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Entrevista Claudio Seto - O Samurai Mágico da HQB (parte 2)
Por Gian Danton (colaborou José Carlos Neves)
02/05/2011

Na semana passada conhecemos toda a infância, aprendizado e o início de carreira de Mestre Claudio Seto (veja mais aqui), até este estrear na profissão de quadrinhista através do “Jornal do Lar”, seu primeiro emprego na área. Nesta segunda e última parte de sua entrevista, veremos como ele conheceu Minami Keizi, que se tornaria uma espécie de irmão de alma e ofício de Seto, criando laços espirituais profundos e duradouros com este. Ambos inauguraram em 1967 a mitológica editora Edrel, que escreveu um capítulo a parte na história da HQB, com seus quadrinhos absolutamente inovadores e diferentes de tudo que se havia feito no Brasil até então. Boa parte dessa inovação se deve ao fato de Minami e Seto terem sido simplesmente os primeiros artistas a produzirem mangá no Brasil, um feito até então impensado!Com o fim da Edrel em 1973, Seto e Minami construíram cada qual sua carreira solo. Enquanto Minami tornou-se um mega prolífico escritor de pocket-books, Seto mudou-se para Curitiba e deu início a “Era Grafipar” do Quadrinho Nacional, que infelizmente, também durou poucos mas intensos anos. Tudo que aprendeu na Edrel, Seto botou em prática na Grafipar, tornando-se um editor de quadrinhos histórico e lendário. Porém, a história e glória da Grafipar ficará para outro texto, pois nesta entrevista Seto privilegiou causos pouco conhecidos de seus agitados tempos de Edrel, pincelando de leve seu período na Grafipar. Prepare-se para conhecer mais da psiquê deste que foi, sem dúvida, um dos mais sensíveis e inovadores mestres que o Quadrinho Nacional teve, e também um dos mais misteriosos e enigmáticos. Aliás, um dos seus maiores mistérios, o seu famoso “irmão gêmeo”, é devidamente esclarecido no final desta entrevista pelas palavras de Minami Keizi, este sim, seu verdadeiro irmão gêmeo para todo o sempre! Que as bençãos dos samurais mágicos recubram os “irmãos” Seto e Minami, verdadeiros heróis da cultura brasileira!

21 - Ok. Vamos chegar finalmente na Edrel então. Como foi que o Minami Keizi e você se conheceram?

Eu mandava o “Jornal do Lar” pra várias editoras, inclusive a Pan Juvenil, onde o Minami trabalhava. Aí ele viu meus quadrinhos, gostou e resolveu me procurar. Era 1967, ele estava montando a Edrel e queria que eu fizesse parte do time da editora. Nessa época eu morava em Guaiçara e ele em Lins, que são cidadezinhas pequenas, coladas uma na outra (ambas no interior de SP). Aí foi fácil ele me achar. Lembro que um belo dia eu  estava dormindo no meu quartinho de estudante e um cara me tirou da cama para convidar para trabalhar em uma editora que estava abrindo. Era o Minami! Assim, quase sem saber desenhar, virei profissional. De cara o Minami me deu a revista “Humor Negro” para eu produzir inteira. Saíram dois ou três números com material só meu, um lixo(risos)!!!

22 - Puxa, ficou tão ruim assim (risos)?!? Mas os desenhos que você fez para a “Humor Negro” já foram no estilo mangá?

Não. Foi um desastre total! A “Humor Negro” já existia, estava no número 3 ou 4. Me disseram na reunião que era uma revista tipo a MAD, só que nessa época ainda não existia a MAD em português, só a americana mesmo. Então eu nunca tinha visto essa revista!!! Em Lins e Guaiçara não vendiam revistas importadas. Aí, na volta pra casa, passando pela rodoviária, comprei alguns números da revista e um pocket-book do Jack Davis (um dos grandes desenhistas da MAD). Confesso que adorei a revista, mas fazer desenho naquele estilo foi uma lástima. Até hoje tenho vergonha do resultado, “Humor Negro” é meu passado obscuro (risos)!

23 - Você disse que o Minami Keizi foi o primeiro a desenhar o mangá no Brasil e não você. Porém,  estudiosos que dizem  que o Minami desenhava no estilo Gasparzinho e não manga, por causa do personagem Tupãzinho dele. Como você vê tudo isso?

Para mim a palavra do Minami basta! Ele me disse que desenhou no estilo mangá antes de mim, no “Album Encantado” de 1966, da editora Pan Juvenil. Acredito nele. No ano seguinte, já na Edrel, eu criei o personagem Flavo no estilo manga para a revista “Ídolo Juvenil”. Era um misto de ficção e contos de fadas. Isso porque as revistas “Contos de Fadas” e “Varinha Mágica” haviam feito grande sucesso na Editora Outubro anos antes.

Na época o Minami estava se saindo bem com a revista infantil “Tupãzinho” de autoria dele, com desenhos dele e do Fabiano Dias, naquele estilo Gasparzinho. Ele chegou a receber uma proposta da editora Abril para que a revista do Tupãzinho fosse publicada por lá. Mas  ele não aceitou e resolveu que atacaria o gênero infantil e me pediu mais uma revista do gênero. Foi aí que eu criei o Flavo.

24- Li certa vez que  “o Flavo de Claudio Seto era mangá puro, com narrativa calcada em Astro Boy, de Osamu Tesuka, com quem se correspondia”. Você confere esses dados?

Para desenhar o Flavo eu consultei os desenhos da Hideko Mizuno, sempre gostei mais do desenho dela do que do grande mestre Tezuka-san. Nunca correspondi com Tesuka-san, e sim com Sampei Shirato, em quem me espelhei pra criar meu personagem  “Ninja – O Samurai Mágico”.

25- Pena que Flavo não teve continuidade, pois tem páginas dele que são quase shojo mangá (mangá para meninas).

Pois é. A Hideko foi a pioneira do shojo manga, pena que a nova geração de fãs do mangá não conheçam o trabalho dela. Em outra oportunidade quero falar mais dela.

26 - Bem, então foi a partir do Flavo que você resolveu se dedicar ao estilo mangá de corpo e alma?

Não foi bem assim. Eu era um desenhista do interior de São Paulo que aparecia a cada dois meses na capital, um caipirão. Lembro que todos me aconselhavam a fazer desenhos no estilo americano. Eu vivia esse drama interno. Era jovem, inexperiente e inseguro. Tudo que os mestres da época me diziam eu acreditava. Na época o Jayme Cortez lançou um livro chamado “Mestres dos Quadrinhos”, promovendo todos os desenhistas da Editora Outubro à nível de mestre. No livro ele escreveu que os originais deveriam ter o dobro da medida em que seriam impressas. Daí o original nosso ficou grande para burro. Eu dizia que no Japão é menor, e o pessoal dizia que isso era no Japão, aqui tinha que ter o dobro. Então lidar com aqueles originais imensos dava um trabalhão danado. Até para enviar pelo correio.

27- Mas como você resolveu esse impasse entre fazer no estilo mangá, que você cresceu lendo, e o estilo ocidental (americano) que ditava o mercado editorial?

Não resolvi (risos)! Fiquei perdido o tempo todo, oscilando entre as duas partes! Quando saiu o primeiro número de “Ninja”, nós estávamos perto da Edrel, tomando cafézinho no bar, e quando passamos numa banca de rua, alguém (não me lembro se o Fabiano ou o Minami) perguntou ao jornaleiro o que ele tinha achado daquela nova revista. E o cara respondeu: “Que revista estranha, 'Ninja', o que é 'Ninja'? Ninguém sabe o que é isso. E esse desenho estranho então... acho que não vai vender nada!”.

28- Conversando com a Kinue Kawaguti, que trabalhou no seu estúdio em Guaiçara, ela me contou que as histórias da revista “Ninja”, no desenrolar da aventura, iriam desembocar no Brasil. Você realmente tinha essa intenção?

É verdade! A história se passava no Japão de 1600, na Guerra de Sekigahara e na queda do castelo de Osaka. Foi a mesma época em que viveu Miyamoto Musashi (o mais famoso samurai da história do Japão, que viveu de 1584 a 1645). O personagem principal, um garoto de nome Koji, tinha um mapa do tesouro tatuado em seu corpo. Esse mapa traria a clã Toyotomi para o Brasil e também viria os Tokugawa perseguindo eles. A partir daí, entrariam índios brasileiros e bandeirantes nos episódios seguintes. O Koji, que era o menino ninja, tendo seus companheiros massacrados e comidos pelos antropófagos, já com a pele queimada pelo sol, se passaria por um índio tupi, com o nome de Itaipú. Pena que não durou até aí, mas pode-se dizer que foi um prenúncio, o primeiro mangá a se passar no Brasil. Algumas páginas de Itaipu foram publicadas na Folhinha de São Paulo (suplemento infantil da Folha de São Paulo) nos anos 70.

29- O seu gibi “Samurai” não tinha personagens fixos, não é?

Não. Eram histórias avulsas. Uma história cada número. O Samurai Nº 1 fiz no estilo guekigá, além do desenho e texto horríveis, o tema era incesto, ou seja, uma revista para adultos. Naqueles anos de repressão da ditadura e do código de ética, decididamente não era uma revista aconselhável a ser lançada. Creio que só saiu porque a Edrel precisava de um certo número de revistas para capital de giro da empresa. Ironicamente, outra revista que nós fazíamos, a “Estórias Adultas”, gênero de quadrinhos ainda inexistente na época, acabou agradando enquanto o “Ninja” não durou mais que três números. Há de se considerar que, como bem disse o jornaleiro, na época ninguém sabia o que era um ninja ou um samurai. A revista do “Samurai” ainda durou vários números.

30 - Ah, é?! Quantas edições do Samurai foram publicadas?

Não me lembro bem mas deve ter saído umas nove. Mas fizemos muitas outras histórias de samurais, além da revista. No começo saíam histórias também nas páginas de “Mini Terror” (formatinho) e também houve um “Almanaque O Samurai”. Em 1970 o Minami resolveu acabar com todas as revistas individuais de 34 páginas e fazer revistas grossas de 140 páginas. Isso porque ele descobriu que o almanaque de encalhes vendia mais que as edições normais. Pelo menos foi o que argumentou. Havia duas linhas de revistas: as de humor e as sérias. Na linha humor havia as revistas “Garotas e Piadas”, “Mil Piadas”, “As mais Quentes Piadas da Edrel”, “Seleção de Piadas”, “Rir vistinha”, “Evas Sem Censuras”, “Paquera” e “Fotohumor”. E os personagens mais constantes eram: “Paquera”, “Zé Experimentadinha”, “Turma da Cova” e “Maria Esperançosa” do Fernando Ikoma e “Maria Erótica”, “Beto Sonhador”, “Mata Sete”, “Zero Zero Pinga”, “Mandrácula” e fotonovelas produzidas no nosso estúdio em Guaiçara.

Na linha “séria” haviam as revistas: “Estórias Adultas”, “Young Comic”, “Only Men” e “Revista de Terror”. Grande parte das histórias eram avulsas e de gênero bastante variado. Tanto meu estúdio como o do Fukue produziram várias histórias no estilo mangá. Foi uma época gostosa, tínhamos prazer em fazer experimentalismos, tanto no gênero como nos desenhos.

31– O pesquisador Moacy Cirne ,no artigo intitulado “O Quadrinho Erótico”, escreveu o seguinte trecho: “Na Edrel, muitas experiências foram feitas, ao nível da narrativa (o modo articulatório dos quadros nas páginas), em especial por Claudio Seto. Mas suas preocupações (e pretensões) psicologistas eram prejudiciais ao bom quadrinho, criando uma espécie de subliteratura, pretensamente "séria".Você concorda com essa análise?

Ele tem razão em pensar assim. Eu tinha muitas pretensões, principalmente a de me encontrar. Passei muitos anos num mosteiro Zen, no Japão, e minha cabeça não sintonizava com o modo de pensar da maioria das pessoas que conhecia no Brasil. Fiz muitos desenhos que as pessoas não aceitavam que fossem feitos em histórias em quadrinhos. E muitas histórias que ninguém entendia, pois acabavam sem mais nem menos. A começar pelos títulos esquisitos: “A vida como um pingo d'água numa torneira velha”, “690”, “O meu doce pé de caqui amargo”, “Dinheiro toca no corpo mas não compra a alma”, “Riá, Riá, Riá, É Porre!” e “Rastros viscosos de um mundo psicodélico”, assim por diante. Já o experimentalismo era a coisa que eu mais adorava. Depois que li o “I Ching”, o Livro das Mutações, eu vivia filosofando que o único sentido da vida estava nas transformações. Então eu tentava transmitir esse pensamento para as pessoas, mas sem me referir diretamente, ou com palavras, a esse respeito. Vivia experimentando não só no estilo de desenho, como nos ícones “escondidos” que eu colocava nas histórias. Antes de começar a desenhar, eu juntava seis ou oito páginas em branco e fazia um desenho grande. As vezes cenas de sexo com santos e generais ou o logotipo do meu estúdio, ou ainda, símbolos diversos. Depois embaralhava essas páginas e desenhava os quadrinhos por cima, de modo que o desenho grande ficava alguns pedaços de ponta cabeça e sem ordem nenhuma. Imaginava que um dia, alguém ia juntar as páginas depois de impressas e descobrir o código secreto. Depois escrever para a editora anunciando a descoberta. Mas isso nunca aconteceu! Acho que ninguém nunca percebeu que havia um quebra-cabeça por trás de muitas histórias que fiz. O engraçado é que nem mesmo eu nunca tentei montar as partes depois de impressas. Era certamente uma pretensão leviana – coisa de nativo do Ano do Macaco.

32 - Muito louco isso, Mestrão, eu nunca soube disso!!! Mas muitos estudiosos, quando se referem aos pioneiros do mangá no Brasil, citam sempre Minami Keizi, Claudio Seto, Paulo Fukue e Júlio Shimamoto. Você não acha que deveriam citar o nome do Fernando Ikoma também?

Eu acho que não. O fato de um desenhista ser descendente de japonês não faz do trabalho dele um mangá. Não sei até onde os quadrinhos do meu amigo Ikoma podem ser chamados de mangás. Ele próprio discorda. No tempo da Edrel ele costumava dizer que o seu estilo era algo muito pessoal, que tinha origem no desenho publicitário e nada tinha a ver com mangá, e que ele praticamente desconhecia quadrinhos japoneses. Ele só tomou contato com o mangá através de algumas revistas que o Minami Keizi deu para ele. Muito esperto, ele pediu para o pai dele traduzir e colocou no seu livro “A Técnica das Histórias em Quadrinhos”, publicado pela Edrel nos anos 70.

Ironicamente ele se tornou a primeira pessoa a escrever sobre o mangá no Brasil! Acho também que o traço do Shimamoto, apesar de desenhar histórias de samurais, nada tem a ver com mangá. Mestre Shimamoto é o melhor quadrinhista brasileiro de origem japonesa. Também está entre os três melhores do Brasil no panorama geral de todos os tempos. Agora dizer que o estilo dele é mangá, não concordo. Não existe nada parecido com os desenhos do Mestre Shima no Japão. Vejo nele um clássico dentro da tradição ocidental no desenho de quadrinhos. Outra correção a ser feita é que Mestre Shima que eu me lembre nunca colaborou com a Edrel, mas vira e mexe parece que ele é citado como se tivesse desenhado para aquela editora.Creio que se o Mestre Shima tem algo a ver com o mangá é na narrativa seqüencial, mas acho que é involuntário e mais recente. Pois começou quando ele desenhou, quase dez anos depois, a revista “Kiai”, para a Grafipar. Como os golpes marciais exigiam desenhos em seqüências didática para serem melhor entendidos, Mestre Shima passou a desenhar assim.

Já Paulo Fukue também seguia a escola dos super heróis americanos. Tanto que no começo da carreira a “turma do Brás” (pessoal das editoras La selva, Continental, entre outras, que ficavam todas no tradicional bairro gráfico do Brás, em São Paulo) chamava ele de “Paulinho Ditko”, em referência ao Steve Ditko, desenhista criador do Homem Aranha. Seu estúdio chegou fazer algumas histórias no estilo mangá porque alguém da sua equipe gostava de mangá. Ele mesmo sempre foi fiel ao estilo ocidental.

No meu caso também é importante frisar que nem tudo que desenhei foi no estilo mangá. Muitas histórias foram desenhadas calcando personagem de fotonovelas italianas que estavam na moda naquela época, e algumas no estilo MAD, que saíram na “Humor Negro”.

33 – “Maria Erótica” é a sua personagem mais conhecida, inclusive a Prefeitura de Curitiba, fez uma homenagem à você, alguns anos atrás, através de uma grande exposição dessa personagem no Solar do Barão da Fundação Cultural de Curitiba, por ocasião do aniversário da Gibiteca, que você foi coordenador durante um tempo. Na fase Edrel essa personagem chegou a ter revista própria ou foi só na fase Grafipar?

Eu nunca gostei de histórias com personagens. Gosto de histórias avulsas, como em contos. Personagens todos sabem que nunca morrem e no fim das histórias sempre se saem bem. Fiz mais histórias da Maria Erótica na fase Edrel que na fase Grafipar. Na Edrel a Maria era publicada nas revistas: “Garotas e Piadas”, “Mil Piadas” e “Young Comic”. Ela chegou a ter revista própria, no formatinho, no fim da editora. Saiu duas edições e depois a editora faliu.

34 – A Maria Erótica tinha influência dos desenhos do Guido Crepax?

Não. Tomei conhecimento dos desenhos do Crepax na revista “Grilo”, nos anos 70. Fiquei fascinado! Adorava os desenhos dele, mas a Valentina não servia de modelo pra Maria, porque era muito magra e elegante. Maria tinha que ser gostosona, bundinha redonda e seios fartos. Podemos dizer que Maria Erótica está mais para a Paulete, do Pichard, do que pra Valentina do Crepax. Essa coisa da Maria ser uma “loira burra” e gostosa, também tem muito de Paulete.

35 – Há alguns anos correu uma fofoca que você foi homenageado como pioneiro do Shibari (fantasia sado-masoquista de amarrar mulheres) no Brasil, num clube privê de Curitiba. Procede essa conversa que além de mestre do mangá, você é também mestre na arte de amarrar mulheres (risos)?

(risos) Existe louco pra tudo!!! Cerca de quatro ou cinco anos atrás, quando houve aniversário da Gibiteca de Curitiba e deram uma sala especial para a Maria Erótica, um bando de doidos que são adoradores da arte japonesa do shibari, descobriram que eu morava em Curitiba e fizeram uma festa em minha homenagem. Qual não foi minha surpresa quando cheguei naquele porão e descobri que, além de correntes e engenhocas de tortura, existiam pelas paredes várias ampliações de meus desenhos, muitos da Maria Erótica amarrada, e com datas de quando foram publicadas e com denominação dos estilos das amarras. Disseram que antes de mim ninguém no Brasil desenhou o shibari nas histórias em quadrinhos. Recebi um diploma de “Mestre e Pioneiro do Shibari no Brasil”, desse bando de malucos (risos)!....

36 – Abre o jogo, Mestrão! Você é praticante do shibari, né?

Atualmente as únicas coisas que amarro agora são galhos de bonsai para entortar (risos). Antes eu amarrava mulheres, mas só nas histórias em quadrinhos. Na verdade tenho conhecimento da arte do shibari porque eu tinha um livro antigo, que mostrava todos os tipos de nós e amarras, que os samurais aplicavam para imobilizar os prisioneiros de guerra. Então eu aplicava essas técnicas nos quadrinhos eróticos.

37 – Então tá. Você se lembra exatamente em que ano a Edrel deixou de existir?

Não sei exatamente quando foi, mas encontrei recentemente um bloco de nota fiscal do meu estúdio (Seto Produções Artísticas) da época e a última nota foi tirada em dezembro de 1973. Pela nota dá para ver que a página de quadrinhos custava 70 cruzeiros e a página de piadas 30 cruzeiros.

38 – Em seu artigo “Anos de Terror”, Paulo Rensie diz : “Se a editora Outubro foi a 'Vera Cruz' dos quadrinhos, a Edrel com suas revistas de humor e erotismo, foi a 'Atlântida'!”. O que você acha disso?

Acho que pouco foi escrito sobre a Edrel porque na época da editora, sexo ainda era tabu e quadrinhos eram subcultura. Felizmente alguns dos que participaram da editora Edrel ainda estão vivos e muitas lembranças poderão vir a luz. Esta entrevista por exemplo, creio que será boa contribuição para a memória de uma das etapas do quadrinho nacional.

39 - Ok. Agora vamos falar da Grafipar, me esclarece uma história:certa vez encontrei com o Rogério Dias, que foi da Grafipar, e ele me contou que alguns editores dela tentaram montar uma cooperativa, a exemplo da King Feature Sindicate (distribuidora de quadrinhos), e você não topou o esquema, estragando tudo. Como é essa história afinal?

O Rogério está certo. Não foi no início dos quadrinhos da Grafipar. As revistas “Eros”, “Neuros”, “Proton” e “Perícia” já estavam nas bancas. Então os editores destas revistas resolveram montar uma distribuidora de quadrinhos e intermediar a venda das páginas para a Grafipar. Ou seja, ao invés dos artistas mandarem seus originais direto para a editora, mandariam para essa tal distribuidora e esta revenderia ao dobro do preço para a Grafipar. Eu não topei por dois motivos: sabia que assim a curto prazo inviabilizaria as revistas pelo custo e não permitiria a sobrevivência dos artistas. Pois teriam que vender abaixo do preço dos enlatados que eram distribuídos pela Apla e pela King Feature. O segundo é que eu era quadrinhista e não publicitário como os outros, e seria falta de ética ganhar dinheiro em cima do trabalho de outros quadrinhistas. Ainda por cima eles queriam trabalhar só com artistas “renomados” (Shima, Flavio Colin, Walmir Amaral, Luis Saindemberg, Ikoma e Seto). Se a idéia desses publicitários tivesse vingado, hoje creio que não existiriam grandes nomes da HQB como Mozart Couto, Seabra, Rodval Matias, Franco, Roberto Kussumoto, Ataíde Braz, Itamar, Josmar, Bonini, Zenival e tantos outros que foram projetados pela Grafipar. Minha idéia era fazer uma editora-cooperativa (Bico de Pena) só de quadrinhos brasileiros, dar oportunidade para os novos artistas e depois, quando começasse a dar resultados, distribuir participação nos lucros aos artistas.

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O Enigma de Claudio Seto
Por Minami Keizi (em 5/12/2008)

A maioria das pessoas conheceu Cláudio Seto desenhista. Admirou seus belos traços e o seu estilo inconfundível. Seto foi um ícone de uma época. Nascido em 1944, tornou-se nacionalmente conhecido em 1967, com as revistas de quadrinhos como “O Samurai”, “Ídolo Juvenil – Flavo”, “Ninja, o samurai mágico”, publicações editadas pela Editora Edrel. O mangá estava introduzido no Brasil; hoje, uma febre nacional, por que não dizer no mundo.

Porém, pouca gente conheceu Cláudio Seto homem como eu o conheci. Seto era completamente Zen; convivia harmoniosamente com o rústico e o suave. Nestes últimos anos de sua vida dedicava mais tempo a arte do bonsai. Seto foi para o andar de cima em 15 de Novembro de 2008, deixando um enigma para seus amigos e leitores.

Nas suas várias entrevistas ele cita um irmão gêmeo que o ajudava a desenhar, desde os tempos da Edrel. E diz que eu sempre desconfiei de alguma coisa: intuição de editor, dizia ele. Após seu passamento, fui alvo de uma saraivada de perguntas dos curiosos que queriam saber o que, afinal de contas, eu sabia a respeito do seu polêmico “irmão gêmeo”, que nunca ninguém viu ou conheceu!

Pois bem, Cláudio Seto era tão criativo que não cabia dentro de si. Tinha que dividir a sua originalidade com alguém, senão ele implodiria. E nada melhor que um êmulo, um adversário à altura, ele mesmo, um irmão gêmeo! Eu estranhava porque, quando era editor, na Edrel, recebia os desenhos dele assinado “Cláudio Seto”, e às vezes, somente de “Chu”, de Chuji Seto Takeguma. Hoje, ele estava de barba, no dia seguinte, sem nada.

Se você quiser conhecer realmente uma pessoa, vá pescar com ela! E eu estive pescando com Seto no Saldo de Avanhandava...

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