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Almanaque Assombração
Por José Salles
15/08/2006

Quem vem acompanhando os artigos que tenho escrito sobre Histórias em Quadrinhos, deve se lembrar daquele onde falo sobre a Coleção Assombração lançada em meados da década passada pela Ediouro, e que reunia em suas páginas obras de grandes nomes do Quadrinho nacional. Devem se lembrar os leitores mais atentos que eu dizia ter achado num sebo de usados o número 6 da referida coleção, que trazia em destaque o personagem Silas Verdugo – O Homem do Patuá, de Elmano Silva (personagem publicado originalmente nos livrinhos da coleção Spektro, da Editora Vecchi, e com novo álbum próximo de ser lançado, segundo o próprio autor). Os leitores mais fiéis devem se lembrar do imenso entusiasmo que me levou até a escrever a respeito daquele gibi, por encontrar num sebo uma edição de uma série que eu sequer conhecia – e o entusiasmo maior era a constatação de que, tendo eu encontrado o sexto número daquela coleção, restavam-me ao menos 5 outros números a procurar e desvendar. Lembro-me bem da frase de efeito que usei naquele artigo: a aventura dos colecionadores não termina jamais.

Pois bem, não é que, poucos meses depois de adquirir Coleção Assombração #6, já conto com outros três exemplares desta série em meu acervo? E o melhor ainda estava por vir: não é que, fuçando cuidadosamente as prateleiras do mesmo sebo onde encontrei o gibi com O Homem do Patuá, eis que encontro um Almanaque Assombração!? Uma edição especial com robustas 82 páginas, lançado por volta de 1995/96, com HQs escritas e desenhadas por grandes artistas brasileiros – sinal de que o editor, o incansável Otacílio Assunção (Ota), nunca dormiu no ponto. Ah, leitores quarentões, imaginem se pudéssemos encontrar nos dias de hoje um gibi contendo histórias produzidas por Júlio Shimamoto, Flávio Colin, Elmano Silva, Marcello Gaú, Ofeliano de Almeida – e reparem que destes citados somente Flávio Colin já não se encontra entre nós; todos os outros ainda estão por aí, vivíssimos e salubérrimos.

E as histórias reunidas neste Almanaque Assombração têm entre si muitos pontos em comum: nascidas do imaginário popular e em diferentes rincões do Brasil (a única capital retratada é João Pessoa), mostram um pouco do sincretismo religioso que é parte de nossa formação cultural – e continua sendo. Vejam que curioso exemplo ocorrido recentemente na minha cidade de Jaú-SP, no final do ano de 2004: surgiu um movimento popular (pacífico) para se construir uma capela onde se pudesse louvar a memória de um sujeito (laico) que era considerado milagreiro. E o local sacro foi construído com as benesses da prefeitura e até mesmo da igreja católica, com enorme alarde pela imprensa, todos aceitando sem medo aquilo que o clero aristocrata das grandes cidades chamaria de “crendices, tolas superstições do populacho ignaro”.

A primeira HQ do Almanaque Assombração chama-se Tocaia, tem roteiro assinado por Ota e arte de Júlio Shimamoto, o samurai mágico dos quadrinhos, capaz de transformar pneu em obra de arte. Tocaia mostra as artimanhas de um coronel político do interior de Alagoas, acostumado a mandar matar os desafetos – mas desta vez parece que não escolheu muito bem o matador de aluguel. Shimamoto desenha outra agaquê neste gibi, chamada O Baile, feita a partir de relato enviado pelo leitor João Barroso Costa (lembremo-nos que relatos de leitores que viravam HQs se tornaram tradição nos gibis de terror feitos no Brasil). O Baile mostra um encontro amoroso que não poderia dar certo, já que a mulher morrera há vários anos...

Almanaque Assombração nos dá chance de apreciar duas histórias totalmente produzidas por Elmano Silva (t.c.c. Mano): A Rede do Morto, mostra um atônito e cansado padre do interior da Bahia, que não acreditava muito nas “superstições” dos povoados humildes, até que ele mesmo passa por uma experiência aterrorizante, deitando numa rede que lhe disseram ser proibido de se deitar – pois ali morrera linda mulher, e o espírito penado de seu marido permanecia atento, pronto a impedir que qualquer um desfrutasse do balanço daquela rede, onde ele tivera os primeiros momentos com sua inesquecível amada. A outra HQ feita por Mano para esta edição chama-se A Botija Sinistra: um rico fazendeiro, inconformado por seu jovem filho ser viado e drogado, confina-o numa de suas propriedades, no interior de Minas Gerais, para ver se o curava e o transformava num machão sóbrio. Mas o playboizinho se mostra um tremendo de um ganancioso mal-caráter, que tenta fugir de lá a todo custo – e ainda acreditava que, achando algumas moedas de ouro que estariam escondidas numa velha botija, teria condições para fugir e comprar mais drogas. E fará qualquer coisa para encontrar seu pote de ouro, nem que para isso tenha que assassinar brutalmente um velho empregado, cuja vingança do além será rápida e implacável...

Arte de Flávio Colin para O Senhor das Almas Perdidas

Outro gigante do traço também pôde ser apreciado no Almanaque Assombração: Flávio Colin. Escreveu e desenhou duas histórias, Viu a Caveira? (sobre um mendigo, eternamente assombrado por uma caveira metafísica de um velho conhecido, de cuja saúde desdenhara) e Praga de Urubu (onde mostra que até mesmo os predadores do reino animal badalam os sinos em busca de vingança...); Colin desenhou uma terceira HQ, sob roteiro de Edmundo Barreiros: em O Senhor das Almas Perdidas, um jovem vigário viajando pelo interior mineiro vai se deparar com uma seita macabra que parece ter saído dos bons filmes de Zé do Caixão.

O Anjo Arnaldo, no traço de Ofeliano de Almeida

Almanaque Assombração ainda nos permite desfrutar do precioso traço de Marcello Gaú, ilustrando Reencontro, ótimo roteiro de Antônio Tony Carson Ribeiro, mostrando que a canalhice masculina e a vingança feminina têm o mesmo fim. Ofeliano de Almeida é o autor da capa (dupla) deste Almanaque – capa esta que representa a morbidez lírica de O Anjo Arnaldo, história que fecha esta especialíssima edição de quadrinhos de terror. A despeito de sua forma cadavérica, Arnaldo é um anjo que encanta, com suas histórias, as crianças do vilarejo – e aquelas que vêm sofrendo atrozes males físicos, Arnaldo as conforta levando-as para o céu. Se Anjo Arnaldo se compadece com o sofrimento alheio, nada pode fazer para expurgar o seu próprio: jamais irá para o céu enquanto não conseguir eliminar o sofrimento do espírito de sua amada, suicida a vagar pela eternidade entre a culpa e o remorso. Admirando as imagens, e lendo os textos de Ofeliano de Almeida, fico me perguntando como pode, mesmo quase dez anos depois da publicação de uma história como esta, como é possível que alguns literatos e intelectuais ainda insistam em desprezar os quadrinhos como forma de arte/literatura?

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