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Entrevista: Tony Fernandes
Por Rod Gonzales (colaborou Marcio Baraldi)
18/10/2010

“Acho absurdo a gente, em nosso próprio país, ter que brigar por espaço tomado pelos gringos!”

Tony Fernandes é uma verdadeira lenda dos Quadrinhos Brasileiros! E continua em atividade sem parar desde os anos 70. Tony é desses caras que não se acomodou em apenas ser um assalariado. De espírito empreendedor, montou desde cedo seu próprio estúdio e saiu vendendo projetos pelos quatro cantos do mercado editorial brasileiro. Saiu metendo a cara, quebrando-a muitas vezes, mas aprendendo sem parar e realizando muito!

Ao longo dos anos criou dezenas de personagens e lançou inúmeros gibis dos mais variados estilos, dos super-heróis aos infantis. Defensor e praticante de um modelo de Quadrinho popular,voltado para as massas, atuou intensamente no "boom" de quadrinhos nacionais que rolou nos anos 80, quando lançou gibis como Udigrudi e Almanaque Phenix (nome de sua editora de então), em que estrelavam as aventuras de seus super heróis mais conhecidos, Fantastic Man e Fantasma Negro, além do abestado Capitão Savana, uma paródia de Jim das Selvas.

Nos anos 90 criou seu personagem de maior sucesso e empatia junto ao público, o carismático Pequeno Ninja, que até hoje, volta e meia, materializa-se nas bancas. Caboclo escaldado por décadas de experiência e vivência nas oscilações e turbulências do mercado de HQs, Tony acumulou um conhecimento e compreensão invejáveis desse mercado. Nesta entrevista exclusiva, Tony dá um banho de lucidez e senso crítico para toda a categoria dos Quadrinhistas e editores de HQ do Brasil. Responde, de forma clara e sem burocracia, muitas questões que explicam os principais problemas do Quadrinho brasileiro, bem como velhos problemas da nossa cultura em geral. Enfim, uma verdadeira aula com um dos mais respeitáveis e vividos mestres da HQ nacional! Para ler e, sem dúvida, refletir MUITO! Tonifique nossas mentes, Tony!...


1 - Olá, Tony. É um prazer conversar com você, que já publicou tantas HQs e editou muitas revistas nesse país onde tudo é difícil. Como foi que você decidiu trabalhar com HQs?

De fato, publicar seus próprios personagens no Brasil é difícil, mas não é impossível! É preciso bater de porta em porta e ser um bom vendedor. Na verdade eu queria trabalhar com publicidade, então assim que me formei fui para as agências. Mas os caras exigiam experiência de no mínimo, um ano. Oras, onde um cara que acabou de se formar vai arrumar isso?!? Daí eles me propunham estagiar e me ofereciam uma ajuda de custo ridícula. Aceitei e estagiei numa grande agência durante um ano, mas os caras quase não me davam trabalho. Passava a maior parte do tempo indo comprar cigarros e cafezinhos para a galera (risos).

O pouco que aprendi nas agências foi quando eu colava, literalmente, ao lado das pranchetas dos velhos ilustradores, que eram feras, e ficava perguntando como é que eles faziam aquilo e os porquês das coisas. Daí, descobri que os cursos que eu havia feito pouco haviam me ensinado. Na prática se aprende muito mais! Infelizmente, quando acabei o estágio não quiseram me contratar, por falta de verba, alegaram. Fiquei "P da vida" e fui trabalhar em bancos e imobiliárias lá na avenida Angélica (centrão de São Paulo), pois precisava ganhar uns trocos. Os bancos pagavam bem naquela época, mas trabalhar de terno e gravata não era o meu negócio.

Sempre adorei arte. Tinha duas opções na vida: desenho e música (tive várias bandas). Meu pai ficava maluco e me dizia “Você só quer coisa de doido? Essas coisas não dão dinheiro”. Para agradar o velho, apesar de não ter que ajudar em casa, encarei um banco. Dois anos depois, comecei a dar uma escapadinha do banco e ir bater na porta das editoras. Estava decidido a encher o saco dos caras. Eu pensava assim: “Ou eles me mandam para a merda, ou me dão uma chance.”

Aos poucos comecei a me enturmar, ficar amigo de alguns editores. Ficava emocionado de poder estar ao lado de caras que haviam feito HQs que eu tinha lido na infância. A maioria era gente fina e me incentivava.

2 - Há quanto tempo você faz quadrinhos?

Comecei a publicar em 1973, pela editora Saber. Eu e o Wanderley Felipe, um velho amigo desde os tempos de colégio e que anos depois foi meu sócio, fizemos a revista Sargento Bronca. O tal sargento era um personagem meu, e seguia a linha cômica do Recruta Zero, Praça Atrapalhado (do excelente cartunista Edú, criador do Big Musculus), etc. Eu era jovem e determinado e queria trabalhar com comunicação de qualquer jeito!

Um dia vi um anúncio numa revista de HQs da M&C Editores (dos sócios Minami e Cunha). Liguei para lá e pedi informações. Sem sair do emprego, convidei o Wanderley Felipe, que gostava de HQs e morava perto de casa, naquela época morávamos na Freguesia do Ó (zona oeste de São Paulo). Nasci na Lapa e passei minha adolescência na "Fregá", como diz a galera, o bairro mais antigo de São Paulo. Eu e o Felipe, como diz a música do Gil, somos: “punks da periferia, somos da Freguesia do Ó” (risos)

Mas como eu ia dizendo, escrevi uma HQ de 10 páginas de terror e convidei o Felipe para fazer comigo os desenhos. Um fazia o lápis o outro metia tinta. Quando a coisa ficou pronta fomos bater na porta da editora M&C, visto que a revista deles pedia novos autores nacionais. É bom frisar que o Minami também era desenhista de HQs. Ele criou o Tupãzinho, um personagem infantil e as Gatinhas, heroínas eróticas e sensuais, que eu adorava comprar todo mês, escondido dos meus pais.

O japa era um cara experiente, foi um dos sócios da famosa e extinta editora Edrel, a primeira empresa que lançou mangás no país (nos anos 60) desenhadas pelos nossos japoneses, como: Cláudio Seto e Fernando Ikoma. Essa editora foi um marco na história das publicações no país e só trabalhava com material brasileiro.

Voltando a vaca fria... os caras, da M&C, acharam tudo uma merda (risos) e nos mandaram ir estagiar na casa do Ignácio Justo (nosso grande mestre), que morava numa travessa da rua Conde de Sarjedas, no bairro da Liberdade. Portanto, eu também faço parte do time que surgiu no famoso “barraco do Justo”. Muita gente boa passou por lá, como: Ailton Elias, Lincoln Ishida, Cocolete, Salatiel de Holanda, Pedro Mauro Moreno. Essa gente toda acabou se destacando nas editoras e agências de publicidade da época. Aquilo era uma verdadeira irmandade, confraria. Sob a orientação do mestre-Mor procurávamos as editoras e agências em busca de trabalho.

O legal é que quando a gente trombava com ex-alunos do “barraco”, gente mais velha do que nós, que jamais tínhamos visto. A simples menção do nome “sou da turma do barraco do Justo” fazia as portas se abrirem. Era incrível! A “irmandade justiniana” se ajudava. Sempre houve união dessa patota incrível. Em 1973 comecei a publicar na editora Saber, que na época lançava livros de bolso de HQs das histórias clássicas do Fantasma, Mandrake, Popeye, Flash Gordon, etc. Ainda no mesmo ano fiz uma HQ policial que saiu pela M&C, na revista Lobisomem, desenhada por outro grande mestre, Nico Rosso e escrita pelo fantástico Gedeone Malagola, o cara que mais escrevia HQs no país.

Como já disse, a M&C apoiava os artistas nacionais! Publicavam trabalhos de Edmundo Rodrigues, Paulo Hamasaki e Paulo Fukue, que fazia o Torn, um herói que vivia numa selva pré-histórica. Publicavam também o grande Nico Rosso, que desenhava o Chico de Ogum, um herói umbandista criado pelo Carlos da Cunha (um dos sócios da Editora), e o Ignácio Justo, que desenhava a Múmia, escrita, também, pelo Gedeone, meu querido e saudoso amigo.

Eu e o Felipe éramos os únicos pivetes no meio dos mais velhos. Três meses depois, chutei o emprego no banco pro ar e decidi viver só de HQs! Meu pai quis me matar (risos)!... Daí decidi pentelhar a Editora Abril. Todo dia eu ia lá na avenida Faria Lima, na divisão Disney, mostrar meus trabalhos. Amanhecia na porta. Os caras se encheram tanto que acabaram me dando uma oportunidade.

3 - Você sabe quantas revistas publicou?

Impossível! Publiquei milhares de HQs: cômicas, sérias, super- heróis, eróticas, pornôs, etc. Também fiz revistas de piadas, infantis, livros didáticos, para-didáticos. HQs para os personagens Disney, Hanna- Barbera, e até escrevi livros e contos eróticos, usando pseudônimo, é claro!

Acho que dei sorte, pois trabalhei com: Abril, Saber, Acti-Vita, Noblet, Grafipar, Sampa, Evictor, Tálamus, Rios, Imprima, Escala, Bloch, Rio Gráfica (atual Globo), etc; além das editoras de livros didáticos, agências de publicidade e empresas fazendo publicidade, como: Yakult, Laboratório Catarinense S\A, etc. Fiz muita arte para empresas que representavam personagens americanos na área de merchandising, como: Character (super-heróis DC comics), Viacom (a Turma da Pantera Cor-de-Rosa), etc.

4 - Quantos personagens você já criou e quais os principais?

Perdi a conta! Alguns desses personagens nem eu gostava, e acabava desistindo deles. Outros, não agradavam nem os editores ou leitores. Um dia o prof. Gedeone me disse: “Não emplacou? Crie outro, outro e mais outro. Uma hora dá certo!” Era a voz da experiência. Por isso sempre gostei de ter amizade com os mais velhos. A gente sempre acaba aprendendo muito.

Acho que os meus personagens que mais marcaram foram: O Inspetor Pereira, que foi publicado em 50 jornais do país; Capitão Savana, que saiu durante 5 anos pela Noblet, na revista do AKIM (o personagem da italiana Bonelli); Fantasticman; Fantasma Negro e o nosso querido Pequeno Ninja, o maior fenômeno de vendas nos últimos anos, de um personagem nacional, depois de Mônica e Cebolinha, é claro! O Maurício é imbatível, já chegou a vender 5 milhões de exemplares por mês e parece que atualmente chega a vender 2 milhões, somando todos os títulos. Ele é o Disney tupiniquim. É o pai de todos nós, é o Pelé das HQs. É um fenômeno de vendas!

Veja bem, o que faz um artista vencer, em qualquer parte do mundo, são as vendas. Se o seu personagem (produto) emplacar, cair no gosto da galera, você é o cara! Se não vender, você já era! Vai ter que criar um novo, pois nenhum editor vai querer investir numa coisa que não vende. Detalhe: na América é pior. Observe que alguns artistas não duram muito tempo por lá. Nos Estados Unidos, não vendeu, vai pro saco!

5 - Qual é o seu personagem mais famoso?

É difícil dizer qual foi... acho que é o Pequeno Ninja. Vendemos os direitos e 15 anos depois ele voltou às bancas, pela editora On-Line, sob a batuta do João Costa e sua equipe. Não o conheço, mas o cara é competente. Em segundo lugar o Fantasticman, a galera lembra dele até hoje! Saiu pela primeira vez em 1978, se não me engano, na revista Jogos & Diversões, da Noblet. Mas, não se chamava Fantasticman,o nome dele era ZINK, o Homem Formiga.

6 - Como foi criado o pequeno Ninja?

Eu e o Felipe nos associamos e começamos a produzir uma porrada de HQs, revistas pornôs e etc, para a editora Ninja, que na época só tinha uma revista de artes marciais chamada: Ninja e que saia 6 edições por ano. Lá criamos: Udigrudi (um sucesso), o Guerreiro Ninja e, como já disse, um monte de fotonovelas pornôs, etc. Um ano depois, a editora estava a milhão, com boas vendas e muitos produtos. Daí surgiu no cinema o filme O Pequeno Buda. Um sucesso de bilheteria! Nosso amigo, editor e parceiro Fernando Mendes nos disse que tinha uma idéia para uma série infantil e que o título seria O Pequeno Ninja. O cara quis embarcar na onda do Pequeno Buda. Achamos a idéia legal. Comecei a criar os personagens, bolar os roteiros (sempre adorei escrever).

O Felipe (que sempre foi um bicho em desenhos infantis) criou as imagens dos personagens que criei. Ficaram geniais! Daí nós passamos os primeiros roteiros para nossa equipe, que era dirigida por nós. Naquela época trabalhava com a gente: Décio Ramírez, Luciana (a única mulher do time), o cartunista Verde, Gilvan Lira, Alexandre Dias e o Montandon (depois o Alexandre virou guitarrista da banda Velhas Virgens), Salatiel, Edson Monteiro, Mauro, Orlando Alves, e um monte de gente boa.

Trabalhávamos em linha de montagem. Eu escrevia, outro desenhava o lápis, o outro passava tinta e o Felipe fazia os balões e o letreiramento (que naquela época era feito a mão, na raça). Meu ex-sócio sempre foi bom em letras e desenhos infantis. O Wanderley já havia letrerado milhares de páginas de Pato Donald, na Abril. Tem um know how incrível, além de ser um grande baterista. Tocamos juntos durante muitos anos. Quando a coisa apertava eu também fazia arte-final, o Felipe também desenhava e arte-finalizava. Era uma doideira!

Veja, tínhamos um acordo de cavalheiros entre nós e o citado editor, que já conhecíamos há um bom tempo, pois na verdade o personagem foi criado por nós três. Ou seja, a idéia foi do editor, eu criei aos personagens e os roteiros e o Felipe criou as imagens. Esse trabalho em conjunto foi frutífero e havíamos combinado (de boca), sem assinar papel, etc, de que nós três iríamos explorar o personagem nas HQs, merchandising, etc. Inicialmente a idéia era lançar 150 mil exemplares, em cores.

Depois ficou decidido que a tiragem iria aumentar. Naquela época eu também atendia, já há alguns anos, o Laboratório Catarinense (dos remédios Sadol, Melagrião, etc). Antes mesmo de se associar ao Felipe eu já fazia aquele almanaque anual para as farmácias chamado: Almanaque Sadol.

Bem, eu vivia nas emissoras de TV para veicular os comerciais da citada empresa.
Expliquei para o editor que poderíamos colocar um filme no lançamento do personagem na TV, a um custo irrisório. Ele achou genial, mas não acreditou muito. Disse-me que tinha pouca verba. Trancei os pauzinhos e via NKS, uma house do Laboratório Catarinense em SP, produzimos o filme. Aliás, este filme foi feito pelo meu amigo André Lima, fotógrafo, atualmente, de revistas masculinas. O André sempre adorou fotografar mulher pelada. Ele é o mentor da revista Man, da Editora Escala, que há anos está nas bancas.

Começamos a fazer um planejamento de mídia. Isto é, pedimos as planilhas para as emissoras para saber quais eram os programas vespertinos, dirigidos à garotada, que tinham altos picos de audiência. Para o nosso espanto, na época, a TV Manchete, canal 9 de São Paulo, que era da extinta Bloch Editores, tinha uma série japonesa campeã de audiência, o Ninja Jiraya. Fechamos 3 inserções do comercial de lançamento do Pequeno Ninja, na abertura do filme, no meio e no final. Assim, ao invés de lançarmos 150 mil exemplares, lançamos 250 mil. O produto emplacou!

Eu e o Felipe já havíamos feito cerca de 3 ou 4 edições do ninjinha, quando soubemos que o” muy amigo” editor tinha mandado registrar o personagem no nome dele, tinha contratado outro estúdio e passado a gente para trás. Fiquei P... da vida!!! O resto você já sabe, deu briga judicial, busca e apreensão e por fim acabamos vendendo os direitos para o referido editor, que até hoje tenho contato.

Na verdade, o homem “cresceu os olhos” com as vendas obtidas, se empolgou, é claro. O Felipe sempre foi calmo, eu, ao contrário, sempre chutei o pau da barraca e não ia deixar o cara tomar posse do heroizinho, numa boa, sem chiar. Afinal, os direitos de imagem e criação eram nossos! O maluco deu a idéia, mas nós desenvolvemos, criamos tudo!

Após adquirir os direitos definitivos sobre o ninjinha, o tal editor alucinado pediu outros personagens, na mesma linha, para o João Costa. Conclusão: dividiu o público e gradativamente as revistas que eram distribuídas pela Chinaglia começaram a despencar as vendas. Em pânico o editor correu para a DINAP (que pertencia ao grupo Abril). Foi a pior coisa que ele podia ter feito! Ele estava iludido, achando que a DINAP ia fazer uma boa distribuição, ou seja, melhor que a Chinaglia. Quando soube da história disse para o Felipe: “O cara está pirado, se pensa que a DINAP/ABRIL vai trabalhar direito gibis que concorrem diretamente com o Pato Donald”. De fato, minha profecia se concretizou e pouco depois as duas revistinhas da editora Ninja foram pro saco e deixaram de circular. Foi lamentável!

7 - Quais são os seus quadrinhos brasileiros preferidos?

Ando meio por fora, atualmente, do que está rolando de novo nas HQs nacionais. Não tenho visto muita novidade nas bancas, no que tange a criações tupiniquins. Lembro que cheguei a ver o Combo Rangers e achei legal.

Dos antigos, meus preferidos são: Mônica, Chico Bento, Cebolinha, O Menino Maluquinho, Luana, a feiticeira (do meu amigo o Dr. João Tanno), Lobisomem, Múmia, Jerônimo, Torn (do Paulo Hamasaki), Brigada das Selvas (do Ailton Elias), Raio Negro (do Gedeone), o Escorpião, Targo (ambos do Rodolfo Zalla), Pabeyma e Super Heros (ambos do Paulo Fukue), etc. Esses últimos que citei, muita gente nunca ouviu falar, infelizmente!

8 - Qual o seu super-herói brasileiro preferido (sem contar os seus)?

Quando era garoto (faz tempo, na idade da pedra) a TV Record, canal 7, de São Paulo, lançou um seriado preto e branco, do super herói brasileiro Capitão 7, que depois virou gibi com desenhos, excelentes, de Getúlio Delphin. Há uns 12 anos atrás conheci pessoalmente o Getulhão, que tinha acabado de chegar da Europa e foi visitar minha editora. Também curtia, em mil novecentos e lá vai pedrada: Raio Negro, Bola de Fogo (de Wilson Fernandes), Golden Guitar, Homem Lua, etc.

Muita gente não sabe, mas tivemos aquele monte de super-heróis criados no Brasil nos anos 60. Nenhum deles vingou tanto quanto Raio Negro, que foi publicado durante um ano (12 edições). Depois que a TV Bandeirantes de São Paulo lançou os desenhos mal-animados dos heróis Marvel e a EBAL (do Rio de Janeiro) lançou os gibis da Marvel no Brasil, surgiram muitos heróis nacionais. Mas o Capitão 7, interpretado na TV pelo meu amigo Ayres Campos, surgiu anos antes dos heróis made in USA surgirem no país!

9 - Você fez algum curso para aprender a desenhar?

Diversos! Fiz cursos por correspondência e passei por várias escolas, que em sua grande maioria, naquela época, não ensinavam direito. Aprendi muito mais ao lado do Ignácio Justo, na prática! Desenho e arte, em geral, é um aprendizado constante. A gente está sempre estudando uma nova técnica, buscando a evolução, o aprimoramento. Uma escola pode te dar a base da coisa, as dicas básicas, porém a evolução vem conforme o tempo que você se dedica a arte. Tem gente que evolui rápido, enquanto outros demoram mais.

Já dei várias aulas de desenho e roteiro e sempre disse aos meus alunos que “Quanto mais você desenha, escreve e observa, mais você evolui”. Um desenhista, antes de tudo, deve ser um bom observador. Buscar boas referências em obras do passado também é fundamental para desenvolver técnicas dos grandes mestres, quer sejam eles brasileiros ou não. Um desenhista de verdade jamais pode dizer que sabe tudo, pois está sempre aprendendo, evoluindo. Acho que isto vai até a morte. Enfim, arte é um eterno aprendizado, como citei antes, seja ela qual for.

Gostar de HQs é uma coisa, agora, fazer HQs dá um trabalhão danado! É preciso ralar, estudar e gostar muito. Hoje o computador esta aí para facilitar as coisas. Antigamente, fazíamos tudo na raça e os originais eram grandes (no tamanho A3). Pintar um original desse era uma aventura, pois caso você errasse numa cor tinha que começar do zero, ou seja, desenhar aquela página ou capa de novo. Deus salve a informática (risos)!

10 - Como você aprendeu a fazer roteiros?

Sempre adorei cinema! Desde pequeno eu assistia muitos filmes. Também sempre adorei ler. Leio muito. Desde livros de bolso, filosofia e clássicos da literatura nacional e internacional até gibis. Fiz muitos textos para publicidade (TV, rádio, campanhas, escrevi muitos contos, etc). Também escrevi muitas matérias para diversas revistas e jornais. Não me considero um escritor, mas sim, um bom redator. Sempre me amarrei em roteiros de filmes.

Veja bem, se você for num cinema e a história for uma merda, do que adianta ter um grande elenco? Portanto, a história é e sempre será mais importante do que os atores ou o desenhista. Nas HQs, um bom desenho (bonito e agradável) atrai o leitor. Mas, pergunto: quanto tempo um leitor comum fica olhando para os desenhos? O que importa para a grande maioria são os balões, o enredo.

Trabalhei na Abril (como free-lancer em 1973) escrevendo Disney. Naquele tempo fazíamos muitas HQs do Pato Donald e outros personagens. Essas revistas vendiam muito (hoje não vendem tanto) e a Abril lançava muitos títulos. Nos Estados Unidos a editora Gold Key lançava edições mensais de 32 páginas com os patos, enquanto no Brasil saiam vários almanaques mensais e revistas quinzenais. Uma doidera! Para atender a demanda comprávamos HQs Disneys produzidas na França, Dinamarca, Itália (acho que até hoje isso acontece) e produzíamos as nossas no Brasil. Sabe qual era o maior problema de se produzir Disney no país? Faltavam boas histórias!

Naquele tempo a Abril tinha uma escolinha que ensinava desenhar os patos e bolar roteiros. Advinha se eu não entrei nela? Não poderia perder aquelas dicas importantes!No Brasil temos ótimos desenhistas, entretanto a maioria não sabe escrever. Infelizmente, tem muita gente que não estudou ou que tem preguiça de ler. Quem quer trabalhar com arte tem que estudar, tem que ter cultura. Não pode apenas ler HQs.
Quem quer escrever bem, também, tem que ler bastante e prestar atenção. Saber o português é fundamental. Acho que sobrevivi até hoje porque sempre escrevi os meus roteiros. Já imaginou você ficar dependendo de alguém que escreva para você poder trabalhar? É fria!

Nas grandes editoras há sempre roteiristas, mas nas pequenas a gente fazia tudo, letra, roteiro, balão, etc. Ou a gente se virava ou não sobrevivia.

Dica: A fórmula básica para se escrever uma boa história é simples:
1- O personagem tem um problema para ser resolvido.
2- Ele precisa superar um obstáculo.
3- Ele suplanta o obstáculo e atinge seu objetivo.

Para que uma história se torne ainda mais interessante basta você colocar mais de um obstáculo para que seu personagem enfrente-os, supere-os. Uma boa pitada de: morte, mulher, humor, ação e suspense também fazem um bom roteiro ficar atrativo. Os americanos e europeus, em geral, têm bons roteiristas.

Atualmente, os filmes de Hollywood têm apresentado muitos efeitos de computação gráfica e alguns roteiros medíocres. Por isso é sempre bom, para um profissional, dar uma espiada em tudo o que foi produzido no passado. Naquela época não havia tantos efeitos especiais e o pessoal caprichava mais nos roteiros!

11 - O que você acha do atual cenário da HQ brasileira?

Falta novidade, no que se refere aos heróis made in Brazil! Quanto aos super-heróis americanos estão aí desde a década de 60, quando foram ressuscitados pelo genial Stan Lee e sua equipe. Depois que a Segunda Guerra Mundial acabou, os heróis made in USA foram pro saco, quando suas vendas despencaram.

Anos depois (na década de 60), surgiram bons redatores como Stan Lee e outros, que reviveram muitos desses velhos heróis. Isto é o que eu estou tentando fazer hoje: ressuscitar o Fantasticman e CIA. Criei novos universos, mais personagens e novas HQs. Agora, como você sabe, estamos negociando com vários editores para tentar relançar nossos “produtos” e isto não é fácil. Em geral, os editores brasileiros não acreditam nos heróis tupiniquins e nem em seus autores. Alegam que não vendem e que os estúdios ou autores pisam na bola no prazo de entrega do material. Sou obrigado a concordar com eles: falta profissionalismo,embora este não seja nosso caso.

Fazer uma HQ não é brincadeira, é trabalho a beça. Você tem prazo para entregar o material ao editor, que deve ser respeitado. Ele, por sua vez, tem prazo para entregar o material na gráfica e na distribuidora. Tem autor que não se manca. HQs não são obras de arte para Museus. São simplesmente artes comerciais, de consumo!

Quem quer ser artista, na acepção da palavra, deve pintar quadros. No mundo inteiro ,e principalmente na América, as HQs viraram indústria! Por isso trabalham em equipe para produzir rápido, com qualidade. Cadê as equipes nacionais? Cadê a produção?Como podemos exigir nacionalização das HQS (50% brasileira e 50% importada), se não temos produção? É certo que por ser um campo difícil muita gente não se aventura por ele. Mas, se ninguém se propor a fazer a coisa, a brigar pela coisa, jamais teremos HQs nacionais em séries.

Eu e minha equipe produzimos (investimos) por cerca de três anos nessas novas séries. Como? Trabalhando para editoras de livros didáticos e publicidade enquanto desenvolvíamos paralelamente as novas séries. Não foi fácil! Gastamos milhares de horas nas pranchetas e em computadores. Varamos muitas madrugadas. Hoje temos mais de 3 mil páginas em cores, prontas, de diversas séries! E desde novembro de 2007 estamos tentando vender esses projetos. O legal é que hoje podemos garantir continuidade para qualquer editor.

Eu gostaria que mais gente entrasse nessa briga por espaço do Quadrinho Nacional nas bancas! Mas onde estão os novos autores? Vejo muita gente mostrando personagens na internet, mas eles precisam levar a coisa a sério, trabalhar muito, ter produção, se organizar, constituir empresa, gerar emprego e ter um produto vendável. Caso contrário, sempre vamos ter um bando de amadores tentando brigar com as HQs importadas, que são feitas de forma racional e com todo um aparato de marketing!

Uma grande editora, em qualquer parte do planeta, só vai comprar um personagem se o autor garantir continuidade. Afinal, quem vai investir num produto que deixa de existir no mês seguinte, por falta de produção? Ninguém!

Em síntese, no atual cenário das HQs brasileiras pouca coisa mudou nos últimos anos. No cenário dos importados surgiram muitos personagens, verdadeiras melecas, e pouca qualidade. Quem conheceu as feras que desenhavam Marvel no passado sabe do que estou falando. A Marvel tinha um time de desenhistas nota dez!!!

12 - Você acha que a Internet está ajudando os super-heróis brasileiros?

De certa forma, sim. A WEB é hoje uma importante ferramenta de divulgação. Por exemplo, uma nova geração está descobrindo alguns heróis brasileiros do passado. Antes, eles poderiam ser facilmente esquecidos. Mas, hoje, a preservação da memória ficou mais fácil!

Muita gente gosta de gibis, curtiram alguns desses heróis, e através das comunidades trocam idéias e informações sobre eles. Isto é super importante, é claro. Mas, para os editores e autores o que garante a permanência de um produto no mercado são as vendas.

Qualquer revista de HQs hoje, em cores, tem um custo alto. Quanto menor a tiragem maior será o preço de capa final ao consumidor e, consequentemente, piores serão as vendas. Portanto, é preciso ter uma boa tiragem para se obter um bom preço de capa. Mesmo assim, isto não garante as vendas. O leitor pode não gostar da história ou do personagem. Daí todo o investimento já era! Nem todo personagem emplaca e não existe escola de marketing que explica o fenômeno de venda. As vezes, um bom desenho não vende e um mal desenho emplaca. Há muitos exemplos clássicos!

Ter comunidades citando heróis é legal, mas isto não significa que quando eles estiverem nas bancas poderão vender bem. Como diz o ditado “A voz do povo é a voz de Deus”. Fazer revistas é um trabalho como qualquer outro. Há um investimento, que deve ter retorno. Nenhum produto fica na prateleira de um super mercado se ele não tiver aceitação popular. Os gibis também são assim, como tudo na vida.

Alguns dizem que a Internet está acabando com as vendas em banca. Eu acredito que além da WEB há outras coisas que ajudam a derrubar as vendas, por exemplo:
Hoje há uma grande quantidade de editores no mercado, coisa que não existia anos atrás. Atualmente, um adolescente, gasta com celular, games, Lan Houses, roupas de grifes caras, etc. Antigamente, se gastava bem menos, pois essas coisas não existiam. Quando eu era garoto a gente ia ao cinema, via TV, teatro, e só. Hoje, aumentou o número de pessoas no Brasil, consequentemente aumentou a grana. Mas as vendas crescem 4% ao ano. Ao meu ver, muito pouco! Na minha época de moleque éramos 70 milhões de brasileiros. Hoje somos 186 milhões! Há mais gente, mais pessoas, maior divulgação via WEB, mas as vendas, dos últimos dez anos não alteraram muito. O brasileiro continua não gostando de ler!

Há muitos editores aventureiros na praça. No final, ficarão apenas os grandes e aqueles que mostrarem maior criatividade, eficiência e infra-estrutura. Já tive três editoras minhas e quebrei! Essas experiências foram fantásticas e traumatizantes ao mesmo tempo. Graças a essas loucas empreitadas hoje tenho uma visão muito além da maioria dos desenhistas que jamais tiveram a experiência que tive a frente de uma empresa editorial. Conheço gramaturas de papéis, custo gráfico, etc. Aprendi a negociar com fornecedores e grandes distribuidores. Tudo isso me deu uma enorme bagagem profissional, mas, foi ingenuidade minha pensar que essas minhas firmas pudessem brigar mano-a-mano com Abril, Globo, etc. Ganhei até algum dinheiro, mas hoje sei que este não é o caminho. Mudei a política. Já que não podemos encará-los, devemos nos juntar a eles, é óbvio!

Não creio que a tecnologia vai acabar com as revistas em geral, mas creio que com os atuais problemas de mercado devem ser superados. Precisamos criar novas estratégias de mercado.

13 - Conversando com mestres como: Emir Ribeiro,Gedeone e Colonnese, fui informado de que existem máfias editoriais que impedem as HQs nacionais de se destacarem. Quando você publicou suas revistas nos anos 80 e 90 sofreu a ação dessa máfia?

Não. Entretanto, um país do tamanho do Brasil deveria ter vários distribuidores! Aliás, no passado já os tivemos. Com o tempo eles foram quebrando. Nos últimos anos só existiam apenas duas distribuidoras de revistas no país: DINAP (da editora Abril, em S. Paulo) e a Fernando Chinaglia ( no Rio de Janeiro). No final de 2007 tivemos uma surpresa: a Abril que passava por dificuldades financeiras, segundo o que ouvi, vendeu 30% das ações da DINAP para um grupo sul-africano e meses depois acabou comprando a Fernando Chinaglia que, segundo alguns, estava falida. Portanto, temos agora no mercado nacional o monopólio do grupo Abril!

Isso causou um reboliço em todos os editores. Muitos que tinham brigado com a Dinap (devido a baixas vendas, etc) correram para o Chinaglia. Agora a coisa ficou preta, pois o Chinaglia também pertence a DINAP. Editoras como Escala, Panini e outros ficaram apreensivas. Muita coisa está errada em nosso país! Agora esse monopólio só pode beneficiar a própria Abril, que também teve queda em suas vendas, nos últimos anos. Alguns cogitam que haverá uma quebradeira geral, dos pequenos e médios editores, e que os pontos de vendas serão dominados apenas pelos grandes. Concordo! Ao meu ver desse excesso de editores que surgiram nos últimos anos, alguns despontaram e acabaram crescendo. Esse crescimento descontrolado de produtos a preços baixos acabou afetando todo mercado e até mesmo abalando editoras poderosas como a Abril.

Portanto, esse monopólio pode significa o controle total do mercado nacional e o poder absoluto sobre quem deve ou não permanecer nas bancas. Como isso pode acontecer? Simples: fazendo uma má distribuição dos concorrentes, deixando metade da mercadoria enviada em depósitos, que após algum tempo é devolvida com a alegação de que não vendeu.

Isso eu já presenciei no passado. Era uma forma de controlar editores que “ensaiavam para crescer”. Por exemplo: nos anos 80 você soltava uma revista pôster e vendia 70%. Na sequência, para descapitalizar sua empresa, eles (a máfia) faziam uma má distribuição de um outro de seus lançamentos. Assim, você estava sempre sob controle. Num mês se ganhava muito, no outro perdia-se muito! Acontece que alguns editores escaparam desse jogo, cresceram e acabaram incomodando os “senhores do mercado”. Isso, talvez, possa explicar o atual monopólio. Outra coisa: monopólio é proibido pela Constituição Federal!!!

Mas, fazer o que? A AMBEV não está aí dominando 70% do mercado de cervejas?!? Quem tem grana manda nesse país! Um dia, numa reunião de editores, fiz a seguinte questão aos colegas: se você fosse a Volkswagem, você daria seus carros para a Ford distribuir? Obviamente, todos responderam que não, pois trata-se de uma empresa concorrente do setor automobilístico. Voltei a perguntar: “E por que nós editores, damos nossas revistas para serem distribuídas pela ABRIL?” Todo mundo ficou mudo! É óbvio que eles controlam o mercado e que podem até se apropriar de idéias criativas oriundas dos pequenos. Por que, não? Como disse anteriormente, dificilmente grandes editores investem nas HQs nacionais. Dessa forma como as HQs poderão conquistar o mercado, se oferecem produtos caros (devido a baixa tiragem) e com qualidade inferior a dos comics americanos? Os autores não devem brigar com os grandes e sim, se unir a eles. O Maurício não fez isto e se deu bem? Por que o Maurício de Sousa não se mete a publicar sozinho, sem uma grande editora por trás? A resposta é simples: ele não é maluco!

Pouca gente sabe disso, mas, antes da Mônica e Cebolinha serem lançados pela Abril, a revista BIDÚ (com os mesmos personagens) foi lançada pela gráfica e editora Bentivegna, em preto e branco. Os personagens do Maurício, mesmo já sendo conhecidos através das tiras diárias que saiam no jornal Folha de S. Paulo não emplacaram! A revista fechou! Anos depois, a Abril lançou 300 mil exemplares, em cores, num preço acessível e a coisa pegou! Outro fator que na época contribuiu muito foram os desenhos animados desses personagens que, de repente, invadiram nossos lares nos antigos comerciais em do Extrato de Tomate Elefante e outros produtos da CICA.

Outro fato curioso: a primeira editora a lançar Conan, o bárbaro, no Brasil foi a M&C Editora. A revista saiu em formatinho, em preto e branco,com tiragem de 10 mil exemplares. Não passou do número dois! Muitos anos depois, a Abril lançou no formatão e o produto emplacou por cerca de dez anos! Em 1985, quando lancei pela minha editora o gibi do Fantasticman, não tive problemas com a máfia, mas não consegui fazer uma boa tiragem ou a revista em cores. Eu não tinha cacife!A revista obteve boa venda, mas foi por sorte. Mas, por outro lado, me pergunto: Eles (os senhores do mercado), para minimizar o custo operacional de distribuição, num país imenso como o nosso, também não precisam dos editores menores?!?

14 - Há muitos leitores que têm preconceito contra super-heróis criados no Brasil. Você sabe dizer o motivo?

Tudo é uma questão cultural! Hitler e o nazismo tentaram conquistar, na base da porrada, as demais nações. A América catequizou o mundo sutilmente com seus filmes, músicas, etc. A cultura americana hoje é conhecida em qualquer parte da Terra. A mensagem embutida nos produtos americanos traz a idéia de que lá, nos EUA, tudo é perfeito, tudo é bom, e que não existe miséria ou fome. Uma grande mentira, é claro! Gerações e gerações de brasileiros cresceram e ainda crescem achando que MacDonald e Coca-Cola são "THE BEST"! Eu também já fui americanizado, na adolescência. O marketing gringo é forte. Assim, nossos jovens passam a idolatrar a América e tudo o que dela se origina, sem dar importância para os produtos made in Brazil.

Quando lancei FantasticMan também lancei o FANTASMA NEGRO. Este último era um herói que vivia em São Paulo. Por esse motivo ele teve vendas inferiores as do outro título, que situa os personagens num outro Universo. Essa mistura de ficção-científica e ação estimulou as vendas. Todo editor que colocou nas bancas gibis com heróis cangaceiros na capa se deu mal. O público, em geral, sempre torceu o nariz pra isso. No passado, preferíamos as HQs de cowboys do que aquelas que tinham cangaceiros como personagens. Jerônimo, o herói do sertão, e Juvêncio (uma espécie de Zorro/Lone Ranger tupiniquim), foram raras exceções! Ambos vieram das novelas radiofônicas para as HQs e chegaram a durar vários anos, apesar de mostrarem cenas de cangaço. Porém, os heróis não eram cangaceiros.

Como é fácil notar, o jeito é criar personagens universais! Temas regionais nem sempre são bem-vindos. Temos preconceito da nossa própria cultura. É ridículo, mas é verdade! A gente só começa a dar valor para o que é nosso depois dos 30 ou 35 anos. Quando você trabalha com arte, em geral, acaba sentindo o drama. Acho um absurdo você, em seu próprio país, ter que brigar por espaço, que é tomado pelos produtos gringos!!!

15 - Fantasticman é um personagem muito conhecido, querido e cultuado. Você acha que essa aceitação se deve ao que?

1º - A insistência que tivemos em lançar ele diversas vezes.
2º - Ele, na verdade, é o primeiro herói brasileiro a mostrar aventuras tipo Marvel, com um “Q” de Jack Kirby e Stan Lee, eu acho. Antes dele ouve o Raio Negro, mas as histórias não eram na linha Marvel.
3º - O tema é ficção-científica com ação! É um tema, cada vez mais atual, e universal. Antigamente a garotada se amarrava em bang-bang (na TV, no cinema e nas HQs), depois veio a era Marvel e os velhos cowboys cederam espaço (tanto no cinema, TV e HQs) para os heróis e para a ficção científica. Vivemos na era tecnológica, onde sonhamos em conquistar novos mundos e descobrir novas civilizações. FantasticMan fala essa linguagem. Ele é atual!

16 - Que conselho você daria para quem quer trabalhar com HQs no Brasil?

Trabalhar com HQs no Brasil não é problema, desde que elas sejam importadas (risos)! A coisa é fácil: basta você procurar emprego nas grandes, médias e pequenas editoras. Qual é a diferença? Na pequena você ganha menos, trabalha mais e aprende mais, além de se tornar eclético. E, pode pintar uma chance de você publicar seus personagens enxertando seu material nas publicações estrangeiras. Nas médias você tem um salário considerável e pode aprender esforçando-se. As chances de publicar seu material (personagem) são remotas. Mas, você pode se dar bem fazendo ilustrações, capas, etc.

Lembre-se, nem só de HQs vive o homem. Um desenhista deve aprender a fazer de tudo na área artística-comercial e um estúdio deve ser eclético. Um bom desenhista deve saber executar vários estilos, caso queira sobreviver. Há milhares de áreas que precisam de desenhos.

Como você pode ver, trabalhar com HQs na terra Brasilis não é difícil, mas, publicar seus próprios personagens e viver disso, não é fácil, apesar de não ser impossível. Sempre acreditei que o impossível não existe. É preciso ter garra e muita força de vontade, um bom papo de venda, e um pouquinho de sorte. Você tem que ralar, correr atrás, bater de porta em porta, na esperança de encontrar um editor maluco que esteja a fim de lançar um personagem que nunca ninguém ouviu falar.

“FantasticMan? Ele não está na televisão, portanto, não vai vender!”. Cansei de ouvir esse papo de editores, porém sempre contra-argumentei, pois isso não é verdade. Nem tudo o que aparece na TV vende. É outra linguagem, o papel é estático e não tem som. Outra coisa: se isso fosse verdade, POPEYE e PICA-PAU seriam as HQs mais vendidas do mundo! Há quantos anos eles estão na TV? Grandes editores desse país lançaram esses títulos inúmeras vezes e, em geral, obtiveram vendas inexpressivas.

Papo final para quem quer trabalhar com HQs: descolar um emprego no departamento de arte de uma editora é uma boa. Você vai aprender muito sobre o assunto, a produção, etc. Além disso, estará se enturmando com o pessoal do meio e isso poderá gerar novas oportunidades. Antes de me casar eu trabalhava em casa. Fazia free-lancers para diversas empresas, mas meus rendimentos eram instáveis. Quando minha primeira filha nasceu eu precisava garantir a família. Acabei arrumando emprego na Editora Noblet, como assistente de arte, depois virei diretor de redação e, por fim, diretor de arte.

Durante cinco anos conheci muita gente, e mesmo estando empregado fazia muitos free-lancers para empresas concorrentes, como: Bloch, Grafipar, etc. Há vários caminhos que podem ser trilhados. Depende da cabeça de cada um.

17- Deixe uma mensagem para seus fãs.

Você quis dizer, uma mensagem aos fãs dos meus personagens, não é (risos)? Bem, lá vai... lute por seus sonhos! Só você poderá fazê-los se tornar realidade. Corra atrás, sempre, daquilo que você acredita.

Acho que dei sorte, corri atrás (aliás, continuo correndo até hoje) e contei com um empurrãzinho do “Chefe lá de cima”, pois consegui criar 4 filhas fazendo, na maior parte do tempo, HQs dos meus próprios personagens. Foi incrível! Se eu consegui todo mundo pode conseguir, basta usar a cabeça e ir á luta.

Um autor deve, antes de tudo, acreditar no seu potencial, mas não deve se iludir. Faturar para as necessidades básicas é fundamental. Ninguém chega lá, sem ralar. Trace uma meta, seja autocrítico e um bom vendedor. Sempre acreditei que se “o Chefe”, lá em cima, te deu o dom, Ele há de prover. Risque a palavra "IMPOSSÍVEL" do seu dicionário! Nós, os seres humanos, nascemos para conquistar o impossível!

Para encerrar... quando trabalhei no departamento de arte da Abril, na divisão infanto-juvenil, em 1973, havia uma mensagem na parede que dizia assim: “O impossível fazemos na hora, milagres demoram um pouco mais”. Este continua sendo meu lema!
Aquele amplexo para todos!!!

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