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Targo, o Tarzan brasileiro
Por José Salles
20/04/2006

Tarzan, clássico personagem de Edgar Rice Burroughs, assim como todos que se tornam populares e, principalmente, lucrativos, foi talvez o mais plagiado de todos os heróis do gibi. O Brasil mesmo teve dois (que eu saiba): Tarun e principalmente Targo, com diversas revistas, almanaques e especiais de encalhe, num período que abrange o final dos anos 60 e contando com reedições até a década de 80 do século passado. Os roteiros de Targo eram assinados principalmente por Helena Fonseca e Francisco de Assis – mas o inesperado sucesso comercial do personagem fez com que diversos roteiristas e ilustradores criassem histórias deste herói, que chegou a ser “adotado” pelos estúdios de Nico Rosso. Sem o menor pudor em chupinhar o personagem de Burroughs, os autores procuravam dar ao herói algum caráter tupiniquim, localizando-o ora no Planalto Central, ora na floresta amazônica (mas isso pouco adiantou, já que várias das aventuras de Targo se passavam num ambiente pré-histórico, cheio de dinossauros). Acabou se tornando um defensor de nossas florestas – e não poderia nem mesmo ser acusado de imperialista, como sempre foi o seu original estadunidense.

As aventuras de Targo, que parecem ser ingênuas mesmo para a época em que foram publicadas, variavam entre histórias violentas e outras que mais pareciam fábulas infantis (com lição de moral e tudo). O Almanaque de Targo número B 13 (jamais consegui entender a numeração dos almanaques do Targo), lançado pela Editora Taika (provavelmente no início da década de 1970, não há informação precisa no gibi) é um ótimo exemplo, que mostra bem esta diversidade de estilos nas aventuras do Tarzan Brazuca. Curiosidade arqueológica inestimável – não exagero ao usar o termo “arqueológica” para esta publicação. Como já disse antes, e vou me cansar de dizer, pois adoro ser repetitivo, é muito difícil para os jovens leitores de quadrinhos dos dias de hoje perceberem o abismo que separa as HQs atuais (antes disso, a partir de meados dos anos 1980, vamos dizer) das que eram publicadas na época de Targo. E os quadrinhos de heróis e super-heróis foram os que mais sofreram transformações inacreditáveis em tão curto lapso de tempo – inconcebível comparar as HQs dos dias de hoje com as de antanho. Não me admira que até o próprio Tarzan já tenha sumido das bancas.

Targo contra um pirata vestindo pijamas

Escrita por Francisco de Assis e desenhada por Moacir Rodrigues (dois dos artistas mais produtivos do período), a primeira história do Almanaque do Targo chama-se Contrabandismo de Areia Monazítica! (com ponto de exclamação no final). A curiosidade começa logo no título, duplamente: um substantivo em desuso nos dias de hoje e uma palavra que causa estranheza a qualquer um que não seja geógrafo. Por isso poupar-lhes-ei o trabalho de consulta ao dicionário, e transcrevo eu mesmo o que diz o “pai-dos-burros”, um velho Aurelião que tenho em casa: monazítico. (relativo a monazita) Mineral monoclínico, amarelado, fosfato de cério, lantânio, praseodímio, neodímio, com óxido de tório, que se encontra disseminada em rochas eruptivas ou, como produto de desagregação, misturado nas areias (ah, que saco foi ter que copiar isso!). Nesta primeira história, Targo enfrentará um bando de piratas, homens brancos malvados que atracam em idílicas praias indígenas onde não medem esforços nem crimes para conseguirem esta preciosa areia radioativa, que os índios usavam para manutenção de corpos belos e saudáveis. Esta HQ me chamou a atenção por dois motivos: a hilaridade (Involuntária? Extemporânea? Huum...) e a violência. Se a moçadinha de hoje lesse esta história, iria certamente considerar Targo o mais “vacilão” dos heróis. Incríveis as suas patacoadas, a mais ridícula foi acreditar numa possível “bondade” dos homens que lá atracavam – claro que depois disto ficou se culpando pelos índios metralhados. Outra coisa incrível foi o chefe dos piratas vilões – quase dá uma surra em Targo, e ainda enfrenta o herói e seus aliados o tempo todo vestido em roupa de dormir, o que inclui um ridículo gorro de pompom. Irritante em Targo é o fato dele ficar o tempo todo medindo seus movimentos, ou narrando os próprios perigos.

A segunda história (feita pela mesma dupla da HQ anterior), a mais curta das três com o herói silvícola neste Almanaque, chama-se O Monstro da Floresta, e sua infantilidade é descarada: um certo povo da floresta anda assustado com as atitudes agressivas de um elefante. Targo é chamado para ajudar, encontra o bicho, leva um suador danado, mas acaba descobrindo o motivo de tanta fúria elefantina: um espinho debaixo da “patinha” (espinho de ferro, imagino). Moral da história: elefante sem espinho na pata vira amigo de herói bonzinho. A terceira aventura de Targo no gibi, A Invasão dos Sáurios Voadores, é desenhada igualmente por Moacir Rodrigues, agora sob texto de Helena Fonseca. História com a família de Targo – claro, vocês acham que nosso herói, só por ser subdesenvolvido, não teria sua Jane e seu Boy? Os nomes foram abrasileirados, como se fosse possível evitar o vexame do plágio descarado. “Jane” ganhou o nome de Arimá, e o “Boy” de Targo chama-se Aurici. Nomes meio assim... deixa pra lá, vai que eu pego algum(a) leitor(a) com nome idêntico. Não há chimpanzé de estimação, mas não pensem que esta família não tem a sua “Chita” – trata-se de uma onça de nome Jaguaretê. O enredo não poderia ser mais fabulesco: Aurici, “aborrecente”, já se acha um valentão capaz de catar dinossauro à unha – claro que vai acabar colocando em perigo toda a família, sendo salvo pelos pais, e ainda ouvindo deles, resignado, as costumeiras lições de moral.

O super-herói Fantastic em ação


A grande surpresa neste Almanaque do Targo é uma história de 29 páginas estreladas por um super-herói clássico dos quadrinhos brasileiros: Fantastic, no traço limpo e caprichado de Osvaldo Talo, ilustrando esta animadíssima HQ de Luiz Meri. Sem superpoderes, mas com engenhocas fantásticas, além de incríveis força e agilidade em combate aos criminosos, nesta aventura Fantastic se vê às voltas com assaltantes que tentam se passar por fantasmas. Com seu multifuncional cinto de utilidades (que inclui luz infravermelha, raios, etc.) e seus golpes possantes, Fantastic não dá mole aos bandidos e nem ao desenhista, craque na arte de mostrar cenas de luta e ação com o herói. O convidado especial é, de longe, a melhor coisa deste simpático Almanaque do Targo.

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