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Entrevista: Sidney Gusman
Por Marcio Baraldi
19/04/2010

Hoje o Quadrinho Nacional tem mão-de-obra qualificadíssima!”

Ele queria ser jornalista esportivo, mas o destino fez com que se tornasse um dos maiores especialistas em HQs do Brasil! Mas, se engana quem pensa que o caminho foi fácil para Sidney Gusman. Até consolidar seu nome no mercado de quadrinhos, Sidão (como é popularmente chamado) ralou muito, ouviu muitos “nãos”, até conseguir sua primeira oportunidade, a qual agarrou sem pestanejar. Depois disso, em compensação, não parou mais! Estudioso e pesquisador nato, Sidão cavou espaço em muitas revistas e jornais de São Paulo até assumir, em 2000, o comando do então recém-criado site Universo HQ, o primeiro sobre quadrinhos no Brasil. Com o UHQ completando dez anos em 2010 (uma marca histórica para um site sobre quadrinhos), nada melhor que aproveitar a ocasião para um entrevistão franco e descontraído com Sidão. Assim, o jornalista pôde falar a vontade de sua trajetória, seu trabalho com o mestre-mor Maurício de Souza, seus quadrinhos preferidos e, claro, de sua batalha pra manter o UHQ na ativa todos estes anos. O Brasil perdeu um novo Osmar Santos, mas ganhou um Sidney Gusman! Sai daí que o jacaré te abraça, garotinho. Ripa na chulipa...EEEEEEE QUE GOLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!

1- Sidão, vamos dar uma geral na sua carreira? Como você entrou nessa de Quadrinhos? Você também curte gibi desde molequinho?

Bem, quando terminei o colegial, aos 17 anos, entrei na faculdade de Educação Física (por ser apaixonado por esportes). Eu me formei em 1986 e em 1988 cursei jornalismo. Claro que a intenção era trabalhar com jornalismo esportivo, o que fiz (em rádio, como repórter) por quase dois anos.

Mas era uma época brava, não ganhava nada na rádio e ainda estava na faculdade de jornalismo. Então, eu e um grupo de amigos criamos um jornal mural (isso foi em1989, naquela época não tínhamos nem sequer computador, quanto mais net), no qual comecei a fazer algumas críticas de quadrinhos. Era a época do boom das editoras Abril e Globo e todos os grandes jornais de São Paulo abriam páginas e páginas para falar de HQs.

Aí, como a galera da faculdade sempre falava que meus textos eram bacanas, decidi usar minha boa e velha cara-de-pau para tentar a sorte! Enfiei vários desses textos debaixo do braço e saí visitando as pessoas que escreviam à época - André Forastieri (Folha de São Paulo), Marcelo Alencar (Estadão), Alessandro Gianinni (Jornal da Tarde), Franco de Rosa (Folha da Tarde), Rosane Pavam (Diário do Grande ABC) e Leandro Luigi Del Manto (Editora Globo).

Fui sempre bem recebido, mas conseguir um freelancer eram outros quinhentos. Até que, numa dessas visitas, o Leandro leu e gostou do meu texto sobre Cinder e Ashe, minissérie que ele editou ainda na Abril. Aí, perguntou se eu gostava de música, porque queria publicar uma matéria sobre quadrinhos e música na HQ Press, uma seção que saía nas páginas centrais dos gibis Sandman e Fantasma (aquele remake da DC Comics), que o Leandro editava na época.

Cara, naquela hora, minha alegria era tanta, que se o Leandro me perguntasse se eu gostava do Palmeiras (sou corinthiano fanático!!!) era capaz de dizer sim só pra agradar ele (risos)!

Lembro que quando saí do prédio da Globo, no bairro da Lapa, em São Paulo, olhei pra trás pra ver se não tinha ninguém olhando e dei um salto, como se estivesse comemorando um gol. E, pra mim, foi um gol mesmo! Era a chance de entrar no mercado de quadrinhos, algo que, até então, era um sonho apenas.
Só quando baixou a adrenalina que eu percebi que a missão não seria nada simples, pois o Leandro queria sete laudas de texto (9.800 caracteres)!!! Nessa época eu quase não tinha material de referência e meu conhecimento sobre quadrinhos ainda não era tão grande. Aí, liguei para a Livraria Muito Prazer, (famoso point de Quadrinhos de São Paulo, infelizmente já fechado) expliquei a situação e perguntei se poderia passar o dia pesquisando lá.

Como a resposta foi sim, fiquei lá horas e horas, folheando centenas de HQs e anotando, anotando, anotando. Começou aí o meu gosto pela pesquisa, algo que sempre norteou meus textos desde então. Acabei escrevendo 14 laudas, o dobro do que ele tinha pedido! Quando entreguei, enquanto o Leandro ia lendo, minha agonia só aumentava. Depois de um bom tempo, ele falou: "Gostei muito; tenho que dar um jeito de publicar inteira essa matéria!"

A sensação de dever cumprido só não foi maior do que a satisfação de sentir que eu finalmente estava assinando minha entrada no mercado de quadrinhos. A matéria saiu nas edições 7 de Fantasma e Sandman; e como as revistas são de 1990, coloquei as quatro páginas (com poucas ilustrações, porque eu escrevi demais) no Blog do Universo HQ, num tamanho legal, pra quem quiser ler. Depois, com essas revistas debaixo do braço, consegui mais frilas. Passei para jornais (o primeiro foi o Jornal da Tarde), entrei na Globo, pra trabalhar como redator, escrevi para várias revistas e o resto é história.

Desde então, não passei nem um mês de minha vida sem escrever (nem que fosse uma notinha) sobre quadrinhos. Claro que, hoje, quando leio aqueles textos do jornal mural, penso: "Nossa, como eu pude escrever isso?". Mas isso é natural com qualquer profissional, em qualquer ramo de atividade, quando se recorda de seu início de carreira! E, quer saber? Uma lembrança deliciosa!

2- Por falar em lembrança, você lembra qual foi teu primeiríssimo gibi? Você ainda o tem? Você e desses caras que têm aquelas coleções com milhares de gibis, tipo o Worney ou o César Freitas (HQ e Cia.)?

Do primeiro que li, não me lembro. Tenho quase certeza de que foi um gibi da Mônica, pois meu pai preferia comprar as revistas do Maurício porque eram nacionais. Mas a primeira que me marcou pra valer foi uma do Quarteto Fantástico, da Ebal. E não a tenho, pois era um gibi de um outro garoto - que conheci naquele dia - , e me emprestou a edição enquanto esperávamos pra ser atendidos num lugar que vendia xarope caseiro contra bronquite (risos). E, sim, minha coleção é gigantesca. Não a catalogo há anos, mas são mais de 30 mil exemplares!

3- Você fez fanzines na aborrecência? Você tentou desenhar, ser quadrinhísta, ou nunca teve vocação para o desenho?

Não fui fanzineiro, por incrível que pareça, comecei mesmo do lado jornalístico. Só desenhei quando era moleque, lembro que adorava desenhar o Pelézinho com a camisa do Coringão, mas o fazia só pra mim. Admito que desenho mal demais (risos). Mas há alguns anos passei a fazer roteiros. Tenho duas ou três histórias longas esperando o dia de saírem da gaveta. Além disso fiz muito roteiro para gibis empresariais e publiquei uma HQ no fanzine “Manicomics”, com arte do Daniel Brandão. Essa HQ também está disponível no Blog do Universo HQ.

4- Ah, é?!? Você trabalhou com gibis para empresas também? Não conhecia essa sua fase!...

Foi assim: em 1992, quando fui demitido da Globo num corte e o mercado passava por uma fase terrível, fui para outra área, a comunicação empresarial. Fui editor de uma revista na Associação Brasileira de Máquinas, supervisor de comunicação da Medial Saúde, trampei numa assessoria de imprensa e, finalmente, respondi pela área de comunicação de uma empresa de transportes públicos em São Paulo, o Eletrobus.
Trabalhei nessa área de 1992 a 2000, e aprendi muito. Detalhe: gostava muito do que fazia e em todas essas empresas (todas, mesmo) eu acabei inserindo os quadrinhos. E mesmo nessa fase eu me mantive escrevendo sobre quadrinhos em jornais e revistas, especialmente a SCI-FI News, na qual eu tive uma coluna por vários anos. Nesses oito anos, fui convidado duas vezes pra editar quadrinhos na Abril e, mesmo a editora sendo a maior do Brasil na época e com minha paixão por HQs, acabei não aceitando justamente porque estava aprendendo muito e, também, porque comunicação empresarial paga muito mais (risos).
Ah, faltou dizer também que, desde 2000, ministro cursos de redação em empresas de grande porte, como Eucatex, Mantecorp, Terra, IG, Renault, Submarino e outras.

5- Eita, mais um que trabalha que nem condenado, bem vindo ao time (risos)!!! Mas, escuta, você é daqueles virginianos bem "cricris", tipo Enciclopédia Ambulante, né? Você se considera o NERD típico (risos)?

Já fui mais chato, Baraldi (risos)! Mas admito que sou muito rigoroso em tudo que faço e, por muitos anos, tive um defeito sério: querer que os outros se dedicassem a tudo da mesma forma como eu me dedicava. Mas as pancadas da vida fazem a gente aprender. Eu não me considero o nerd típico porque adoro coisas que a maioria dos fãs de quadrinhos detestam, como jogar e assistir futebol (risos).

6-Eu te conheci quando você trabalhava na editora Conrad, eu tinha uma muié que trabalhava lá com você, lembra? Nós até participamos juntos de uma festa junina lá na editora (risos). O que você fazia lá mesmo?

Fui pra Conrad justamente quando saí da empresa de ônibus. O Rogério de Campos me chamou pra ser editor executivo da linha de mangás, que havia começado (e bem) nas mãos do Cassius Medauar, e também dos livros de quadrinhos que a editora lançaria a partir de então. E, sim, me lembro de quando nos conhecemos numa das festas juninas da Conrad e você enrolava, ops, namorava a Bianca (risos)!...

7- Eu tenho juízo e não vou casar nunca (risos)!!! Mas, mudando de assunto, o Universo HQ acabou de completar dez anos, e foi o primeiro site sobre Quadrinhos do Brasil. Por que você resolveu fundar o site? Você teve a ideia sozinho?

Ô, cabeção, não deu nem uma pesquisada pra fazer a pauta (risos)?!? Quem criou o Universo HQ foi o Samir Naliato, um fã de quadrinhos lá de Petrópolis (RJ). Quando ele estava bolando o Universo HQ, já trocávamos vários e-mails em que passei dicas do que achava importante ter, em relação ao conteúdo. Eu nem o conhecia, mas sempre curti conversar (mesmo que eletronicamente) com fãs de quadrinhos. Não demorou muito e eu já estava mandando colaborações para o recém-nascido site. Enviei alguns reviews e notícias e, sempre que podia, dava toques ao Samir sobre o cuidado com a revisão do site. Na época, eu gerenciava a área de comunicação daquela empresa de transportes públicos em São Paulo e mantinha minha coluna mensal sobre quadrinhos na revista SCI-FI News.

Cerca de seis meses depois, o número de acessos do UHQ não parava de aumentar, e a "cobrança" por parte dos leitores, ávidos por novidades, aumentava, pois naquela época ainda não havia nenhum veículo de comunicação sobre quadrinhos no Brasil. Foi quando o Samir me convidou para transformar o site num veículo jornalístico profissional mesmo. Eu já tinha sido colunista de um outro site, o extinto Área 51, e na verdade não estava a fim de assumir essa responsa de novo. Mas o entusiasmo com que o Samir falava do projeto me cativou! E ele ainda me daria carta branca para direcionar os rumos do UHQ.

Naquela altura, eu já nutria algum carinho pelo site, que acompanhava diariamente, e acabei topando. E, após uma reunião com o Samir em São Paulo (foi quando finalmente nos conhecemos pessoalmente), levei junto o Sérgio Codespoti, parceiro de outras empreitadas (como o Área 51), e o Marcelo Naranjo, que nunca havia escrito nada sobre HQs, mas que mostrava conhecimento do assunto e muita vontade. Assim, topamos reformular o Universo HQ! A princípio, nós três ficamos meses "nos bastidores", sem revelar ao mercado que o site passara a ter uma equipe em seu comando. Nessa mesma época, o Jotapê Martins convidou a mim e ao Codespoti para colaborarmos no site Omelete, que nasceu pouco depois do UHQ e do qual ele foi um dos fundadores. Nós agradecemos, mas não aceitamos, por razões óbvias.

Naquele ano de 2000, lembro bem que a primeira intervenção jornalística, pra valer, do site foi quando Jerry Robinson (famoso desenhista do Batman) sofreu um enfarte em São Paulo. Dia a dia, colocávamos no UHQ um acompanhamento baseado no boletim médico emitido pelo hospital. E foi aí que, pela primeira vez, aconteceu algo que, infelizmente, se repetiria bastante nessa primeira década de trabalho: nosso texto foi "chupado" pelo site de uma grande editora, sem mencionar a fonte!

Foi quando revelamos ao mercado a nova equipe do Universo HQ. Isso porque era preciso mostrar aos responsáveis pelo uso indevido do nosso texto que o site agora era feito por gente que entendia do riscado e fazia jornalismo sério. A correção foi feita horas depois, com o crédito para o UHQ.  Era o início da promessa que fiz ao Samir, ao Codespoti e ao Naranjo quando topei essa empreitada: mesmo sem ganhar grana alguma com o site, faríamos jornalismo falando de quadrinhos (e não apenas sobre este ou aquele gênero), algo que move o UHQ até hoje. E não tardou para o mercado sacar isso!

8- Bonita história, man!!! E quais as maiores dificuldades que você enfrenta pra manter o Universo HQ? Em algum momento, nesses dez anos, você chegou pensar em parar com o site?

A maior dificuldade, com certeza, é o fato de ser um trabalho muito grande que não nos traz retorno financeiro! Hoje, pelo menos, não precisamos colocar dinheiro do bolso, mas também não dá pra pagar nossas contas com a grana que vem dos banners! Pra isso, precisaríamos largar nossos trabalhos e nos dedicar pra valer ao site, mas é complicado, pois todos temos famílias pra cuidar. E, sim, de fato já pensamos em parar o site, mas jamais chegamos a discutir isso pra valer. Pois tem o fato de amarmos Quadrinhos e sabermos da importância que o Universo HQ tem para o mercado há tanto tempo. E, no final das contas, a gente chega lá!

9- Até os anos 80, gibis eram muito populares no Brasil, com tiragens bem altas. Com o advento da internet as tiragens foram caindo e boa parte do público dos gibis parece ter se dissipado. Você concorda com isso? Quantas pessoas compram gibis com frequência no Brasil hoje?

Difícil estimar quantas pessoas compram quadrinhos hoje, mas há bastante gente. Afinal, nunca tivemos tantos e tão variados títulos no mercado. O problema é que hoje em dia é quase tudo com tiragens pequenas! É o que tenho dito há uns quatro anos: esse crescimento tem sido "horizontal", ou seja, alastrou-se ainda mais a gama de títulos no mercado, acirrando a disputa pelo dinheiro de um leitor já maduro, mas com tiragens menores. Tirando a Turma da Mônica Jovem, não surgiram grandes campeões de vendas, o que representaria o desejado aumento "vertical", com o aparecimento de mais fãs.

E eu não creio que essas quedas sucessivas nas vendas desde os anos 90 tenham a ver com o crescimento da internet, mas sim com a queda de qualidade no gênero super-heróis, até então o segundo maior em preferência popular no Brasil. Esse povo que gosta de super-heróis têm retornado ao mercado adquirindo os encadernados de sagas bacanas que têm chegado às livrarias.

10- Eu pessoalmente entendo que hoje a Marvel e DC ganham mais grana com esses filmes superproduzidos, desenhos animados e games (além de brinquedos e outros merchans) e a mim parece que os gibis de super-heróis são feitos mais para manter os personagens na mídia enquanto o próximo filme não estréia. Você também enxerga assim? Qual o papel dos gibis dentro dessa Indústria do Entretenimento hoje?

Concordo em gênero, número e grau! Tanto que, mesmo com tantos blockbusters de super-heróis nos cinemas, as vendas dos gibis da Marvel e DC não cresceram na mesma proporção. Desde então, essa indústria parece confortável na posição de abastecedora”de Hollywood. Afinal, a grana advinda de royalties é bem mais polpuda!

11- Você foi moleque nos anos 70 e 80 e pegou as Eras de Prata e Bronze. Acha que aquela estética e maneira de contar uma HQ de super-heróis ficou ultrapassada? Você prefere os gibis de hoje em dia, que tentam ser tão sérios e realistas quanto um filme?

Acho que comparar HQs de super-heróis das eras de Prata e de Bronze com as atuais é como comparar jogadores de futebol de épocas diferentes. Os cenários do mundo em cada época eram diferentes demais.
Ler HQs dos anos 60, 70 e 80 atualmente exige do leitor uma ótica mais complacente, pois são, sim, histórias de época – e devem ser lidas como tais. Afinal, são raros os quadrinhos de super-heróis que são atuais independentemente da época, como ocorre em outros gêneros.

Costumo dizer que nesse nicho tem algumas coisas atuais muito boas, mas acho que poucas entrarão pro patamar dos clássicos, como tantos dos anos 70 e 80 o fizeram. É esperar para ver!

12- Você não acha que depois de“Watchmen”e O Cavaleiro das Trevas, os gibis de heróis perderam aquela caráter de "diversão descompromissada" e ficaram "pretensamente adultos e intelectualizados"? Eu sinto como se a partir dali os gibis não fossem mais feitos para crianças e sim para adultos. Você concorda com essa mudança de tom nos gibis? O que aconteceu, afinal?

Esses são dois marcos dos quadrinhos de super-heróis e realmente ditaram o rumo desse mercado depois que foram lançados. Mas discordo que eles sejam os “culpados por essa“adultização do gênero. Eles apenas concretizaram uma tendência que vinha dando seus primeiros passos com“Arqueiro Verde/Lanterna Verde e o“Batman de Dennis O`Neil e Neal Adams. E, vale lembrar, muito antes disso, já havia quadrinhos de teor adulto no mercado europeu.

13- Sem saudosismo, mas você não acha que fases como a do Homem-Aranha feita por John Romita (o pai, lógico) e Gil Kane, por exemplo, ou o Thor e o Quarteto Fantástico, feitos por Kirby e Stan Lee, conseguiam ser emocionantes, inteligentes, maravilhosamente bem desenhadas e divertidos? Você não acha que aquele modelo concebido por Stan Lee tinha todos os elementos para se fazer um grande quadrinho e um grande expoente da cultura pop? Por que esse modelo foi abandonado e substituído pelo atual?

De novo, acho que a análise deve ser feita sem essa paixão, pois os quadrinhos de super-heróis retratam as épocas em que foram lançados. Hoje, leitores novos acham essas obras caretas. Mas a nossa geração se emocionava com aquelas aventuras porque vivemos aqueles tempos.

A substituição pelo modelo atual foi uma consequência do que rolou com o mundo à volta da indústria de quadrinhos. E se ela aconteceu foi porque o mercado, na época, pediu por isso. O lance é analisar os quadrinhos sem saudosismo, pois há, sim, grandes materiais nesse cenário atual. Como ignorar obras como Planetary, Authority, DC: A Nova Fronteira, Grandes Astros: Superman, O Reino do Amanhã, Marvels, Supremos (os dois primeiros anos), Starman e outros? Não dá! 

14- Se você fosse dono de uma editora e tivesse verba para produzir quadrinhos, que tipo de quadrinho você faria?

O tipo de quadrinho que mais gosto de ler: o quadrinho bom! Independentemente do gênero.

15- Bom, sendo assim, cite aqui os dez quadrinhos que você considera os melhores de todos os tempos. Justifique brevemente cada um deles.

Caramba, só dez (risos)?!? Difícil elencar só isso, deixa eu citar pelo menos 18, vá (risos)?!?

Aí vão:

a)” Companheiros do Crepúsculo”, do François Bourgeon: Um primor de HQ, que merecia ser filmada pelo cinema.

b)” O Cavaleiro das Trevas”: Pra mim, a melhor história do Morcegão em todos os tempos.

c) ”O Spirit”, do mestre Will Eisner: pelo conjunto da obra.

d)” Watchmen”: por mostrar que quadrinhos de super-heróis podiam ir além do ponto em que então se encontravam.

e) ”Ken Parker”, de Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo: pelo conjunto da obra.

f)” Um Contrato com Deus”, do Eisner: um primor.

g)” Asterix e Lucky Luke”, na fase escrita por René Goscinny.

h)” Corto Maltese”: pelo conjunto da obra, mas especialmente por A Balada do Mar Salgado e Sob o Signo do Capricórnio.

i)” Lobo Solitário”: a melhor HQ de samurais que li.

j) ”Traço de giz”, do Miguelanxo Prado: uma das melhores HQs de viagem no tempo que li. E sem fazer uso de nenhuma máquina mirabolante.

k)” Os Passageiros do Vento”, do François Bourgeon: outro clássico das HQs européias.

l) ”Retalhos”, do Craig Thompson: uma HQ linda que usa os recursos dos quadrinhos com maestria.

m) ”Maus”, do Art Spiegelman; por contar a Segunda Guerra Mundial de forma nua e crua, mesmo com bichinhos” como personagens. Não é à toa que faturou o Pulitzer.

o) ”Gen– Pés Descalços”: um mangá maravilhoso que todo mundo deveria ler.

p)” O Sandman”, de Neil Gaiman: uma das melhores séries de quadrinhos de todos os tempos.

q) ”Calvin e Mafalda”: pela genialidade num espaço tão diminuto quanto uma tira.

16- Há alguns anos, você escreveu o livro mais completo sobre o Maurício de Sousa que alguém já fez. Como surgiu essa ideia do livro? Foi um convite do próprio Maurício ou você sempre foi fã dele?

A ideia foi minha. Eu vinha escrevendo livretos da coleção 100 Respostas”para a Editora Abril (Super-Heróis, Hanna-Barbera e Batman) e pensei em fazer o mesmo com o Maurício, pela Globo. Quando ofereci o projeto, a editora sugeriu algo mais amplo, o que topei de imediato. E fiquei feliz demais porque o Maurício disse que topou quando soube que eu é que escreveria. Assim nasceu o“Maurício Quadrinho a Quadrinho, que saiu pela Globo em 2006.

17- O Maurício gostou tanto do livro que acabou te contratando para trabalhar com ele. O que você faz lá exatamente? De quem foi a idéia de criar a Mônica Jovem mangá? Você deu algum pitaco nesse projeto?

Pois é! Durante uma palestra de lançamento do livro, na FNAC Pinheiros, em São Paulo, o Maurício, ao responder uma pergunta, disse que faríamos muitas coisas juntos. Eu, surpreso, perguntei:“Ah, é? Você não me avisou!”(risos). Ele riu e, após a palestra disse que pensava em montar uma área pra mim, aproveitando o meu conhecimento do mercado e o meu gosto por pesquisa. Aí, o Maurício me chamou pra coordenar a área de Planejamento Editorial, que basicamente cria projetos para os mercados de quadrinhos e de livros ilustrados.

Desde outubro de 2006, felizmente, muita coisa saiu. Desde a“Coleção Histórica e as“Tiras Clássicas ao MSP 50 e muito, muitos livros. E vem muito mais por aí, pois o Universo Maurício oferece um leque de possibilidades praticamente inesgotável. Quanto à Turma da Mônica Jovem”, me orgulho de estar na equipe durante o processo de concepção desse enorme sucesso editorial, contribuindo sempre que posso com algumas ideias.

18- Você que está bem perto do Maurício, responda a pergunta que não quer calar: de onde ele tira tanta energia, coragem e vitalidade para, aos 74 anos, estar no auge de sua carreira e produtividade, tal qual um garotão? Ele bebe uma soro que não o deixa envelhecer ,que nem o Nick Fury (risos)? Me fala que eu também quero (risos).

Baraldi, o Maurício não é fraco, não! Ele realmente impressiona pela vitalidade. Isso porque, há uma década e meia, pelo menos, cuida muito bem da saúde. E faz muito bem, pois seu ritmo de trabalho é alucinante.

19- Na sua opinião, porque ninguém cresceu tanto quanto o Maurício? O que ele tem que os outros não têm?

Creio que o Maurício tem, além da qualidade de seus materiais, um tino de negócios raro nos quadrinhístas brasileiros. Ele sacou, antes mesmo de ter uma revista pela Abril, que o merchandising seria vital para fazer sua família de personagens crescer mais e mais. E essa é a área mais rentável da empresa até hoje. São quase três mil produtos com a Turma da Mônica, o que garante não apenas uma bela grana, mas uma longevidade ainda maior da marca. Nesses quase quatro anos trabalhando diretamente com o Maurício, comprovei o que me moveu quando recebi o convite pra trabalhar lá: eu teria muito a aprender com ele. Dito e feito! Impressiona o quanto o Maurício enxerga à frente.

20- Ele é meu herói (risos)!!! Por falar em crescimento, você acredita que os projetos de Lei dos Deputados Simplício Mario e Vicentinho (ambos PT) desenvolveriam o Quadrinho Nacional ? Aliás, a seu ver, quais são os principais problemas do Quadrinho Nacional?

Não acho que leis de reserva de mercado sejam o caminho pro nosso mercado. Até porque, quem garante que os materiais publicados por obrigatoriedade terão qualidade? Durante muito tempo, se falou que não tínhamos bons roteiros. Hoje, temos vários bons nomes. E vários dos nossos artistas fazem sucesso nos Estados Unidos e na Europa. Ou seja, temos mão-de-obra qualificadíssima.

O que falta, efetivamente, é um mercado para abrigar tanta gente boa. E esperar que grandes editoras invistam em autores nacionais é quase como acreditar em Papai Noel. Por isso, os autores têm mais é que aproveitar toda e qualquer lei de incentivo, chances em editoras menores e o fortalecimento do nicho das adaptações literárias. Sempre tendo em mente que o caminho, cada vez mais, será publicar em livrarias. As tiragens são menores, é verdade, mas há pelos menos três anos que não passamos um mês sem um ou dois álbuns nacionais novos. É um avanço. Lento, mas um avanço.

21- Pra encerrar, quem é Sidney Gusman e o que você deseja para o futuro?

Um cara simples, de bem com a vida e apaixonado pela família, pelo Corinthians e por quadrinhos, nessa ordem! O futuro? Desejo que seja sempre melhor do que os dias atuais.

 

O Bigorna.net agradece a Sidney Gusman pela entrevista concedida em 12/4/2010.

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