  
Marcelo Bicalho é outro nome indispensável na História da Mil Perigos. Chamou a atenção dos leitores que até então jamais haviam visto suas HQs, ou que as conheciam há pouco tempo (como era o meu caso), pela fabulosa versatilidade, ilustrando em diversos estilos as mais admiráveis idéias, suas ou de outros roteiristas, como Ed Gomes em Raid (publicada no número 1), uma aventura genocida & paranóica, surreal & engraçada. Em obra totalmente diversa, Bicalho bolou & desenhou para o segundo número história chamada Os Eleitos, que começa parecendo HQ de militância étnica e acaba num divertido deboche messiânico. E pelo visto Bicalho estava mesmo bem humorado neste número 2, pois é toda sua também a HQ A Visitante, onde homenageia o travecão Divine (dos filmes de John Waters). No terceiro número, Bicalho ilustra HQ escrita por Eddy Gómez (ativo roteirista da Mil) chamada Território que é, sem nenhum exagero, umas das melhores HQs já feitas no papel. Um capricho visual que mostra os conflitos que se escondem na hipocrisia das relações sociais em nosso mundinho tecnocrata. A HQ de Bicalho no 4º número da Mil Perigos chama-se Confiança, que se refere exatamente à falta de confiança diante das traições nos laços familiares e sociais. Marcelo Bicalho encerra sua participação no número 5, com uma HQ aparentemente sem título, narrada com sutil humor negro, mostrando a vingança da viúva ultrajada, que transforma o velório do infiel em animada festa, balbúrdia que só aborrece ao vizinho rabugento.

Outro ilustrador muito festejado pelos leitores da Mil Perigos foi Osvaldo Pavanelli. Seu traço, ilustrando com maestria personagens assustadores e/ou patéticos, tornou-se marca registrada entre os apreciadores da revista. Tudo Pelo Meu Emprego (publicada no número 1) é um implacável deboche contra a sociedade hierarquizada. Também é deste primeiro número É Atrás Que Elas Gostam, HQ com título de pornochanchada que é uma obra-prima do voyeurismo udigrudi. Mas a melhor história desenhada por Pavanelli na Mil foi mesmo, na opinião deste humilde escriba, aquela que está nas páginas do segundo número: escrita pelo historiador e quadrinhista André Toral, Negócios em Havana é uma preciosidade inigualável da arte seqüencial. O personagem principal é Roberto Ferreira (tão amoral & irresistível como podem ser os anti-heróis das HQs), brasileiro de 40 anos de idade tentando levar a vida na Miami de 1959. Duro, ele aceita participar de um seqüestro em Havana – e a esta altura, como já puderam perceber os leitores mais atentos, a guerrilha de Fidel Castro vai interferir profundamente nesta história, atropelando a percepção alienada do personagem principal. Mas o que conta mesmo é a narrativa ágil, tensa & violenta, de fazer babar o melhor diretor de filme noir. André Toral teve outra HQ de sua autoria (desta feita roteiro & desenhos), publicada na Mil Perigos, no número 1, chamada O Primeiro Homem na Terra, onde mostra aviadores ao lado de indígenas, que na verdade parece uma crítica ao didatismo oficial dos livros escolares.
 
O gaúcho Kipper foi outro que assombrou os leitores da Mil Perigos, principalmente no derradeiro número da revista, com Reunião em Família. A partir de temas áridos (incesto & estupro familiar), Kipper construiu HQ cheia de suspense, erotismo pervertido & imoral (e, talvez por isso, irresistível), desenhada com pendor renascentista. Reunião em Família é isso, história de traumas e vinganças, obra-prima da antologia udigrudi brazuca. No número anterior de Mil Perigos, o 4, Kipper havia divertido os leitores com Ok, Baratas, mostrando baratas (aqueles bichinhos nojentos) marxistas militantes de esquerda. Quando seu trabalho apareceu nas páginas de Mil Perigos, Edgar Vasquez já era bastante conhecido especialmente graças às tirinhas do Rango, publicadas por todo o Brasil há alguns anos. Na Mil brilhou um outro personagem de sua autoria: Pirú, o papão das mocréia, homem esquisitíssimo que só sente prazer em sair com mulheres feias, trabuzus indescritíveis. Mas a melhor participação de Vasquez na Mil Perigos foi numa charge onde aparece a horrenda Zélia Cardoso de Mello, a ministra da economia do governo Collor, a pior piada já contada por Chico Anísio, uma das grandes responsáveis pela extorsão das cadernetas de poupança de todos os brasileiros, num dos maiores escândalos, num dos maiores roubos na História da República Brasileira – provavelmente na História de todas as Repúblicas. Na charge, Vasquez aproveita para detonar um livro oportunista que estava sendo lançado na época (uma biografia da mocréia escrita por Fernando Sabino, chamado de “Sabido”).

Nonô Jacaré, de Patati e Allan 

Além do Pirú, Mil Perigos mostrou alguns outros personagens memoráveis em suas páginas – alguns deles já conhecidos de outras publicações, exemplo é Pedro, o Podre de Glauco Mattoso (autor) e Bira (ilustrador). Tipinho fácil na revista Tralha, infelizmente apareceu numa única historinha na Mil Perigos. Outro que também reapareceu na Mil foi Nonô Jacaré, este formidável personagem de Patati (textos) e Allan (arte), que os leitores udigrudeiros morriam de saudades das páginas de Porrada Special. Nonô, o taxista boa gente que ajuda desconhecidos, aparece em dois números da Mil Perigos: no 4, em Trânsito de Guerra, um atropelamento vai expor a grande ferida da sociedade – a eterna luta barbárie vs. Estado de Direito; e no número 5 uma HQ mais divertida, Gringo, onde Nonô (tirando alguma vantagenzinha para si) ajuda um pastor protestante a recuperar fita de vídeo comprometedora de sua moral. O argentino Fontanarrosa nos mostra seu Sperman, sátira evidente ao super mais famoso dos Quadrinhos – e o mais engraçado em Sperman é seu parceirinho Germinal, nada ou ninguém menos do que um espermatozóide voador.

Personagem que apareceu uma única vez na revista (o que foi uma pena, tamanho o potencial dos roteiros), Guita, de Eddy Gomez e Paulo Alves, teve HQ chamada Bom Dia, Madame publicada no número 3. Guita é uma menina de rua líder de um bando extremamente violento, que se diverte invadindo & assaltando casas de classe média, barbarizando com os moradores. Rocky & Hudson, os aloprados caubóis gays de Adão Iturrusgarai marcaram ponto na Mil, especialmente com a HQ publicada no quinto número, quando a dupla boiola encontra Emiliana Sapata, é de fazer a gente se torcer de rir. E boa sacada do autor foi inserir ao final de cada página uma tirinha com os personagens, recurso consagrado nos gibis dos Freak Brothers de Gilbert Shelton com o Gato do Fat Freddie. E vou lhes contar, estas tiras de Iturrusgarai (que inclui uma piada politicamente incorreta sobre o ex-cantor & compositor Cazuza) são ainda mais hilárias que a história principal.
 
Continua...

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