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Mega Zine – Todo Quadrinho: Parte 1
Por José Salles
27/11/2006

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No embalo da explosão editorial de gibis udigrudis a partir de meados da década de 80 do século passado, a editora Tchê! (de Francisco Juska Filho e Flávio Braga) lançou nas bancas, a partir de dezembro de 1988, uma revista que se tornaria um marco nas publicações brasileiras: Mega Zine – Todo Quadrinho, que infelizmente durou apenas 9 números, com periodicidade mensal (até outubro de 1989). Lançada em formatão americano, começou com 32 páginas, aumentou para 34 no segundo número e para 38 no número 4, passando a ter 42 páginas do número 5 até o encerramento. Lançada na triste ressaca financeira do plano cruzado do ex-presidente José Sarney, às portas da inflação descontrolada, o primeiro número de Mega Zine custou Cz$ 750,00 (750 cruzados). No segundo número, já sob a égide de mais um plano econômico embusteiro, Mega passou a custar NCz$ 1,50 (um cruzado novo e 50 centavos), preço que manteve na capa até o número 4. No quinto, passou a custar NCz$ 1,70. No número 6 já custava NCz$ 2,00; no 7, NCz$ 3,40; NCz$ 6,50 no número 8, e quem acha que o preço se manteve no último número, se engana: o número 9 custou NCz$ 7,00.

Por ter sede na capital gaúcha Porto Alegre, a revista começou mostrando uma seleção de quadrinhistas locais, mas logo no terceiro número abriu suas páginas para artistas de todas as regiões brasileiras. Provavelmente tentando atrair leitores ainda não iniciados nos Quadrinhos underground, Mega Zine destacava a participação de nomes famosos nacionalmente, tais como Edgar Vasques, Renato Canini e Luís Fernando Veríssimo – até mesmo Millôr Fernandes deu sua contribuição para a revista, ilustrando a capa do quarto número. Vasques e Veríssimo marcaram presença com o hilário Analista de Bagé (criado por Veríssimo e ilustrado por Vasques), presente nos números 1,2 e 3 – curioso que nas páginas de Mega Zine por duas vezes foi anunciada a estréia de um personagem então inédito de Edgar Vasques, Pirú o Rei das Mocréia, mas este personagem jamais apareceu nas páginas da Mega – posteriormente sim, em outra antológica revista udigrudi, a Mil Perigos. Quanto a Luís Fernando Veríssimo, este também participou por mais duas vezes, nos números 3 e 5 com Roman Noire (ou Romão Noire) – HQs sem graça que só justificam a presença nas páginas da Mega devido a notoriedade do autor.

Dr. Fraud, de Renato Canini


Renato Canini, outro ilustre artista presente em Mega Zine, abrilhantou as páginas do gibi com suas tirinhas hilariantes: Dr. Fraud (no #1), o tresloucado psicanalista e seus não menos tresloucados pacientes, por vezes surrealistas; no número 4, Canini apresenta uma HQ engraçadíssima brincando com as agruras de se viver em cidade grande, além de tirar um sarro dos ecologistas de asfalto. Outro personagem notável de Canini, o indiozinho Tibica, aparece em tiras no sétimo número da Mega Zine. Que formidável, a versatilidade deste que hoje justamente é considerado um Mestre dos Quadrinhos: seja no Zé Carioca ou nos mal-comportados Quadrinhos udigrudi, Renato Canini é bom demais. E como estamos falando de tiras em Quadrinhos, além do Dr. Fraud e de Tibica, Mega Zine apresentou outros personagens impagáveis que mereciam estar até hoje enriquecendo os jornalões: tivemos Forró na Caatinga (presença nos números 1 e 6), de Lancast, que mostrou aos leitores personagens como o Burro Zé e Severino o Cangaceiro. Na mais hilariante das tirinhas, Severino sadicamente arranca as antenas de uma formiguinha, sob o pretexto de que ela não mais assista à televisão. Lancast assinou também algumas ótimas HQs para a Mega Zine, tais como a violenta Cerco Fatal (#2), além de A Torre Sagrada (#5), historieta para ser lida em vertical, onde um psicopata (que todos davam como morto, devido a sua catalepsia), é encurralado dentro de uma igreja por agentes policiais.

Nonô das Candongas, de Mariano, apareceu em dois números da Mega: no número 4, em tiras que seriam banidas de qualquer publicação em nossos dias de tirania politicamente correta, Nonô se envolve em engraçadíssimas rinhas de galo; e no número 6, onde enfrenta os suplícios e as delícias de uma praia lotada. O quadrinhista Iotti mostrou trabalhos inesquecíveis na Mega, em HQs e tiras diversas: Deus e o Diabo (#1 e 2), hilariante sátira sobre o mundo das redações editoriais; já Plínio, o Reaça (#3), mostra o desespero de um pai de família diante dos modismos da juventude (ele tem um filho “dark”). Também de Iotti são as tiras publicadas no número 8, Os Novos Pobres, sobre uma amargurada família de classe-média recém despejada. Iotti ainda assinou algumas HQs publicadas na Mega Zine, como Radical (#5), mostrando um garoto skatista e um gato sacana, além de O Bisneto (#8), sátira a filmes futuristas estilo Blade Runner.

Outras tirinhas que mereceram destaque nas páginas de Mega Zine foram Besta Seller (#3), de Fettin & Betancur, sobre um escritor oportunista que se preocupa mais com as vendagens de seus livros do que seu conteúdo literário; e dois personagens de Juska, no número 6 com Oskar Galhão, o Submisso; e no número 7 Machado o Cortante, um sujeito pra lá de chato, inconveniente, sarcástico e mal-humorado. Ah, e não posso deixar de citar duas tirinhas hilariantes publicadas na Mega e que foram enviadas por um leitor, Anselmo Gimenez Mendo: Por Água Abaixo, mostrando um peixe sempre às turras com minhocas de isca.

Continua...

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