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Almanaque Astronauta #2: ficção científica de primeira
Por José Salles
30/06/2006

Qualquer banca ou livraria ou sebo que venda revistas em Quadrinhos usadas merece ser “garimpada” de cabo a rabo. Olhar atentamente para as prateleiras, conferir qualquer orelha de capa que estiver oculta sob outra revista, observar atentamente cada um dos gibis que estiverem empilhados ou enfileirados, até o último quadrinho. Nunca se sabe que raridades podemos encontrar e que estavam perdidas a nossos olhos, misturadas no meio de pilhas de revistas que não nos interessam. Outro quesito para colecionador é pesquisar cada vez mais sobre os itens desejados – quanto aos quadrinhos brasileiros, por exemplo, ainda há boa oferta de gibis lançados nos anos das décadas de 80/90 do século passado. Quanto mais informações tivermos sobre publicações brasileiras, mais excitante será nossa procura por exemplares que contenham o que de melhor foi publicado na época.

Tempos em que eu já era um fissurado leitor de gibis, mas nunca na minha vida havia me deparado com este Supermalmanaque Astronauta #2 – muito provavelmente esta publicação não chegou até a cidade onde eu morava na época, ou, quem sabe, a culpa tenha sido toda minha, uma distração imperdoável. O tamanho reduzido do Superalmanaque Astronauta #2 (formatinhozinho), e suas 66 páginas, faz com que talvez não mereça o epíteto de “super”, entretanto, uma rápida folheada e já percebo que estou diante de precioso material de quadrinhos – uma seleção notável de artistas impressionantes, que me faz ter em mãos um novo e valioso item para meu acervo. Superalmanaque Astronauta #2 contém uma estonteante seleção de HQs feitas por artistas brasileiros e, surpresa, também por autores argentinos. A capa não mente quando diz que o gibi contém “As mais incríveis aventuras! – Quadrinhos de Ficção-Fantástica”.

Não há qualquer informação a respeito da publicação nas páginas da revistinha. Nem o nome da editora (há na capa uma letra “a” no centro de uma estrela, a única pista que encontrei). Três autores colocam o ano em que terminaram seus respectivos trabalhos – e o ano mais avançado é o de 1991, que eu acredito ser a data da publicação, graças ao preço estampado na capa: Cr$ 3500,00. Como se lembram os quarentões de hoje, a partir de 1986 nossa moeda era o Cruzado (Cz$) e pouco tempo depois, durante a inflação galopante do governo José Sarney, Cruzado Novo (NCz$). Com o famigerado plano Collor (começo de 1990) voltamos ao Cruzeiro (Cr$), e a julgar pelo preço da capa, que hoje nos parece extorsivo, já demonstra o fracasso do tal plano collorido, e a inflação havia retornado (só iria terminar em 1994, com o Plano Real do então Ministro da Economia Fernando Henrique Cardoso). Puxa, tudo isso para tentar achar a data de um gibi. Parece-me que a antevisão dos relançamentos dos encalhes é que fazia com que os editores não colocassem as datas nas revistas, nem ao menos o ano de publicação – ou seria puro desleixo, mesmo?

Detalhe da HQ O Nada, de
Lourenço Mutarelli

E as histórias lançadas neste Superalmanaque Astronauta #2 me parecem mesmo republicações. Por quase todas as HQs perpassa o tema do flagelo nuclear, o que indica que ainda pairava sobre a cabeça da humanidade os perigos da Guerra Fria – quando sabemos que em 1991 o Muro de Berlim já havia sido derrubado, se não me engano também a URSS havia terminado, e, apesar de ainda persistir o perigo nuclear, esse medo deixou de permear o inconsciente coletivo. Ano Zero – Vidas Roubadas, escrita e ilustrada pela dupla Paulo Hamasaki e W. Felipe, começa em plena ação onde um homem e uma mulher se encontram numa cidade devastada, encurralados por monstruosidades mutantes. Hamasaki dá um tratamento de HQ de super-herói, mas a conclusão um tanto amarga lhe dá um sentido diverso do heroísmo. Opus 1, que vem na seqüência, é assinada por Schaal e tem somente duas páginas, fala também sobre a humanidade pós-hecatombe nuclear, mas usando de um notável humor negro. A terceira história é uma preciosidade indescritível, que por si só valeria o gibi todo: uma curiosíssima HQ de Lourenço Mutarelli que leva o título de O Nada, história cômica-de-ficção-científica-existencial-filosófica, enfim, como sempre o estilo inclassificável do autor de O Dobro de Cinco.

Após o pequeno torpedo de Mutarelli os leitores do Superalmanaque Astrounauta #2 têm a chance de ler HQ de Sérgio Peixoto (roteiro) e Álvaro Omine (desenhos), chamada O Conserto, e vou lhes contar: uma tiração de sarro impagável do seriado televisivo Jornada nas Estrelas (pelo visto, os “trekkers” enchem o saco já não é de hoje). E preparem-se: Velhos Tempos, escrita por Kiko Machado e ilustrada por ninguém menos do que o incrível Allan (desenhista de Nonô Jacaré), é um soco no estômago de quem pensa que o homem tem controle sobre as coisas do mundo. Só não é a melhor HQ deste gibi porque Cura, de Daniel Lopes, consegue superá-la – uma forte metáfora sobre ganância e egoísmo, e como isto pode retornar em forma de remorso e sofrimento, aos perpetradores de tais vícios. A dupla Peixoto/Omine retorna em Cosmopanzers, que é aventura rotineira sobre o conflito homem vs. máquina. Segue HQ assinada por Hans e Rock chamada Rancor – que destoa do tema da revistinha, já que não tem nada de futurista, mas temática urbana e violenta, cheia de intolerância e revolta.

É hora da colaboração do portenho José Málaga em Eva-G, história engraçadíssima que na verdade serve como defesa das aventuras de magia e fantasia estilo Conan – e o próprio herói cimeriano dá as caras por lá para, digamos, expor seu ponto de vista. Segue outra HQ desenhada por argentino: Mosquil nos mostra Temporada de Caça ao Coelho, naquele estilo neurótico e alucinado e demente como se acostumaram a ver os leitores da saudosa Animal. Se o sujeito estiver meio chapado ao ler a história, periga não entender nada... No verso da contracapa um desenho de Seabra anuncia mais emoções para o próximo número – não sei se foi lançado, mas parece certo que existe o número 1 – aí sim, ainda sobram emoções, ao menos para os colecionadores.

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