NewsLetter:
 
Pesquisa:

Entrevista: Marcio Baraldi
Por Matheus Moura
02/02/2011

"Nós somos uma cambada de incompetentes e envergonhamos o pioneiro Angelo Agostini!"

Como “arroz de festa”, Baraldão está em todas. Mesmo quando diz abertamente não participar do 27º Prêmio Ângelo Agostini, acaba por ganhar como melhor cartunista (veja aqui). E não é para menos. Marcio Baraldi é um dos grande nomes nacionais do cartum contemporâneo. Prolífico, enverada pelos mais distintos e intrigantes temas. Seu mais recente álbum é prova disto.

Lançado na virada de 2010 para 2011, pela HQM Editora, Vapt-Vupt – Os passarinhos mais queridos dos quadrinhos é uma coletânea de tiras da dupla de aves publicadas ao longo da carreira do autor. Nelas são tratados temas como meio ambiente, direitos dos animais, humanismo e, principalmente, espiritualidade.

Para falar um pouco sobre esse e outros trabalhos, conversamos brevemente com Marcio Baraldi, o qual, assim como o livro Vapt-Vupt é direto, rápido, polêmico e engraçado.

1 - Em primeiro lugar quero dizer que esse seu último livro,dos passarinhos Vapt e Vupt, é bem diferente dos anteriores. Você ainda é o mesmo Baraldi ou mudou (risos)?

(risos) Ainda sou o mesmo cara, man! Tem gente que ficou um pouco surpreso com esse livro, porque tava acostumado a me ver fazendo só quadrinho de rock, tatuagem e besteirol pra molecada, mas na verdade eu tenho várias facetas. Eu quero falar todas as línguas e todos os assuntos possíveis, sacou? Não quero ficar limitado a nada porque a vida é curtíssima, há tanta coisa por se fazer e como diria o poeta do rock "já não há mais muito tempo pra sonhar!".

2 - Mas esse é um trabalho teu que além de só falar de problemas político-sociais do planeta ainda se aproxima claramente do Espiritismo. Você é espírita?

Veja bem, eu nasci numa família daquela típica "italianada católica-apostólica-romana" e fui criado dentro dessa cultura de ter medo do Inferno, essa merda toda. Lembro que quando eu era criança ficava apavorado com isso, aí você cresce e entende que a maioria das religiões acaba sendo usada pra isso mesmo: apavorar e alienar as pessoas!Eu era um moleque muito agitado, turbulento, eu com cinco anos já queria mudar o mundo, salvar o planeta, saca (risos)?! Era daqueles moleques que tinha "amigos invisíveis", saca? Era sonâmbulo, levantava no meio da madrugada e ia pra sala, onde, no meio da escuridão, ficava conversando com esses "amigos". Minha mãe vivia acordando pra me catar e levar pra cama de novo. Também sempre tive muitos sonhos premonitórios, que depois aconteciam na vida real. Uma vez sonhei que tinham assassinado um amigo meu do meu bairro, sonhei que passava em frente a casa dele e tavam todos os amigos do bairro chorando e me disseram que ele tinha sido baleado. Aí passou uns dias e o cara foi baleado num assalto. Na hora nem me liguei, mas aí fui no velório e vi a mesmíssima cena do sonho. Tive muitas dessas experiências na adolescência mas nem dei bola, pois já trabalhava e estudava que nem doido e não tinha tempo pra pensar nisso. Nessa época eu já tava na imprensa sindical e lia Marx, Proudhon, Camus, queria entender o mundo. Aí, com uns 18 anos, fui me aproximado do Kardecismo, lendo os livros do Kardec, Chico Xavier e tal. Nunca fui ateu, mas também não tinha saco pra religião. Queria explicações mais racionais e científicas pra origem do Homem na Terra, do que "Adão e Eva", sacou? Só fui encontrar isso no Kardecismo. E depois na Ufologia, com Erich Von Daniken e outros feras.

Então eu sou um cara que se identifica muito com o Kardecismo e a Ufologia mas que sempre pensou e pensará por conta própria!

3 – Entendo. De fato a Ufologia é outro assunto recorrente no seu livro. Você já viu um OVNI?

Uma vez, quando eu era adolescente, tava voltando sozinho do colégio a noite lá em Santo André (SP), quando ouvi uma voz na minha cabeça que me mandou olhar pra trás. Virei na hora e vi uma luz passar rápido no céu. Não era estrela, avião, nada disso. Já era tarde, as ruas tavam vazias e acho que ninguém mais viu. Considero que foi um presente que me deram. Depois disso não lembro se vi mais alguma coisa, mas também nunca saí procurando, olhando pra cima, sacou? Eu colaboro há muitos anos com a revista UFO, onde faço o personagem "Ginho, o ET de Varginha", é a revista sobre ufologia mais antiga e duradoura do planeta, com 27 anos de existência! Pra quem não sabe, o Brasil é vanguarda na ufologia mundial! Aliás, o Brasil é vanguarda em um monte de áreas! A equipe da revista, Marco Petit, Ademar Gevaerd, Claudeir Covo e muitos outros, tem zilhões de histórias e avistamentos pra contar. Fomos nós, da revista, que forçamos a barra do governo Lula pra abrir os arquivos da Aeronáutica e colocar os documentos secretos a disposição dos ufólogos e da imprensa. Fizemos a campanha "UFOS: Liberdade de Informação já!", fiz trocentos bonecos do Ginho pra essa campanha, eles fizeram muitas reuniões com a Dilma, que na época era Ministra da Casa Civil, responsável por liberar esses documentos junto com a Aeronáutica. Quem quiser saber mais, basta acessar o site da UFO.

Os Extra-Terrestres estão presentes na nossa história desde os primórdios, isso tá nas paredes das cavernas, na Bíblia, no relato de milhares de avistamentos, abduções e outros contatos. Temos algum parentesco com eles que ainda não está esclarecido oficialmente para nós.

Mas pra mim e pra muita gente tá claro que é nesse século que a gente vai fazer um contato oficial com esses nossos "parentes" mais avançados e aí finalmente vão nos responder aquela velha pergunta que nos fazemos a vida inteira: "quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?".

4 - No livro Vapt e Vupt também há referencias a exploração e mau-tratos aos animais. Há HQs com porcos presos para abate, pássaros encharcados de óleo no derramamento de um navio, espécies em extinção e até uma versão do nascimento de Cristo, em que os animais substituíram os Reis Magos. Qual sua posição exatamente sobre esse assunto?

Veja bem, nós temos um compromisso com a nossa própria evolução moral e espiritual que inclui deixar de comer carne. A nossa evolução passa obrigatoriamente pelo vegetarianismo! Nós só vamos ser realmente civilizados quando não derramarmos mais o sangue de ninguém, seja homem ou animal. A gente precisa combater a indústria da Carne e forçar sua substituição pela Indústria da Alimentação vegetariana, que é muito mais saudável pro Ser Humano e não precisa matar nenhum animal. Sabemos que a indústria da Carne movimenta bilhões, assim como a do cigarro, mas também sabemos (ou precisamos saber) que ambas são prejudiciais pra nós. Precisamos evoluir pra nos livramos desses vícios que já não condizem com um novo estágio pra Raça Humana.

5 - Apoio totalmente pois também sou vegetariano. Mas, diga, todo mundo que eu conversei falou que esse teu livro é bem apropriado para as crianças, mas na verdade os temas abordados são bem adultos. Qual o público que você deseja atingir, exatamente?

A história é a seguinte: eu criei essa série em 1995, pra revista "Alô Mundo", que era uma revista infanto-juvenil cristã, publicada por uma editora de padres. Quem desenhava lá também era o Vilachã e o Brito (que fazia o personagem Alan Bik no extinto Notícias Populares e depois fundou a revista erótica Brazil). A revista era totalmente politizada, Teologia da Libertação e tal, e aí eu queria falar de guerras, racismo, miséria, devastação ambiental pra molecada, mas precisava de uns personagens tipo "bichinhos fofinhos", saca? Aí eu bolei os passarinhos, um vermelho e um roxo, assim eles podiam voar pelo mundo todo e ver as desgraças todas que o Homem comete. Então eles sobrevoam o conflito entre Israel e Palestina, por exemplo, e o Vupt, o mais ingênuo, pergunta o porque daquilo e o Vapt, o mais vivido, explica pra ele. Na verdade ele está explicando pra criança que está lendo, sacou? Então, no fundo, os assuntos são todos de adultos, só que eu boto uma ironia, boto um humor, e uns passarinhos carismáticos pra lidar com o assunto. E aí a série foi muito bem aceita, a molecada adorava e tal. Aí eu saquei que a série servia pra qualquer idade e quando a revista fechou, eu a levei pra outras revistas, como a "Visão Espírita", do inteligentíssimo Alamar Régis, da Bahia, que era uma revista espetacular, que deixou muita saudade. Também passei pela "Além da Vida", do Nelsão Moraes, que é um dos escritores-médiuns mais queridos do Brasil. Ele que psicografou o famoso livro "Um roqueiro no Além", que seria do Raul Seixas. E por fim estacionamos na "Espiritismo e Ciência", da editora Mythos, já há uns sete anos.

Não é pra me gabar, não, mas eu sou o cartunista com a maior participação na imprensa espírita do Brasil! Sinto falta do Paulo José, que fazia a formiguinha Bingo nos anos 70 na sensacional revista CRÁS, e anos depois, usou o Bingo nuns livrinhos espíritas bem legais. Nunca mais vi, infelizmente!

6 - Serei democrático e agora vou fazer pra você as mesmas perguntas que geralmente faz pra todos que entrevista. A seu ver quais são os problemas do Quadrinho Nacional?

O problema maior é que nós, quadrinhistas, infelizmente somos todos uma cambada de incompetentes! O primeiro quadrinhista do mundo era brasileiro (radicado, vá lá), o Angelo Agostini! Um cara que implantou a imprensa libertária no Brasil, inventou a charge e os quadrinhos como instrumento de critica, de conscientização das massas, que lutou com a cara e a coragem contra a escravidão, contra o autoritarismo, que foi ameaçado de morte, teve que fugir do Brasil e se exilar na França, que além de escrever, desenhar e editar seus jornais e revistas, tudo de forma brilhante e genial, ainda tinha o trabalho de fazer a xilogravura dos seus desenhos nos carimbos de impressão da época, sem os facilidades de fotolitos e CTPs de hoje. O cara fez tudo isso sozinho no final do século 19 e nós, que hoje somos uma categoria de milhares, que temos todo o conforto e tecnologia do século 21, não conseguimos fazer o mesmo! Não temos competência pra honrar a tradição e memória do pioneiro Agostini, não temos competência pra sair da colonização que ele tanto combateu e criar uma cultura e um Quadrinho Nacionais fortes. Nós envergonhamos Agostini, e envergonhamos nós mesmos! Nós não tivemos competência pra nos libertar do domínio dos Quadrinhos estrangeiros, pelo contrário, estamos cada vez mais atolados neles. Antes éramos colonizados pelos comics imperialistas americanos, agora, além deles, pelas boiolagens-intelectuais-existenciais européias e pela babaquice dramática dos mangás japoneses. É chato ver tanta gente se esforçando pra copiar esses três padrões de desenho e histórias (americano, europeu e japonês) pra tentar entrar nesses mercados estrangeiros. A galera segue aquele velho ditado: "Se não pode vencê-los, junte-se a eles!". Sim, junte-se a eles e ajude-os a continuarem nos colonizando (risos)!

Claro que as pessoas precisam ganhar dinheiro pra sobreviver, mas é aí que fica claro nossa incompetência enquanto brasileiros. Temos que desenhar o Super Homem americano pra sobreviver sendo que já tivemos nossos próprios Super Homens, como o Capitão 7, o Raio Negro, o Judoka e outros tantos, que poderiam muito bem fazer mais sucesso que o Super Homem em nosso próprio país. E por que não o fazem? Por que não conseguimos realizar essa proeza que era o mínimo que se esperava dos quadrinhistas e editores brasileiros?!?

Simplesmente porque não somos politizados, não somos organizados, somos alienados e bunda-moles! Toda categoria neste país se organiza em torno de um Sindicato. Nós temos duas associações que não conseguem, nem de longe, nos tirar desta letargia! Vejo alguns coleguinhas dizerem que uma legislação que proteja e subsidie o Quadrinho Nacional é "demagogia", que nós temos é "que ser bons o suficiente pra competir de igual pra igual com as Marvels da vida". Quanta idiotice! Que vergonha ter que ouvir dos próprios colegas essa podridão neoliberal. E nós sabemos muito bem os estragos que o neoliberalismo fez no Brasil e em outros países. Em suas culturas, suas economias, seus empregos. Começa que essa é uma luta completamente desigual, pra combatermos essa merda de Marvel, que já está nos colonizando há 50 anos, teríamos que começar parando de consumir seus produtos pra consumir os nossos próprios. E não vamos conseguir jamais consumir os nossos próprios sem o governo assumir que o Quadrinho Nacional é tão importante para cultura do povo brasileiro quanto a Literatura, o Futebol, o Carnaval e dar ao Quadrinho a mesma atenção e apoio que dá a essas outras manifestações culturais.

7 – Gostei de ver! Então a solução para os problemas do Quadrinho Nacional passariam pela criação de Leis de proteção?

É lógico!!! Veja o cinema nacional por exemplo. Nos anos 40 e 50 nós tínhamos a VeraCruz, que era a Hollywood brasileira, uma indústria que fazia filmes 100% nacionais, com a cara e alma do povo brasileiro: Mazzaroppi, Oscarito, Grande Otelo, etc. Aí veio a merda da ditadura militar, patrocinada pela merda dos EUA, e acabou com tudo! Acabou com nossa produção cultural. Os cineastas passaram a fazer aquelas drogas de pornochanchadas pra sobreviver, que não tinham conteúdo nenhum, eram os avós dos filmes pornôs, que só têm sexo e nenhuma mensagem. Isso emburrece o povo, por isso a ditadura permitiu que se fizesse! Aí nos anos 80, com o fim da ditadura, apareciam timidamente uns filmes aqui e ali, mas a produção geralmente era fraca, pois ainda custava muito caro fazer um filme, neguinho tinha que se matar pra conseguir um patrocínio e tal. Isso fez com que as pessoas criassem preconceito com o cinema nacional. Neguinho falava: "Ah, é filme nacional?! Então já sei que é ruim!". Quem pegou essa época se lembra muito bem. A partir dos anos 90 o Ministério da Cultura passou a apoiar o cinema novamente e aí os filmes voltaram com tudo. Hoje o Brasil produz um filme atrás do outro, com qualidade internacional. Já concorremos até ao Oscar, que, por sinal, é outra merda que americano inventou pro resto do mundo pagar mico pra cultura deles. Nunca faltaram bons atores e cineastas no Brasil, o que faltava era uma política de apoio e incentivo do governo, que hoje existe finalmente, e por isso o cinema nacional está crescendo cada vez mais.

Ai, eu digo: precisa acontecer a mesmíssima coisa com o Quadrinho Nacional!!! E sabe quando isso vai acontecer??? Quando nós formos uma categoria organizada em associações realmente combativas e formos ao Congresso levar nossos projetos de Lei para os digníssimos deputados, que hoje em dia nem sabem que nós existimos! Já existem pelo menos dois projetos engavetados lá, do Simplício Mário, ex-deputado do PT, cujo filho é quadrinhista lá do Nordeste, e do Vicentinho, do PT de São Paulo. Precisamos ser machos o suficiente pra fazer aqueles projetos saírem da gaveta e virarem uma lei de verdade, que mude nossa realidade como mudou a do cinema! Nós só vamos sair dessa pindaíba ridícula e vexaminosa o dia que essas leis forem realidade! Enquanto isso não acontece, somos obrigados a ficar mendigando pra desenhar enlatados chatíssimos no exterior, enquanto temos 190 milhões de pessoas aqui dentro do Brasil que poderiam consumir nossos próprios personagens!

Principalmente se levarmos em conta que esses gibis da Marvel e DC estão numa decadência atroz e já não vendem praticamente nada nem aqui no Brasil. Este seria um momento PERFEITO pra virarmos a mesa e recuperamos nosso espaço que nos foi roubado, por culpa de nossa burrice e falta de nacionalismo! Só que isso não vai ser nada fácil, são anos de uma batalha que deveria começar já, pra que daqui há 5, 10, 20 anos a gente tenha realmente uma Indústria de Quadrinhos sólida no Brasil!

8 – Concordo. E se você fosse o Ministro da Cultura o que faria pelo Quadrinho Nacional?

Chamaria uma reunião com as associações de Quadrinhistas imediatamente!!! Mandaria essas criaturas apresentarem projetos de incentivo ao Quadrinho Nacional, formaria com eles uma comissão de debate permanente e criaria a ANQUAD - Agencia Nacional de Quadrinhos, a exemplo da ANCINE - Agencia Nacional de Cinema. E íamos começar um longo trabalho pra fazer o Quadrinho Nacional ter o mesmo reconhecimento que o Cinema e a Literatura. Íamos adotar o uso de quadrinhos como instrumento didático e paradidático em todas as escolas do Brasil, colocaríamos a matéria "Quadrinhos" dentro da grade curricular de todas as séries, desde o primário até o nível universitário. Íamos criar programas de incentivo fiscal para as editoras (grandes ou pequenas) que publicassem bons Quadrinhos Nacionais. Estudaríamos todos os projetos que a comissão dos Quadrinhistas trouxessem para nós. Esse é o único caminho viável pra fazer o Quadrinho Nacional dar certo, o resto é conversa pra boi nerd dormir.

9 - Pra encerrar, se o gênio da lâmpada Shazam lhe concedesse três desejos, o que você pediria?

1- Que o Ser Humano evolua e se torne 100% civilizado.
2- Que a Terra se torne um planeta feliz e pacífico.
3- Que eu esteja vivo pra ver esse dia chegar!

Quem Somos | Publicidade | Fale Conosco
Copyright © 2005-2017 - Bigorna.net - Todos os direitos reservados
CMS por Projetos Web