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Entrevista: Custódio
Por Bira Dantas e Marcio Baraldi
26/08/2010

"A conquista de novos leitores de HQ vai passar por essas biografias em quadrinhos que estão sendo feitas!"

José Custódio Rosa Filho é cartunista, chargista e ilustrador há 20 anos. Já fez personagens, tiras, charges e animações para agências de publicidade, sindicatos, revistas, jornais e canais de TV. Pela Agência Estado, publicou em 55 jornais no Brasil e um do exterior. Tem um livro de textos publicado (Manual do Sexo Virtual), ilustrou livros infantis e teve colaborações em várias revistas e álbuns de quadrinhos. Criou animações para a peça Sexus, a Comédia, em 2006, foi premiado nos salões de humor de Volta Redonda, Amazônia, Brasília e recebeu o Prêmio de Excelência no National Press Club do Canadá. Venceu o Prêmio de Tiras do Jornal Estado de São Paulo em 2008 e atualmente é chargista do Hoje Jornal, do ABC (SP). Além de tudo isso foi um dos vencedores do ProAC 2008, categoria quadrinhos, com o projeto “Anita Garibaldi”, livro que acaba de lançar no mercado. E é justamente sobre esse livro e todos os demais assuntos que o Bigorna conversou com o artista num bate-papo descontraído e bem humorado. Com vocês, custe o que custar: Custódio!


1 - Qual é a sua idade e onde nasceu? É casado ou tico-tico no fubá?

Tenho 42 anos, sou paulistano e casado.

2 - Quando começou a desenhar? Quem te influenciou?

Lembro de ficar ao lado do balcão da loja onde meu pai trabalhava, desenhando partidas de futebol infinitas em cadernos escolares com pauta. Devia ter uns 3 pra 4 anos. Nessa época ninguém tinha me influenciado ainda (risos).

3 - Quais gibis você lia? Ainda tem algum dessa época? Já releu? O que achou?

Nessa época ainda não lia nenhum, mas depois descobri os gibis da minha geração: Maurício de Sousa e Disney! Eu lembro das histórias de Carl Barks, adorava aquelas historias, mas sem saber que eram do Carl Barks. Vim entender quem era Carls Barks há pouco tempo.

Os desenhos animados também me influenciaram muito, bem antes dos gibis. Depois foram os gibis e, muito mais tarde, o Pasquim (que naquela época ainda existia, cambaleante), o Millor, o Ziraldo... Eu já era grandinho quando descobri o Asterix, já tinha uns 13 anos. Não tínhamos grana pra comprar álbuns de luxo como Asterix por isso os conheci na casa de um amigo. Foi uma descoberta!!! O desenho, a temática, o tipo de humor!!! Em uma terceira etapa, descobri o Laerte e o Spacca, e depois o Bill Watterson.

4 - Qual foi a sua primeira publicação? Foi remunerada?

Acho que foi um cartum num concurso do Pasquim. O prêmio era uma caixa de cerveja, mas ela nunca veio. Melhor assim, eu era menor de idade mesmo (risos)!

5 - E seu primeiro fanzine? Eu lembro que te conheci quando eu era chargista do Sindicato dos Químicos de São Paulo e guardei seu zine até pouco tempo atrás. Apesar de você falar que não dei muita bola (risos), eu curti, principalmente na hora em que o teu personagem fazia campanha pro PT (mais risos)...

Não lembro que zine era esse, acho que era "A Mosca", é isso?!? Era basicamente de textos, o personagem era uma mosquinha, um pontinho preto. Ideia de preguiçoso, mesmo (risos). Mas não lembro que ela fosse tão partidária. Meu ideal de quadrinho politizado na época era a Mafalda, do Quino.

6 - Como foi a tua passagem pela Imprensa dos Químicos?

Um aprendizado! Foi meu primeiro emprego como cartunista em imprensa diária. Era decentemente remunerado, comprei carro, namorei muito, foi como abrir uma comporta de represa. Nessa época comprei todos os livros de quadrinhos que eu sempre quis. Virei um rato de sebo (daí veio o personagem homônimo que eu criei), e achei muitas raridades. Acho que 60% da minha biblioteca foi montada nessa época. As pessoas geralmente tem saudade da infância, se eu tivesse saudade de alguma coisa, acho que seria dessa época. O mundo cabia na minha mão!

7 - Você participou do livro "Dez na área", da Via Lettera, ganhador do HQ Mix. Como viu todo aquele imbróglio no ano passado, envolvendo o livro? O lance da Secretaria de Educação comprar o livro para alunos pequenos das escolas e o livro ser desaconselhável para crianças?

Vejo esse rolo todo de duas maneiras:
1- Quem comprou o livro, não sabia o que estava comprando. Aí veio todo o preconceito e senso comum das pessoas contra Quadrinhos!
2- A editora tinha vendido mil e pouco exemplares pro governo e eu, como um dos 11 autores, soube disso somente pela imprensa. Ou seja, não recebi qualquer pagamento, ou, o que seria o mínimo, nem mesmo alguns livros como compensação. Chato, né?

8 - Você ganhou um prêmio no ultimo concurso de charges e cartuns do Estadão. Quando foi e o que rendeu?

Rendeu um equipamento tablet excelente e algum retorno na época. Muito amigos, com quem eu nem tinha mais contato, me ligaram pra dar parabéns. Eram 1.700 concorrentes e eu fui o ganhador! Mas infelizmente não foi muito mais que isso.

9 - As charges que a Agência Estado distribuiu pra você eram editoriais ou cartuns genéricos? O contrato foi por quanto tempo?

Eram charges específicas. O grande barato era que eu mesmo me pautava. Fazia o que eu quisesse, esportes, política, o que tivesse mais em evidência. Era um exercício de faro jornalístico pra pegar o assunto que mais bombava naquele momento. O problema era que meu ganho dependia diretamente da venda das charges para jornais e interessados e, algumas vezes, não compensava o esforço. Também aconteceu que muitos jornais começaram a contratar chargistas locais e cada vez compravam menos da Agência, o que na verdade era ótimo, pois significava mais contratações na categoria. Outra coisa era que a gente competia diretamente contra as fotos, no mesmo espaço de exposição, inclusive. Tinha 500 fotos do Brasil inteiro todos os dias na vitrine, e lá no meio a charge sozinha. O contrato era flexível: eu fazia quando quisesse. Quando não valia mais a pena, eu parei.

10 - Você ganhou o Prêmio de Excelência no Canadá em 2005, como foi isso? Os canadenses ainda te chamam de "Vossa Excelência" (risos)?

Aquilo foi uma competição de charge política, com charges de tudo quanto é país, e eu ganhei. Mandaram diplominha e tudo! Deu um charme pro currículo. Mas eu não sou excelência nem pro meu cachorro, que aliás tem mais linhagem nobre do que eu (risos).

11 - Como foi o teu contato com o site Releituras e a criação do personagem Rato de Sebo? Você ainda faz essas tiras (veja aqui)?

O Rato de Sebo eu fiz como ideia antiga e de presente para meu grande amigo Arnaldo Nogueira Junior. Acho o personagem muito bacana, muita gente escreve comentando e se procurar pela internet muita gente republica as tiras por aí até hoje. Livro didático também, é uma demanda, todo ano pedem tiras do Rato de Sebo pra inserção nos livros. Estou relapso com este personagem, e uma das minhas frustrações é nunca ter publicado ele de forma diária em jornais. Tá meio paradão, mas eu vou retomar!

12 - Você foi sócio do Spacca no Estúdio Fun For Business. Como é/foi a relação entre vocês? O estúdio continua? Quantas HQs foram feitas a quatro mãos e duas cabeças?

Não, não continua. Durou uns 5 anos, mas claro que pra mim foi um ótimo aprendizado. Engraçado que eu entrei na sociedade já com muitos anos de janela, eu já tinha livro publicado, com lançamento em Bienal do Livro, entrevista em um monte de lugar. Já tinha uma vida construída, carro e casa, mas é sempre tempo de aprender com quem tem mais bagagem que a gente. Tínhamos ideias parecidas para explorar uma área nova pra humor gráfico, achávamos que era um filão a ser descoberto ainda. Mas não tivemos o retorno que imaginávamos e aí começaram os projetos pessoais. Quando o livro "Santô" do Spacca, quadrinização da vida de Santos Dumont, estava do meio pro final, não estávamos produzindo mais nada juntos, então não fazia mais sentido continuar uma sociedade apenas de "nota fiscal". Então cada um foi pros seus livros e projetos. Ficou a amizade e a bagagem.

13 - Você frilou no Jornal do Brasil e na Veja. Fale sobre isso e conte como você aguentava publicar na Veja? Você usava máscara anti-gases (risos)?!?

O Jornal do Brasil fazia parte de um projeto do Rick Goodwin e do Ziraldo. A Veja, eles pegavam charges minhas pela Internet e reproduziam numa seção lá da revista. Foi pouca coisa, não passou disso, tá? Não precisa mudar de calçada quando me ver (risos)!

14 - Ufa! Ainda bem (risos)!...Agora vamos falar de música. Você toca sax e se apresentou várias vezes na Pizzada (evento que Custódio organiza anualmente na pizzaria Prestissimo em São Paulo - veja aqui. A música é só um hobby ou você encara o lance profissionalmente? Já gravou com alguém ou se apresentou em algum lugar (além da Pizzada, claro)?

O Sax ficou lá pra trás! Larguei faz tempo, lamento, mas acho que é amor não correspondido. Meu hobby agora é futebol, mas como acabei de operar o joelho (justo por causa do futebol) também já não sei mais. Tô pensando em gaita, o que você acha (risos)?

15 - Em janeiro de 2009 você escreveu no Blog do seu livro da Anita Garibaldi "serão 8 meses de ácaros, prancheta e calo nos dedos" se referindo a trabalheira da produção do livro. E agora que o livro acabou de sair, foi toda essa dureza mesmo?

Não...foi MUITO mais que isso (risos)! Na verdade todo o projeto demorou 3 anos! Fui meio lento, mas creio que a pesquisa e o conteúdo valeram a pena. Espero que o agrade, porque não acabou a história dela ainda e eu penso em fazer uma segunda parte.

16 - E por que você escolheu a Anita Garibaldi pra biografar? Já tinha admiração pela história dela?

É porque além dela ser uma personagem fascinante, que valia  a pena ser desenhada, minha família toda (antepassados de pai e mãe) são de Laguna, cidade onde Anita se criou e onde conheceu o marido revolucionário Giuseppe Garibaldi. Na verdade não se sabe ao certo onde ela nasceu, pois nenhuma documentação com essa informação foi encontrada até hoje.

17 - Esse livro é o seu trabalho mais ousado até o momento, não? Gostou do resultado final do trabalho? Sente que cresceu como artista ao realizar esse projeto?

De fato esse foi um trabalho que realmente deu trabalho (risos)! Acho que o resultado final, como conjunto, é bom, pelo menos é o que se deduz das resenhas que saíram na imprensa e na internet. Como artista eu senti, primeiro cansaço e vontade de não fazer nada do gênero por um ano ou mais. Depois, veio uma certa saudade da rotina e do processo de produção do livro. Agora estou já um pouco ansioso em viabilizar uma maneira de terminar a saga dela, fazer um segundo volume com o resto da biografia que não coube neste livro.

18 – Você tinha um outro livro antes desse, "O Manual do Sexo Virtual". Fale um pouco desse livro.

O Manual do Sexo Virtual foi escrito em 1999 as pressas, em apenas três meses, e lançado na Bienal do Livro de 2000, em São Paulo. A Editora Nova Alexandria fez uma grande aposta na época, era meu livro de estréia, um livro de humor recheado de cartuns sobre um tema que então ainda era novidade.
Acho que foi um livro engraçado, pois na época eu fui em vários programas de TV e rádio, como o Programa da Babi e o Pânico, mas comercialmente não deve ter dado o retorno esperado, porque o livro hoje está esgotado e não reeditaram.

19 - O que você prefere fazer: cartum, charge ou quadrinhos?

Tenho traço e pegada de cartum e charge. Acho que o meu melhor está no texto, então seria a tira. Mas quadrinhos é uma coisa legal, se você tiver paciência de fazer. Gostaria de ser mais rápido ou menos preguiçoso.

20 - Você ganha dinheiro com internet?

Essa pergunta tá parecendo aqueles spams que a gente recebe (risos)! Tudo o que eu pesquiso, envio orçamento e entrego hoje é via internet. A venda do livro também. Então nesse caso eu ganho sim, mas na verdade o dinheiro vem do cliente ou do leitor.

21 - Quantos e quais Prêmios você ganhou até agora?

Salões de Humor de Volta Redonda, Amazônia e Unacom (Brasília), esse prêmio do Canadá, o concurso de tiras do Estadão, o PRoAc de 2008 (pra fazer o livro da Anita Garibaldi). Sou um soldado com poucas medalhas (risos)!...

22 - Nos últimos anos a molecada debandou das bancas de gibis, preferindo a internet e os videogames. Acha que essas biografias em quadrinhos que têm saído aos montes podem resgatar nesse público o hábito de ler gibis?

Não sei se vai haver volta ao hábito de procurar as bancas de gibis. As bancas eram a nossa internet de antigamente, onde o mundo vinha até nós e a gente podia "viajar". Hoje a molecada têm isso em casa, dentro do quarto, praticamente de graça. Acho que a conquista de novos leitores de HQs no Brasil vai passar sim por essas "biografias em quadrinhos" que estão sendo feitas, essas adaptações de contos e romances para HQs. Engraçado, mas involuntariamente o resgate pode se dar por conta dos governos, por esse movimento oficial de distribuição de livros em quadrinhos nas escolas e bibliotecas públicas. Pelos milhares de moleques que vão crescer lendo livros em quadrinhos em sala de aula, um sonho pra quem era da nossa época. Acredito que entre esses alunos podem surgir interessados em consumir ou mesmo produzir quadrinhos com frequência. Talvez as consequências que isso vai trazer pra linguagem e para o mercado dos quadrinhos só apareçam em 10 ou 20 anos, mas ter HQs nas escolas e bibliotecas é um privilégio que o menino Custódio queria ter na escola há 30 anos atrás!

23 - Na sua opinião quais os maiores problemas do quadrinho nacional e como resolve-los? acredita que uma lei de reserva de mercado funcionaria?

Quadrinhos são uma parte pequena de um mercado de enlatados, incluindo aí música, filmes, formatos televisivos tipo "dança dos famosos", BBB, etc. Acho difícil resolver isso com reserva de mercado. É olhar a coisa com um olhar mais curto, "parece" justo, mas não se sustenta. É como botar cinto de castidade na mulher, você até pode forçar que ela se relacione só com você, mas conquistar por mérito é muito mais eficiente.

24 - Se o gênio Shazam te concedesse três desejos, quais seriam eles?

Puxa... sei lá!... Palmeiras campeão do mundo umas 5 vezes dá um desejo só ou estoura a cota (risos)?

Visite o site do artista aqui.

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