NewsLetter:
 
Pesquisa:

Grafipar, o sonho comunitário do quadrinho brasileiro
Por Franco de Rosa
08/05/2011

Comecei a trabalhar na lendária editora Grafipar logo em seu início,em 1979. Esse foi o ano em que a ditadura militar começou a baquear.Era o governo do general João Figueiredo, o último militar a ocupar o cargo no Brasil,e este resolveu ceder às pressões populares e conceder a chamada "abertura" , que entre outras coisas permitiu a volta das publicações eróticas mais ousadas às bancas e afrouxou a censura. Naquela época , eu,ainda rapazola, trabalhava em propaganda durante o dia, estudava jornalismo a noite e fazia as revistas do "Zorro Capa e Espada" e a "Klik",de humor, para a Ebal, nos finais de semana. O Sebastião Seabra conheceu o Ataide Braz e o Roberto Kussumoto ao dar uma palestra sobre quadrinhos no Senac, para a turma do professor Silvestre Mendonça. Eles eram alunos do Silvestre que havia sido contatado por um amigo, o Retamozzo, artista plástico de Curitiba que estava envolvido com a criação da Grafipar. Seabra, Ataide e Kussumoto começaram a publicar na revista "Personal", da Grafipar, que não era um gibi. Era uma revista masculina em formatinho, 13,5 x 20,5 cm, com 48 páginas, de circulação quinzenal e publicava historietas eróticas com no máximo cinco páginas.

Por conta do interesse do público quanto a estes quadrinhos eróticos, ocorreu um grande afluxo de novos autores oferecendo trabalhos do gênero. Assim, Retamozzo e Faruk El-Katib,  dono da editora, resolveram criar uma linha de gibis eróticos. Isso foi viabilizado graças a presença de Claudio Seto, que então contava com 31 anos e já havia produzido muitos quadrinhos semi-eróticos para a histórica editora Edrel (1967-1972). Quando a Grafipar nasceu, Seto, que é da região de Lins, interior de São Paulo, estava morando em Curitiba e trabalhava com um ex-redator da Edrel, Wilson Carlo Magno. Eles formavam uma dupla de criação de uma agência de áudio-visual. Retamozzo bolou a estrutura básica dos quadrinhos eróticos da Grafipar e poucos meses depois já circulavam os primeiros números de "Eros", com quadrinhos eróticos urbanos, "Neuros", erotismo e terror, "Proton", erotismo e ficção e "Perícia", policial e ficção. Foram os primeiros quatro títulos. Assim havia a cada semana um novo gibi na banca para um público que estava assistindo o desenrolar da tal "abertura",tanto política quanto da censura de comportamento. A revolução sexual avançava pelo Brasil varonil! No primeiro ano da Grafipar as publicações iam para Brasília ,para a censura federal avaliar, e voltavam com “x” em dezenas de quadrinhos,todos vetados pelos senhores censores.

Por isso muitas das histórias daquela época têm quadrinhos em preto, com “chuviscos” ou ainda aquelas engraçadas bolinhas pretas nas partes impróprias dos corpos dos personagens.

A Vila dos Quadrinhistas

A editora estava crescendo e havia muita demanda de trabalho, por isso fui morar na Vila São Braz, bairro curitibano onde residia o Claudio Seto. Ele morava a quase um quilometro de mim. Eu morava na casa ao lado do Gustavo Machado e do Fernando Bonini, que era um hóspede muito frequente de todos nós mas que acabava ficando na casa do Gustavo porque ele era solteiro e tinha um quarto vago. O mesmo quarto onde fiquei uma semana hospedado e desenhei duas histórias curtas sob temperatura abaixo de zero. Só de pensar minha mão já fica dura! O fundo da casa do Gustavo dava para a casa do Watson Portela, que morava ao lado da casa do Itamar Gonçalvez. Casa que antes era a residência do Bonini até ele se desquitar e ficar na ponte Curitiba (Grafipar)/São Paulo(editora Abril)/Rio de Janeiro (editora Vecchi). Bonini, naquela época,era o mais profissional de nós. E o mais zoneado e divertido também. Pena que teve muitos problemas com álcool, sofreu muito e faleceu em 2005.

O novo erotismo brasileiro

A Grafipar privilegiava o quadrinho e as publicações eróticas. Para nós, quadrinhistas, isso não era um incômodo, pois todos gostávamos do que fazíamos. Adorávamos  também a convivência com a turma de Curitiba que tinha também Paulo Nery, Eros Maichrowicz e Toninho Lima, que moravam na cidade ou em cidades próximas, além da frequente presença de Ataide, Josmar Fevereiro (Jô Fevereiro), Seabra, Rodval Mathias, Kimio e Mozart Couto (este só por telefone, pois ele não sai de Juiz de Fora de jeito nenhum). Isso tudo era um estímulo muito grande pra nós!

A Grafipar e a Vecchi (onde o Ota também estava oferendo muito trabalho pra gente,através das revistas Spektro e outras de terror nacional), surgiram  num período em que estavam abrindo-se novos horizontes. Nós éramos novos autores. Havia uma nova geração em ação. Queríamos marcar nossa presença no mercado. A sexualidade também estava aflorando em nós. Tínhamos 22 anos de idade em média. Seto e Watson eram os mais velhos, na casa dos 30. Havia a abertura. E a revolução sexual comendo solta! Naumin Aizen ,da Ebal, achava nosso trabalho ótimo apesar do “Seu” Adolfo Aizen repudiar!..

Um dia fui ao Rio entregar um lote de trabalhos e o Adolfo Aizen me chamou para um particular. E só ficou falando que havia trazido os quadrinhos para o Brasil como uma coisa saudável para as crianças. Que os quadrinhos eram uma arte pura e que “certos jovens”(incluindo-se eu) estavam deturpando o objetivo das histórias em quadrinhas. Ele realmente estava muito magoado. Eu me senti como um coroinha que traíra a confiança do clero. Afinal “seu” Aizen sempre foi o papa dos quadrinhos no Brasil.

A liberdade e importância históricas da Grafipar

A chamada "Era Grafipar"do Quadrinho Nacional  foi um grande momento para os autores de quadrinhos dramáticos do Brasil. Apesar da editora ter se firmado graças ao erotismo, não fizemos só HQs eróticas lá.

Fizemos  também muitos gibis de aventuras e infantis. Pela Grafipar ,o Mozart pode lançar seu faroeste "Jackal", Seto lançou a "Kate Apache",em parceria com o Mozart também. Eu lancei o guerreiro "Zamor", Watson lançou seu "Robô Gigante" em cores e Seto seu "Super Pinóquio",retomando a linha manga infantil que começara na Edrel, nos anos 60.

Mas de fato era no erotismo que todos nós nos realizávamos mais. Os outros gêneros eram tentativas de encontrar novas brechas de mercado. Isso se deveu a forma forma como Seto dirigia os quadrinhos lá. Suas instruções e a liberdade que ele nos dava permitia qualquer tipo de experiência. Nenhuma editora permitia tal coisa! A Vecchi, através do Ota, talvez, mas o academismo do terror não permitia muitas liberdades. Já o erotismo permite tudo. Bastava ter um momento de sexo que as histórias rolavam bem. O fato dos autores conviverem juntos, tanto lado a lado como se telefonando ou se escrevendo, como fazíamos naquele período, era muito estimulante. Isso fez surgir um movimento autêntico! Foi um período iluminado! Dos quase 250 gibis que a Grafipar lançou pode-se fazer uma seleção e chegar a 30% de material de ótima qualidade. Há muitas coisas daquele período que são reprisadas até hoje com atualidade e charme. As regras da editora eram simples: bastava entregar trabalhos publicáveis e dentro do prazo de fechamento de cada revista. E o time sempre superava as expectativas!

A meu ver, o melhor período da Grafipar foi em 1981/82 ,quando os autores já estavam todos maduros e a estrutura de produção azeitada. As histórias da personagem Maria Erótica (do Seto) desse período são geniais ,nessa época o Watson fez seus melhores trabalhos “heavymetalanicos”, o Itamar atingiu um traço impecável, o Mozart criou histórias sombrias com muito ritmo. Kussumoto estava desenhando como nunca, o Seabra abusava da anatomia feminina, Vilachã brincava com música e quadrinhos, Josmar Fevereiro pôde revelar seu talento oculto no anonimato dos trabalhos na publicidade, ou sob a assinatura de Nico Rosso, de quem fora assistente quando garoto. Shimamoto apresentava um novo estilo de desenho e narrativa. Colin transbordava humor, o Nelson Padrella nascia como um Neil Gaiman antecipado e o Wilson Magno escrevia short-storys impagáveis. Na Grafipar eu pude brincar com meus ídolos preferidos.Como sempre fui estudioso de quadrinhos, nos quadrinhos eróticos da Grafipar pude realizar histórias imitando o traço de vários autores como Alex Toth, Jeff Jones, Guy Pelaert, Garcia Lopez, Crepax, Barry Smith, Neal Adams, Joe Kubert e Enrique Breccia. Eu decalcava os desenhos deles. Dá até para publicar um livro só com estes pastiches. Fazer aquelas homenagens era um grande prazer para mim e também um grande aprendizado. Porque observar a forma como cada um resolvia os detalhes em suas artes me ensinou muito.

O fim da Grafipar

Não sou economista nem mesmo entendo os princípio básicos de contabilidade para poder afirmar porque a Grafipar acabou. Mas sei que dois fatores levaram a empresa a dificuldade de caixa: Primeiro a Grafipar comprou um jornal diário,formato tablóide, que fazia oposição ao governo do Paraná daquela época. Ao tentar manter a estrutura diária sem os anúncios de estatais e grandes empresas é difícil. O formato tablóide a meu ver também não ajudou. No Brasil só o "Zero Hora" de Porto Alegre, que já é uma verdadeira instituição, circula neste formato. Não conheço outro que tenha vingado. O outro fator forte foi a crise econômica pré-cruzado de 1983. Naquele período milhares de empresas fecharam. A editora Vecchi também fechou,assim como a Idéia Editorial ,do Cláudio Souza, que também publicava quadrinhos eróticos (importados da Itália).

A Grafipar pagava em dia,mas não pagava muito. A Vecchi pagava melhor. Mas quem produzia muito recebia mais. O roteirista Nélson Padrella, por exemplo, era um dos autores que escreviam muito bem e bastante. Ele devia ganhar mais do que o salário de jornalista num jornal por aí. Pra se ter uma idéia, em 1984 ,quando a Grafipar acabou,eu fui para a Folha da Tarde, em São Paulo, e meu salário de jornalista/ilustrador era menor que a minha média de produção de quadrinhista na Grafipar.

 A Press e o legado da Grafipar

Claudio Seto me influenciou muito. Ele sempre foi um artista que admirei. Eu curtia muito os trabalhos dele na Edrel. Gostava principalmente porque eram “mangá” ou melhor “gekiga”(manga adulto), como preferem os puristas. Ao conhece-lo pessoalmente na Grafipar minha admiração e respeito por ele aumentou junto com a amizade. Ele foi uma pessoa com quem conversei muito durante a vida. Quando ajudei a fundar a editora Press, em São Paulo, aquilo foi uma continuidade natural da Grafipar no tocante a produção de quadrinhos eróticos made-in-Brasil. A Press nasceu do sonho de meu grande amigo, o cartunista Paulo Paiva. Ele já havia tentado criar uma cooperativa de quadrinhistas e cartunistas em 1980. Mas cada artista só queria saber de sua própria prancheta. Também os envolvidos eram muito jovens e faziam mil e um free-lancers. Havia muito trabalho naquela época.

Quando voltei de Curitiba para São Paulo montei um estúdio com o Seabra no centrão de São Paulo. No mesmo local onde eu estava três anos antes, só que dividindo o espaço com o Novaes, outro grande amigo,cartunista e excelente caricaturista  que me levou depois para a Folha da Tarde em 1984. Então apareceu o Paiva e seu sócio, o jornalista Rivaldo Chinen, para dividirmos o mesmo espaço. Logo estávamos todos trabalhando para uma editora nova, a NG. E poucos meses depois o Paiva e um dos sócios da NG resolveram lançar novas aventuras do "Zorro Capa e Espada", que estava em domínio público, mais um gibi de humor e um outro de terror. Tudo isso baseado em pesquisas feitas pelo José Guimarães, um dos donos da NG, junto ao distribuidor Fernando Chinaglia, onde o Guimarães era muito bem relacionado. As pesquisas apontavam que revistas de produção barata e com tiragem pequena encontrariam um bom espaço no mercado naquele momento. Assim a NG virou a Press, que na verdade se chamava Editora Maciota. Porque Maciota era o nome do personagem de humor que o Paulo Paiva fazia na época pra revista Placar,de futebol. Mas os lançamentos da Press/Maciota não foram muito bem. Então o Paiva me convidou para fazer um gibi de quadrinhos eróticos. Aí tive a sorte de fazer um pastiche da Roberta Close. Na época a Roberta, que ainda era travesti (depois mudou cirurgicamente de sexo) ,estava em alta e o gibi deu certo! Então assumi a produção de quadrinhos dos títulos semanais "Close", "Sexo em Quadrinhos", "Mundo do Terror" e "Coisas Eróticas".

Não chegamos a fundar um movimento. Dei sorte porque já conhecia todos os bons caras que trabalharam para a Grafipar e a Vecchi. Nossa produção foi muito menor que a de ambas. Também os autores já estavam mais profissionais,todos mais maduros. Como nossa estrutura era menor e vivíamos um momento econômico eufórico (Plano Cruzado, do presidente Sarney) pagávamos melhor. Também muita gente nova nos procurou e pude dar oportunidade a quem merecia. Mas as brigas internas devido a inclusão na editora dos filhos do sócio majoritário fez com que o Paiva e eu nos desligássemos. E foi uma situação tão frustrante que não tivemos gás para enfrentar uma nova empreitada. Considero o período Press como a conclusão do movimento Grafipar. Isso porque na Press, devido aos pedidos dos leitores, os quadrinhos eróticos tinham que ser explícitos. Aí passou a acontecer o constrangimento dos autores, que logo passaram a assumir pseudônimos. E logo na sequência surge a oportunidade de se publicar muitas das produções da Press na Europa via a agência belga Commu. Mozart Couto, Seabra, Roberto Kussumoto e Rodval Mathias foram os desenhistas que mais publicaram pela Commu, enquanto os roteiristas Ataíde Braz e Julio Emílio Braz eram os coordenadores (em períodos distintos) da agência no Brasil. Houve também outro grande destaque brasileiro na Commu,o carioca Cézar Lobo, que além de álbuns fez calendários e vários cartões postais. Mas isso tudo já é um outro capítulo da longa história da HQB.

 

Quem Somos | Publicidade | Fale Conosco
Copyright © 2005-2017 - Bigorna.net - Todos os direitos reservados
CMS por Projetos Web