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John Constantine - O herói da contracultura
Por Caio Luiz
07/03/2011

Está chovendo em Londres. Sempre chove na Grã-Bretanha. Há o fog (névoa) constante embaçando as ruas e tornando os arredores turvos para quem pertence àquela região triste. É do trecho mais improvável, de dentro de uma pocilga, um pub suburbano cravado na cidade que sai um homem de terno com semblante cínico, encapotado por um sobretudo bege. Ao colocar os pés para fora, não hesita em acender o trigésimo cigarro da marca Silk Cut do dia. “Desde quando os fuma, John?”, ele se pergunta. “Desde os 16, talvez”, responde dando de ombros e avançando rumo à cortina de chuva como se não tivesse acabado de negociar almas e enganado mais um anjo ou demônio enquanto sorvia a quarta pint de cerveja escura no balcão pegajoso.

Qualquer um com instintos ou percepções afloradas sabe de longe que envolver-se com John Constantine é pedir para ter dor de cabeça aguda e lancinante. O patife o faz mergulhar em uma piscina de problemas sobrenaturais porque há uma aura ocultista que o precede e atrai. Sempre puxando as cordas, John é um mago sacana que circula pelos bastidores, seja da política, de seitas milenares, de bruxaria e magia negra, impulsionado pelo vício em adrenalina que é sua sina.

O anti-herói é alguém sempre no lugar e na hora certa para jogar xadrez com o destino, se valendo dos contatos que possui com o submundo e acionando favores nos quatro cantos do globo, atropelando os direitos de quem estiver em seu caminho. Aliado, amante, inimigo, não importa, primeiro é necessário preservar a própria pele e resolver o emaranhado diabólico em que ele se enfiou e, com sorte, quanto tudo estiver resolvido, talvez sobre tempo para quem tiver sido usado ser resgatado.

Má reputação

Esta é a reputação de John Constantine, nome do protagonista do título Hellblazer da linha Vertigo, voltada para o público adulto da DC Comics. Sem exageros, o homem em questão é uma espécie de Aleister Crowley moderno metido em negócios assombrosos que deu as caras pela primeira vez em junho de 1985, no número 37 da aclamada Saga do Monstro do Pântano, escrita pelo também inglês Alan Moore.

No ponto em que a trama daquele gibi estava, o mundo vinha registrando uma série de eventos bizarros, em especial nos EUA, que, por intermédio de um bando de lunáticos, culminariam na ressurreição da entidade do caos o que, eventualmente, engoliria o planeta. Sem ter ideia do que se passava, o monstro verde que habita os brejos do Alabama vira um mero peão a executar os serviços sujos do trapaceiro vindo das terras da Rainha. Afinal, manipulação é a especialidade do malandro beberrão.

A inserção do coadjuvante foi feita a pedido dos ilustradores da revista do Monstro do Pântano durante a década de 1980, John Totleben e Steve Bissete, que pediram à Moore que desse um jeito de colocar alguém com as feições do cantor da banda The Police, Sting, nas páginas da revista. O autor gostava de trabalhar com as sugestões de parceiros e fez a sugestão se encaixar dentro do contexto das histórias.

Oras, por que não introduzir este ser amoral, saído da classe trabalhadora inglesa, repleto de charme e de amizades perigosas que transita pelas bordas do Universo DC resolvendo casos feito detetive? Assim, nas primeiras histórias, é possível acompanhar John (em uma revista que nem era dele, metalinguagem irônica perfeita para o caráter aproveitador do personagem) cruzando a América do Norte com uma trupe de freaks – uma freira, um motoqueiro, um gênio debilóide e uma gótica depressiva – se preparando para algo grande e reunindo outros personagens antigos, alguns esquecidos e anteriores a década de 1940, pertencentes à ala mágica da editora como Dr. Oculto, Mister 10, o Vingador Fantasma e Zatara.

Passado punk

Com o fim daquele arco de histórias, John ainda frequentou outras aventuras do Monstro do Pântano sempre representando encrenca da grossa e endoidando o parceiro. No entanto, suas qualidades ímpares o garantiram título exclusivo nas mãos de Jamie Delano, que assumiu a obra nas primeiras edições e construiu boa parte da mitologia e forma que predominam na série até hoje: enredos essencialmente urbanos sobre um indivíduo que nunca deixa de flertar com o precipício, constantemente no limiar da loucura e em luta com os demônios internos que o atormentam pelas atitudes e escolhas do passado.

Delano, outro inglês, foi bibliotecário e taxista. Portanto, fica fácil de entender como conseguia mesclar histórias com embasamento político e social com o clima de cidade grande ameaçadora e imperdoável. Foi ele quem desenvolveu o passado conturbado de Constantine, um jovem loiro nascido em Liverpool, na época em que os Beatles extasiavam os continentes com suas franjinhas e terninhos idênticos.

Durante a juventude, montou uma banda punk, a Mucous Membrane, e saiu pelo Reino Unido cantando e tendo os primeiros contatos com o lado underground da sociedade. Assim começou a estabelecer a rede de pessoas exóticas que o auxiliam e criou a má fama de enganador. Foi no final da década de 1970 que tentou exorcizar uma casa de shows em Newcastle, invocando um demônio para acabar com outro, e acabou perdendo a alma de uma garotinha no procedimento por arrogância e inexperiência. A partir dali nada mais seria igual na vida dele. Dois anos no manicômio esfriaram as coisas, mas não seriam suficientes para mudar a natureza investigativa e atrevida do britânico.

Delano seguia a premissa que orientou as histórias sob a batuta de Moore, usava acontecimentos sobrenaturais como ponto de partida para criticar comportamentos da sociedade anglo-saxônica com narrativas poluídas e sufocantes que externavam o horror que a cidade por si só pode proporcionar. A diferença estava no tratamento menos esotérico e mais visceral do conteúdo. Delano ia longe feito o predecessor, porém imprimia contornos mais próximos do dia-a-dia de quem lesse a revista e conhecesse minimamente o que se passa na Inglaterra. Hooligans eram objeto de análise da violência gratuita, yuppies eram dissecados ao negociarem almas na bolsa de valores, fanatismo religioso era o alvo quando abordou o poder de grupos que transformam crença em escorregador para a alienação.

Moore chegou a declarar que Delano e o desenhista John Ridgway demonstraram brilhantemente que o horror inglês não havia se evaporado com o fim da era Vitoriana e que a obra era de arrepiar a espinha. Então vem Garth Ennis, escritor irlandês também conhecido por Preacher e Hitman, que despontou em Hellblazer tornando-se responsável pela fase mais famosa da publicação, valendo-se de diálogos inteligentes, violência e humor negro. A grande sacada da etapa foi deixar que o mundo místico que abriga as histórias servisse como pano de fundo, trazendo o foco para as características humanas de Constantine, evidenciando que é uma pessoa como qualquer outra.

Não tem o caráter de aço do Super-Homem, a determinação do Batman ou algo do tipo. É alguém com os pés no chão. Está sujeito a doenças, a espancamentos, a cometer erros por conta dos defeitos que tem. Tanto que descobre ter câncer de pulmão no aclamado arco “Hábitos Perigosos” e numa jogada de mestre posterga a própria morte ao vender a alma para os três demônios mais importantes na hierarquia do inferno em oportunidades diferentes, tornando-se o estopim para uma possível guerra interna pela disputa de seu espírito que beneficiaria o Paraíso. Ou seja, joga os problemas que tem mais para frente, abusando da astúcia para se livrar do que lhe bate a porta cobrando-o, como qualquer um de nós faria.

É da profundidade e complexidade de Constantine que vem o interesse dos leitores por suas desventuras latrina abaixo. Até que ponto ele vai sujar as mãos na próxima edição? Como fará para salvar o mundo, a si mesmo e a quem mais tenha envolvido concomitantemente e sendo tão corruptível? Pois é, ele não vai! Fará somente o que está ao seu alcance. Fará escolhas porque não é super e acordará no dia seguinte, depois de uma farta bebedeira, em um hotel úmido, para arcar com as consequências do que aprontou. Punindo-se, maço após maço.

O time de escritores que já contemplaram a série vai dos mencionados a Neil Gaiman, Grant Morrison, Brian Azzarello e Peter Milligan. A arte nunca é das melhores, em minha opinião. A não ser pelo período de Steve Dillon, parceiro de Ennis em Preacher. De longe, pelas referências e inteligência no argumento, é meu quadrinho favorito em dez anos como colecionador. Pegue sua jaqueta e vá pro inferno, John!

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