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Entrevista: Minami Keizi
Por Elydio dos Santos Neto
17/04/2011

"Os críticos sempre me ignoraram!"

O povo japonês sempre foi muito disciplinado, humilde e sempre trabalhou muitíssimo. Coisa de cultura milenar mesmo. Por isso, quando na década de 60, um grupo de jovens artistas nisseis montou uma editora de quadrinhos em São Paulo, só podia dar coisa boa! Essa editora, a Edrel, capitaneada por Minami Keizi, então um rapazola de apenas 21 anos, e alicerçada pelo talento de três jovens desenhistas em começo de carreira, Claudio Seto, Paulo Fukue e o caçula Fernando Ikoma (além de outros colaboradores menos frequentes para reforçar o time), simplesmente REVOLUCIONOU os quadrinhos no Brasil! Com a adrenalina e a criatividade juvenil fervilhando, a rapaziada queria mais é gastar energia e produzir a milhão, botar as loucuras pra fora, derrubar regras, subverter padrões, e de certa forma desafiar a caretice e a “malditadura” militar, que então reinava no Brasil e “atravancava“ o progresso mental dos brasileiros. Foi assim que, em curtíssimo espaço de tempo, de 1967 a 1972, a Edrel produziu uma linha de gibis absolutamente originais, sem similar com nada da época. Por ser nissei e grande fã de mangas, foi natural o chefe Minami, querer introduzí-los no Brasil, um gesto até então inédito! Porém, longe de apenas copiar o modelo japonês de fazer mangas, Minami deu carta branca para sua genial equipe transformá-los a vontade. O resultado foi um quadrinho híbrido de manga, com psicodelismo (afinal eram os anos 60!), dramas psicológicos, terror, ficção científica, muito humor e uma dose de erotismo, que ninguém é de ferro, né?! Enfim, era algo difícil de rotular e realmente MUITO particular! Os quadrinhos dessa equipe doida eram reconhecíveis a distância e tudo que produziam trazia a marca da inovação e da criatividade sem limites ou regras velhas e puídas!
Visionário e pioneiro, Minami Keizi foi o pai dos mangas nacionais e sua pequena editora Edrel, uma espécie de fenômeno cultural e editorial que, apesar de durar pouco, apenas 5 anos, foi extremamente intenso e serviu para marcar a história da HQB permanentemente. Nesta entrevista realizada em abril de 2006, como parte de um trabalho acadêmico, Minami contou resumidamente toda a história de sua vida e da experiência com a vanguardista Edrel. Como afirma o próprio Minami no texto, “Quando um homem morre, deixa seu nome!”. E mestre Minami, falecido em 2009, com certeza deixou o dele na história da cultura brasileira! O mínimo que podemos dizer é “Muito Obrigado por tudo, Mestre!”.


1- Bom dia, Mestre Minami. Onde e quando você nasceu? Fale um pouco sobre a vida de sua família em sua infância (pai, mãe, irmãos ou outros aspectos que julgar pertinentes).

Nasci em Lins, interior paulista, em 09/06/1945. Fui criado numa colônia japonesa, no Bairro 3a Aliança do Feio ou Bairro Fortaleza, sob rígida educação nipônica, onde o respeito pelos mais velhos é primordial. Meu avô foi médico, monge budista e mestre em jiu-jitsu. Convivi com ele até os meus 12 anos e via com muito interesse a prática do I-Ching com varetas. Vovô tinha um ritual todo especial. Somos em oito irmãos, entre os quais duas mulheres.

2- E as histórias em quadrinhos? Como entraram em sua vida?

Eu era apaixonado pelo mangá. Papai recebia através da CAC (Cooperativa Agrícola de Cotia) algumas publicações do gênero (mensais). Comecei copiando os mangás de Osamu Tezuka, e vi que ficaram parecidos.

3- Quando começou a desenhar quadrinhos? Quando criou sua primeira história em quadrinhos? Qual sua primeira história em quadrinhos publicada? Quando e onde foi publicada? De que se tratava?

Assim que saí da fase ginasial, vi que podia fazer carreira como mangaka (desenhista de mangas). Depois do primário, por sermos pobres, parei os estudos por dois anos. Fiz o ginásio no Ginásio Estadual de Guaimbê (a gente morava num sítio entre Lins e Guaimbê). Depois que montei a Edrel, fiz supletivo e faculdade de jornalismo. Em 1963, tive o meu primeiro trabalho publicado: “Pedrinho e a Greve dos Relógios”. Este conto foi publicado pelo Jornal Juvenil e ilustrado pelo quadrinhista Zezo. Em 1964, depois que baixaram a ditadura, vim para São Paulo, com a cara e a coragem. Vinha com o mangá Tupãzinho, baseado no Tetsuwam Atomu (Astro Boy), de Osamu Tezuka. Logo de cara, o desenhista Wilson Fernandes me desencorajou (ele disse que este estilo de quadrinhos não ia pegar no Brasil – olhos grandes e pernas compridas). Então, tive que recriar o Tupãzinho; desta feita baseado no personagem Brasinha, da Harvey Comics. Em 1965, publiquei uma tira diária do Tupãzinho, no Diário Popular (hoje Diário de São Paulo). Em 1966, a Editora Pan Juvenil lançou a revista mensal Tupãzinho, o Guri Atômico.

4- Quando e como o desenho entrou em sua vida? Foi estimulado e apoiado a desenhar? Chegou a fazer algum estudo sistemático de desenho?

O desenho foi minha arte preferida. Ainda no primário (naquela época o ensino público era bom e se dividia em: primário, depois uma espécie de vestibular chamado admissão ao ginásio, ginásio; científico ou clássico e depois faculdade) fazia trabalhos escolares ilustrados.

5- Quais eram suas referências de desenhistas, roteiristas ou escritores no momento de sua formação inicial como desenhista?

As minhas referências iniciais eram Osamu Tezuka, Ishimori (Ishinomori) Shotaro e Chiba Tetsuya, que eram quadrinhistas japoneses conceituados na época. Já em São Paulo, me baseei na revista do Brasinha, que na época era publicada no Brasil pela editora O Cruzeiro. No interior eu lia de tudo, principalmente os livros de bolso do detetive Shell Scoth. Também gostava muito do Pererê, do Ziraldo, que também era publicado pela Cruzeiro.

6- Você foi educado segundo alguma filosofia ou crença religiosa? Tal doutrina é ainda referência para construção de sua vida ou já assumiu outros rumos em termos de visão de mundo e de valores?

O zen-budismo sempre fez parte de minha vida. Viver o presente, não lamentar o passado e não se projetar no futuro, porque ele ainda não existe. No meu conceito, vive-se apenas uma vez; a vida eterna é o nosso bom nome que fica. Fui batizado por imposição do meu avô.

7- Que relação vê entre sua visão de mundo (sua filosofia de vida), o desenho e as histórias em quadrinhos? Como era isto quando começou? Como é isto hoje?

A minha filosofia de vida é viver, não tenho pretensão de ficar rico, apenas o bastante (no sentido de quanto baste) para um viver tranqüilo, sem luxo. Aprendi com meus progenitores que “tigre quando morre, deixa a pele; o homem, seu nome”. Vejo meus primos, hoje, cada qual lutando para ter mais bens, esquecendo que são mortais e que desta vida nada se leva. E talvez deixe até motivos para seus descendentes brigarem entre si.

8-Perfeito! E que histórias ou personagens de sua criação citaria como referência de sua autoria?

Citaria o Tupãzinho: um personagem sem nenhuma maldade nem ambição, que quer apenas fazer o bem sem olhar a quem.

9-De seus primeiros tempos guarda memórias de momentos difíceis e/ou de alguma frustração em relação ao mundo do desenho e das histórias em quadrinhos?

Não guardo nenhuma frustração. Faço do meu trabalho um prazer. Quanto as minhas memórias, me lembro muito bem que quando trabalhava na roça, as horas demoravam a passar sob o sol escaldante entre os cafeeiros.

10-Como se sentiu ao receber o Troféu Angelo Agostini de Mestre dos Quadrinhos Brasileiros? O que aquele prêmio significou pra você?

Foi uma grata surpresa já que os críticos sempre me ignoraram, a não ser o Franco de Rosa. O Luciano Ramos, que na época era crítico no Jornal da Tarde, sempre que podia metia o pau no meu trabalho, achava meus roteiros de quadrinhos medíocres e fracos.

11- Que chato isso. Mas e como começou sua vocação de editor? Quantos anos tinha? O que o movia a assumir este trabalho?

Foi espontâneo, movido pelas circunstâncias. Eu não tinha nenhuma experiência como editor ou executivo, porém tudo fluiu naturalmente. Hoje, depois de tanto estudo, vejo que fui um editor nato. Eu tinha apenas 21 anos e fiz tudo certinho.

12- E você fez tudo isto sem deixar de ser desenhista? Como foi conciliar estas duas atividades?

Sim, conciliei as duas coisas. Continuei desenhando e exercendo o cargo de editor. O meu trabalho é até hoje um prazer. Depois que vim do interior, estou em constantes férias(risos).

13- Quais as grandes dificuldades de ser editor, principalmente no campo dos quadrinhos, quando começou?

A grande dificuldade até hoje continua sendo a distribuição. Temos apenas duas distribuidoras: a Dinap e a Chinaglia. Se no meu tempo as minhas publicações vendiam cerca de 70%, hoje em dia os editores acham a venda de 30% ótima. A Edrel distribuiu pela Chinaglia – havia um chefe de expedição lá na Chinaglia que, se a revista vendesse 70%, ele mandava reduzir a tiragem para 80%, em vez de aumentá-la pelo menos 10%.

14- E como surgiu a Edrel? Quem participou de sua fundação? Quem fez o movimento principal para provocar sua fundação?

Na verdade, naquela época eu era supervisor da Editora Pan Juvenil. A Pan devia muito para agiotas (que, na época, cobravam o absurdo de 5% de juros ao mês). E precisava ser encerrada. Então, o Salvador Bentivegna e o Jinki Yamamoto, que eram os sócios, donos da Pan, resolveram montar uma nova editora e eu fui convidado pra fazer parte da empresa. Durante um ano dirigi sozinho a Edrel, pagando todo mês uma parcela de dívida (foram emitidas duplicatas contra a Edrel e estas duplicatas foram parar na mão dos agiotas). Fui diretor editorial, comercial e tudo (comprava papel, ajustava as gráficas, fazia faturamento, etc.). E os sócios? Salvador cuidava da sua Indústria Gráfica e Jinki do seu Fotolito. As revistas eram impressas em outras gráficas, nunca na do Salvador. Acho que ele tinha medo de não receber(risos).

15- Agora , uma grande curiosidade. Afinal por que o nome Edrel? De onde vocês tiraram esse nome?

A historia é a seguinte: o Jink e eu sempre almoçávamos juntos num restaurante japonês, no início da Rua Tabatinguera. Depois do almoço eu descansava um pouco no Fotolito dele (que também se chamava Jink), e que ficava na mesma rua. E estávamos procurando um nome para a nova editora. Aí um dos empregados do fotolito sugeriu “Edrel” (Editora de Revistas e Livros). Era uma sigla.

16- Puxa, uma sigla que nem a EBAL(Editora Brasil América)!!!Acho que pouca gente sabia disso! E qual a dinâmica de trabalho estabelecida entre os fundadores da Edrel?

Eu fiz um organograma de como seria a Editora Edrel. Contatei desenhistas e planejei as revistas. Dei continuidade a alguns títulos adquiridos da Pan Juvenil. Para uma distribuidora do Nordeste vendi parte dos encalhes da Pan e outra parte para uma empresa do Sul. De ambas levei cano. E vendia também pelo reembolso postal, de onde também vinha dinheiro para me manter.

17- Em que local começou a funcionar a Editora? A Edrel começou fazendo que tipos de trabalho?

A Pan funcionava na Rua Tamandaré, 140, no bairro da Liberdade (tradicional bairro japonês de São Paulo). Aí eu aluguei a casa ao lado, o número 150, e lá instalei a Edrel – e morava nos fundos. Depois, aos poucos, consegui alugar também o número 140 de novo. Comecei editando as revistas “Garotas e Piadas”, “Magia Verde”, “3 Armas”, e algumas de terror.

18- Ótimo! E quais foram os sinais que o fizeram perceber que a Edrel realmente podia dar certo?

Quando ainda era supervisor da Pan, produzi o “Álbum Encantado”, lançado em fins de 1966, com lombada quadrada e capa dura. A capa foi feita pelo desenhista Fabiano Dias. O conteúdo eram fábulas adaptadas ou escritas por mim e eram ilustradas fartamente pelo Fabiano no mais autêntico estilo mangá, tendo por referências os mangakas já citados. Outros artistas que participaram do álbum foram o José Carlos Crispim, o Luís Sátiro e o Antonio Duarte. Este álbum foi a primeira oportunidade que eu tive para lançar algo em estilo mangá. Esse era o mangá que o Wilson Fernandes disse que não daria certo no Brasil. De fato a venda não foi boa, dos 50.000 exemplares vendeu uns 50% (hoje seria uma maravilha!). E naquela época, quando uma revista vendia 50% a gente parava de editar. Porém, notei que com estrutura e planejamento a editora seria um bom negócio.

19- Havia algum conflito entre os projetos dos fundadores da Edrel? O Projeto que você tinha era o mais forte e que, de fato, orientou a criação da Edrel? Qual era o seu projeto pessoal para a Edrel?

O carro-chefe da Edrel eram os quadrinhos de humor, as piadas. O Salvador Bentivegna saiu da empresa depois que todas as duplicatas foram quitadas. O Jinki passou a dirigir a gráfica que montamos. Todavia, o Jinki era um editor frustrado: em 1971 cismou que a Edrel tinha que mudar a sua segmentação. E eu achava que não. Para que mexer num time que estava ganhando, oras? Em 1972, o Jinki resolveu montar uma redação a parte e criou o “Projeto Lar Moderno”, que seria uma revista feminina na linha da “Claudia”, da editora Abril. Desgostoso, eu deixei a editora. O dinheiro que estava sendo economizado para a compra de um prédio próprio foi gasto para pagar a minha parte da Edrel.

20- Quais eram os principais segmentos da Editora e quem eram seus responsáveis? Quem montou esta equipe?

A parte editorial era minha. O Marcílio Velanciano cuidava da parte comercial. O Jinki, da gráfica. As equipes de desenhistas fui eu quem as montou.

21- E foi definida alguma prioridade em termos editoriais? Qual?

A proposta era fazer quadrinhos diferentes! E íamos lançar mangá, eu estava adquirindo direitos de um manga japonês pra lançar no Brasil. A equipe da Edrel (o Fabiano, o Crispim e mais uma desenhista que não lembro o nome) estava redesenhando o mangá para solucionar o problema da leitura, que no original, é do fim pro começo.

22- O contexto brasileiro, na época em que surgiu a Edrel, impunha muitas dificuldades ao trabalho de um editor. Era um período de ditadura militar e de rígido controle da censura sobre os diferentes meios de comunicação. Como foi trabalhar, criar e conviver com isto?

Pois é, foi difícil! Eu passava um bom tempo indo e vindo na Polícia Federal. Era chamado, mas nunca fui tratado mal. Eu não mexia com política nem religião. Logo que sai da Edrel, o Paulo Fukue assumiu o meu posto, um mês depois ele foi detido e torturado nas dependências da PF, por algo que ele publicou. Depois de apanhar, Fukue saiu também da Edrel. Alguns meses depois foi a vez do Jink. Era o começo da decadência da Edrel.

23- Você é considerado “o pai do mangá” brasileiro. Como vê isto? Houve explícita intenção de introduzir o estilo dos mangás? Ou isto se deu por conta de sua origem nipônica mais a de vários de seus colaboradores?

Para falar a verdade eu tinha e tenho aversão aos americanos. Ouvia muito o meu avô se lamentar das bombas de Hiroshima e Nagasaki. E sabia que o mangá daria certo em qualquer parte do mundo!Considero que os primeiros editores de mangá no Brasil foram eu, Salvador Bentivegna e Jinki Yamamoto com o “Álbum Encantado”, em 1966. Depois desse Álbum, viriam as histórias do Cláudio Seto.  

24- Sabe-se que a Edrel tinha três equipes de desenhistas. Por que esta forma de organização? Quem compunha estas equipes? Quem as liderava eram o Claudio Seto, o Paulo Fukue e o Fernando Ikoma? Como chegou a eles? E por que eles?

Eram três equipes fixas lideradas por Seto, Ikoma e Fukue. O Seto é da minha cidade; o Ikoma veio de Curitiba para procurar emprego na editora Taika (de Jayme Cortez e Miguel Penteado) com um calhamaço de desenhos sob o braço, o diretor de arte da Taika disse-lhe para desistir porque ele não tinha talento, como último recurso ele me procurou. Vi em Ikoma um potencial enorme; já o Fukue estudava na famosa escola de Arte Panamericana e vinha à minha produtora com o Fabiano Dias, procurar trabalho.

25- Uma curiosidade minha. Há uma explicação para o fato dos principais nomes de sua equipe serem de origem nipônica? Foi uma opção? Ou foi uma casualidade?

(risos) Foi mera casualidade. Mas o Ignácio Justo, que era especialista em desenhar histórias de guerra, dizia que eu estava montando a Quinta Coluna japonesa, pra invadir São Paulo (risos). Mas havia mais colaboradores não-nisseis, como o Wilson Carlosmagno, o Lucaz, que tinha sido aluno do nosso curso de quadrinhos por correspondência, o  Ral, o Liesenfeld, o Nelson Cunha, etc.

26- Ótimo! E quais as publicações que eram produzidas por estas equipes? Quais deram melhores resultados e, em sua avaliação, por que?

O Seto produzia “O Samurai”, “Flavo”, “Ninja” e “Maria Erótica”. O Ikoma produzia “Cibele, a Espiã de Vênus”; “Satã, a Alma Penada”; “Fikom”, “Play Boy” e a “A Turma da Cova”. O Fukue produzia “Tarun”, “Super Heros” e “Pabeyma”. Além disso, todos produziam estórias avulsas de faroeste, terror, dramas psicológicos, eróticas, etc.

26- Pois é! Era sobre essas últimas que eu queria falar! E sobre o gênero de Estórias Adultas, com HQs psicológicas, abordando dramas humanos, e também as eróticas? Como surgiu a idéia de publicar uma coleção com este gênero? Quais as dificuldades de trabalhar com ele? Por exemplo, dos pontos de vista da moral, da política e da educação tradicional?

Veja bem, no Japão há uma divisão nas publicações: existem os mangás para moças, mangás para rapazes, mangás para meninas, mangás para menino, e mangá para adultos. Resolvi seguir o exemplo e lançar um gibi para adultos, com estórias fortes, e assim nasceu “Estórias Adultas”. Naquela altura era necessário algo de novo, pois os leitores já estavam cansando de terror, guerra, far-west e super-heróis. Foi quando o Seto resolveu criar a “Série Psicológica” da Edrel, ele era um devorador de livros de psicologia, filosofia e psicanálise, e almejava fazer um quadrinho intelectualizado, psicológico. O Fernando Ikoma também se destacou muito na produção dessas HQs. Mas a revista dava muito trabalho com a censura.

27- E como surgiu a idéia do curso de Quadrinhos por correspondência? Quantos alunos o curso teve?

O curso era para formar novos talentos, pois muitos leitores pediam um curso assim. Passaram cerca de 2 mil alunos pelo nosso Curso Comics.

28- Do ponto de vista comercial como era a vida da Edrel? Os resultados eram suficientes? Permitiam novos projetos e maiores investimentos? Quais?

A Edrel começou com dívidas. Aos poucos foi formando sua estrutura e caixa. Os investimentos eram em maquinários. Tínhamos fotolito, gráfica e até granulávamos as chapas. Da produção de uma revista, só não fabricávamos tinta e papel. Estávamos montando distribuidora própria, inclusive já distribuíamos em São Paulo.

29- Que outros segmentos de publicações da Edrel, ou de outras atividades, destacaria?

O reembolso de livros. A gente tinha nossa linha própria de livros com venda exclusiva pelo reembolso postal. Na época  era um ótimo negócio, para se ter uma idéia o reembolso pagava toda a folha de pagamento da Edrel.

30- E por que você acha que a Edrel não sobreviveu depois que você saiu?

Teve gente lá que colocou toda a parentada na editora. Também fizeram lançamentos errôneos como a revista “Lar Moderno”, figurinhas, etc.

31- E o que você fez depois que saiu da Edrel? Quais trabalhos realizou posteriormente?

Depois da Edrel, montei a editora “M&C” (Minami & Cunha), com o Carlos da Cunha. Pela editora lancei “HQ COMPETIÇÃO”, “O LOBISOMEM”, “A MÚMIA”, etc. Mas entrei pra história do Cinema Brasileiro com a revista “CINEMA EM CLOSE- UP”, a mais importante publicação sobre cinema da época.

32- Excelente! E o que você faz atualmente?Ainda produz algum trabalho? 

Atualmente só escrevo. Sou contratado por várias editoras e já escrevi mais de 800 livros. Como jornalista, sou articulista e faço a coluna de astrologia para diversos jornais da comunidade. Tenho dois livros (os únicos que recebo direitos autorais) pela editora Madras, especializada em esoterismo.

33- Nunca mais fez nada com histórias em quadrinhos?

De vez em quando escrevo roteiros.

34- Mantém contato com os antigos colaboradores da Edrel? Quais?

Apenas com o Claudio Seto, com o qual faço parceria em alguns livros. O Nelson Cunha, Carlosmagno, Fabiano Dias, já estão todos no andar de cima.

Em marco de 2009, Minami postou a seguinte mensagem na internet:

“Hoje, amanheci com dor no peito. Parece que meu fim está chegando. Estou muito cansado. Volto muito ao meu passado. Não que eu queira, mas constantemente estou mergulhado em pensamentos. Lembro dos primeiros tempos, quando tentava ser desenhista de HQ. E vejo que construi uma história, um marco nos quadrinhos brasileiro. E me faz recordar que meus amigos, meus colegas, meus mestres estão indo embora. O meu primeiro mestre, Antonio Duarte se foi. Wilson Carlosmagno, Nelson Cunha, Gedeone, Eugenio Colonnese, Queiroz, Lyrio Aragão, Luis Sátiro, Fabiano Júlio Dias, estão todos no andar de cima. Quanta saudade!

Em novembro de 2008, foi a vez do Claudio Seto, devido ao AVC hemorrágico. Estive com ele no 20º HQ MIX, quando comentei com ele:“- Pois é, Seto. Estamos recebendo muitas homenagens. Isto quer dizer que estamos na reta final...”

Ando muito fraco. Não consigo caminhar a longa distância. Outro dia, cai no meio da rua, sentado, como um monte de bosta. As pessoas são solidárias. Logo um senhor me ajudava a me levantar. Dentro do Banco, umas moças me ajudaram a subir as escadas.
Também sinto saudades da patota do cinema da Boca do Lixo, que não existe mais. A maioria também se foi.”

PS:. Minami faleceu em 14 de dezembro de 2009. O Brasil agradece eternamente aos mestres que criaram o mangá nacional e revolucionaram o quadrinho brasileiro.

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