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Mega Zine – Todo Quadrinho: Parte 3
Por José Salles
23/02/2007

Merecem também ser lembradas outras HQs publicadas na Mega Zine: A Idéia (#1), no traço primoroso de Reinicke, mostrando uma boa saída para artistas com bloqueio criativo; Unidos Para Sempre (#2) de Denise Roman (roteiro) e Carlo Rettamozo (desenhos), um peculiar pacto de sangue entre casal enamorado; Ripi S/A (#3), de Santiago, que usa de tremendo bom humor para mostrar os diferentes caminhos que amigos outrora inseparáveis escolhem para suas vidas; neste mesmo número 3 destaco O Crime do Dia, de Rodrigo Rosa – um tenebroso assassinato se esconde por trás de sórdidos interesses de um certo tipo de mídia; O Sexo do Anjo (#4) escrita por Flávio Braga para o interessantíssimo traço de Aliedo, avacalha com as relações amorosas; também neste 4º número temos Maiakóviski, onde Caco presta bela homenagem ao inconformismo do poeta russo; Passagem: como se faz (#5) o artista Marco quadrinhiza poemas de Carlos Drummond de Andrade; também no número 5 temos Pânico no Recife, de Crériston, uma hilariante HQ sobre velho broxa que se utiliza de farmacopéia para obter uma gigantesca – literalmente – ereção peniana.

Trecho de Folias Noturnas, de Bira


A Ensandecida Tara de Custódio, (#6) assinada por De Sá, tem traços muito divertidos para contar a história de um sujeito que de uma hora para outra fica tarado por... panças masculinas. Teria sido ele um precursor dos “caçadores de urso” brasileiros? (nota: “caçadores de urso” – bearchasers para os americanos – representam um grupo de gays cujo modelo de beleza masculina são homens gordos e peludos); também no número 6 temos Folias Noturnas, de Bira (artista marcante de outros gibis udigrudi, como Tralha e Mil Perigos), contando a história do Veio Néco, sujeito amargurado que, quando não consegue descolar uma xoxota, apela para os felinos – e estes nem sempre estão de acordo; ainda no sexto número, Tako, bem na tradição dos quadrinhistas underground, esculhamba os personagens do mainstream quadrinhístico – aqui a vítima é a turma do coelho Pernalonga (em Perna-Louca na Páscoa); a primeira HQ publicada no número 7, O Caso do Leito 89, por Lor, uma assombrosa metáfora sobre o estado de espírito do povo brasileiro; Mônica faz Aniversário (#7), uma tragédia urbana retratada com lirismo por Amorim; também no número 7 encontra-se a magnífica Passional, de Nunz, HQ lindamente ilustrada, mostrando “mais uma grande história de amor e ódio”, e com desfecho surpreendente; Os Mostinhas, de Levitan, HQ em duas partes publicadas nos números 7 e 8 da revista, que mostra uma inusitada guerra de... pelotas de merda, que revelam a insignificância e escrotidão humanas.

Quadro de O Caso do Leito 89, de Lor


Consta no oitavo número de Mega Zine uma pioneira HQ feita por computador: O Cartunista Mascarado, zoando com os universos do Batman e do Spirit; O passado não volta atrás, com belíssimos desenhos de Marcelo Coutinho, é uma melancólica, tétrica, nostálgica e trágica HQ na cidade noturna; Patati (roteiro) e Allan Alex (desenhos), os criadores do antológico Nonô Jacaré e de tantas memoráveis HQs, também marcaram presença no último número de Mega Zine com Mocidade Independente, história de amor e morte com cheiro de suor, comida e sexo; outra belíssima HQ do número 9 não tem título e é brilhantemente ilustrada por Caco, onde um sujeito recebe dois telefonemas, enquanto tomava banho: primeiro, de sua esposa, em seguida, do homem que contratara para que a matasse. Não há banho que limpe tanta sujeira e remorso. Também é de Caco a ilustração (só que desta feita, em outro estilo, mais caricatural) da HQ A Iniciação de Veludo (escrita por Guedes Nascimento), sobre meninos de rua numa grande cidade. Isso é que eu chamo de encerrar uma publicação com chave de ouro!

Bem no espírito fanzineiro, inerente a quase todos os envolvidos não só no Mega Zine, mas em todos os gibis udigrudis, a revista gaúcha (que se mudou para o Rio de Janeiro, na última edição) também foi dando seu espaço para os textos. A partir do número 3 passou a ter sessão de cartas que, além dos comentários quase sempre bobocas dos leitores, teve nos números 8 e 9 um considerável “barraco” armado, um affair a respeito de uma agência belga que estava contratando artistas brasileiros, e que se transformou num bate-boca entre dois grandes nomes do Quadrinho Nacional: Júlio Emílo Braz e Ofeliano de Almeida – sobraram até alguns estilhaços para outro mestre da HQ, Julio Shimamoto, que foi obrigado a intervir e esclarecer tudo.

No quarto número encontramos texto escrito por Moacy Cirne semelhante a tantos outros que já escreveu, onde parece dizer que as únicas formas de arte aceitáveis são as de esquerda, com temática nordestina, músicas de Gil e Caetano e peças de teatro de José Celso Martinez. Muito melhores são os textos de Palmério Dória, tais como A Primeira xoxota a gente nunca esquece (#5), e A Fábrica de Sons Malucos (#7), onde descreve uma visita na casa do músico Hermeto Pascoal. Paulo Betancur foi outro que mandou bem, seja num artigo sobre os 50 anos do Batman de Bob Kane (no número 5), e principalmente em Erotismo de Sangue (#8), um artigo conciso porém certeiro, metáfora sobre a condição humana refletida nas HQs da modernidade – lembrem-se os leitores que na época do Mega Zine ainda estávamos atônitos com Cavaleiro das Trevas, Orquídea Negra, Piada Mortal, Watchmen, etc.

Também a Mega Zine teve o seu encarte-fanzine, mais um da escola do JAM, o antológico encarte da Chiclete com Banana. Chamado simplesmente de Mega Fanzine, estreou no número 7 mostrando ilustrações de Roberto Rodrigues (irmão de Nelson Rodrigues), artista que publicava suas obras nos jornais brasileiros na década de 1920, brutalmente assassinado aos 23 anos de idade. No número 8 o artista homenageado no Mega Fanzine foi Borjalo, que na década de 50 do século passado, antes que a ecologia se tornasse programa governamental, já desenhava sobre o assunto. A partir do número 9, quando a revista passou para as mãos da carioca Spiral Produções & Edições, o Mega Fanzine ganhou mais corpo e mais páginas, destacando-se como um verdadeiro encarte. Nesta única edição, os destaques foram entrevistas com Raul Seixas (que falecera recentemente) e com o jornalista Trimano. Mega Zine disse adeus em grande estilo, enquanto o Mega Fanzine continuaria sua trajetória. Mas isso são outros quinhentos.

 Do mesmo colunista:

Mega Zine – Todo Quadrinho: Parte 2

Mega Zine – Todo Quadrinho: Parte 1

Homens em Guerra #7

O fanzine Ércio Rocha

Combate #2 – Edição Especial

Raimundo Cangaceiro

Almanaque Assombração

O Justiceiro da Estrada

Almanaque Astronauta #2: ficção científica de primeira

Targo, o Tarzan brasileiro

Pabeyma: como o futuro era visto no passado

Zhor - O Atlanta: mitologia e ficção científica

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Pelotão Suicida: Histórias da Segunda Guerra Mundial

Fantar: HQ de e para fãs de filmes de monstros

Historieta: o excelente fanzine que virou (uma) revista

Guerreiro Ninja: Quadrinhos de artes marciais

Tralha: Marcatti, Mutarelli & Cia.

Bang-bang Brasiliano

Saudades da Chiclete com Banana

 Veja também:

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