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Mil Perigos – Parte 1
Por José Salles
29/03/2007

Capa de Mil Perigos #1

No rastro do “boom” editorial dos Quadrinhos underground brasileiros nos anos 80 da década passada, a editora paulistana Dealer lançou nas bancas um ambicioso projeto em forma de revista chamada Mil Perigos, que reuniu durante cinco números alguns dos mais notáveis artistas brasileiros dos Quadrinhos – e que na ocasião do lançamento do primeiro número (no ano de 1991) muitos deles já eram conhecidos do público apreciador desse estilo em outras publicações como Chiclete com Banana, Animal, Tralha e Porrada Special.

O modelo gráfico-editorial da Mil Perigos foi mesmo a revista Animal – só que, ao contrário desta última, que publicava majoritariamente material estrangeiro (europeu), os cinco números de Mil Perigos foram dedicados quase todos aos Quadrinhos brasileiros, exceto por breves incursões de Fontanarrosa e Mosquil, ilustradores argentinos. Mil Perigos publicou também algumas HQs vencedoras de um Salão de Humor no estado do Piauí – e isso indica uma curiosidade peculiar, pois especialmente para nós que habitamos no Estado de São Paulo, o Piauí é muito mais distante, é muito mais “estrangeiro” do que Argentina, do que os Estados Unidos, a Europa, mais distante até mesmo do que o Japão.

Os diretores da Dealer ofereciam aos artistas plena liberdade de criação, e estes por sua vez se preocupavam exclusivamente com seu trabalho, deixando diagramação, busca de distribuidores, etc, para os funcionários da editora. Lançada na fase final do já mencionado “boom” dos Quadrinhos marginais brasileiros, e certamente abalada pela depressão dos anos “colloridos”, Mil Perigos não alcançou as vendas desejadas pela Dealer, e foi cancelada no quinto número. Para se ter uma idéia das dificuldades financeiras deste período, a revista terminou com sua edição final custando o dobro da edição de lançamento – não devo deixar de citar que a revista teve ampliado o número de páginas também, o que certamente encarecia a produção (de 78 páginas no primeiro número, teve 98 nos dois últimos).
 
De qualquer forma, Mil Perigos merece registro como um grande marco da HQ brazuca em todos os tempos, e tornou-se memorável graças principalmente a seus ilustradores e roteiristas, que nos legaram nestas páginas momentos inesquecíveis – HQs que tiveram no formatão da Mil palco de gala para suas exposições. A dupla que já barbarizara na Chiclete e na Tralha, Marcatti e Lourenço Mutarelli, viveram momentos grandiosos nas páginas de Mil Perigos. Foi a Editora Dealer, a propósito, quem lançou o primeiro álbum de luxo reunindo HQs da primeira fase de Mutarelli – algumas (ou todas elas) publicadas também na Mil: no primeiro número, em O Pequeno Príncipe, o autor nos dá sua visão peculiar do livro de Saint-Exupery. Uma outra HQ de Mutarelli faz parte deste primeiro número, a voyeurista A Love Story de Amor. No número 2, em Porque Sinto Tanto Prazer com a Dor, Mutarelli nos mostra que mesmo os personagens mais decadentes, depressivos e solitários podem um dia encontrar o verdadeiro amor – e como qualquer um não tardarão a descobrir que tudo é apenas ilusão fugaz, e que as mais ternas fantasias se destroçam na realidade.

Quadro da HQ Porque Sinto Tanto Prazer com a Dor, de Lourenço Mutarelli

E preparem-se aqueles que jamais ouviram falar da Mil Perigos até este artigo, e a partir de agora pensam em  procurar estas revistas nos sebos de usados (neste caso então se apressem, pois os cinco números da Mil começam a ficar cada vez mais raros e caros de se encontrar e adquirir – menos mal que atualmente os álbuns de Lourenço Mutarelli vivem sendo republicados, e se encontram nas melhores casas do ramo): a história de Mutarelli publicada no terceiro número da revista, chamada Deus Está em Todas as Partes, é a mais assustadora HQ jamais produzida e publicada. Duvidam? Arrisquem, mas já estão avisados... há uma outra HQ de Lourenço no terceiro número, História em Quadrinhos (t.c.c. Walt Disney, você me enganou). Carregando nas sombras, Mutarelli retorna com tudo no número 4 em Paloma Movia as Pequenas Coisas, onde um jovem apaixonado por uma freirinha morre assassinado após ritual diabólico.

Este autor encerra sua participação na Mil Perigos com Viver é Morrer Lentamente, publicada no quinto e derradeiro número, onde retornam alguns personagens da HQ Porque Sinto Tanto Prazer com a Dor, que havia sido publicada no segundo número. Ainda não me arrisco a fazer qualquer análise dos Quadrinhos de Lourenço Mutarelli. Imagino que as pessoas que se debruçarem sobre a obra deste artista, com intenção de pesquisá-la com seriedade, descobrirão que é impossível analisá-la sem conhecer a vida pessoal do homem-autor. Sei que estas HQs publicadas na Mil Perigos são de uma fase, digamos, mais hard-gore (com “g”, mesmo), e a partir do álbum O Dobro de Cinco com o detetive gorducho Diomedes, o trabalho do ilustrador paulistano mostra sensível mudança de estilo/sentido. Paro por aqui, deixo aos historiadores do futuro um entendimento mais adequado sobre este assunto – mesmo porque, Mutarelli ainda tem muito a fazer e nos legar.
 
Marcatti também fincou presença nas páginas da Mil (exceto no número 5), com seus personagens absurdamente podres e hilariantes. Uma nojeira que deixava (e ainda deixa) perplexos os moderninhos de cabeça feita. Em HQs como O Melhor Amigo do Homem, Renato Mão Peluda e a 10000ª. Bronha, Busca Sem Fim, José Roberto à Procura de Novas Experiências, há um desfile de bizarrices tais como hemorróidas vivas, militante sapatona de esquerda aterrorizando um punheteiro-celebridade, invasão de espermas provocando gravidez em massa, tara por mulher imensa, um deus em toda sua escrotidão fornicando um travesti num buteco imundo. Vai encarar? Aqueles que, deslumbrados ou nauseados, ficarem apenas a admirar os desenhos de Marcatti, talvez não percebam os ótimos textos, que contribuem com a hilaridade dos traços.

Continua...

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