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Sobre flatulências, humor gráfico japonês e as origens do mangá
Por Alexandre Nagado
24/01/2011

A pitoresca imagem que vemos aqui vai nos ajudar a entender um pouco sobre o humor gráfico japonês e o próprio mangá. A cena, que retrata claramente um "concurso ou batalha de peidos", foi desenhada por volta do século XII por um sacerdote budista chamado Tôba (1053~1140). Tôba foi um homem à frente de seu tempo, sendo mais famoso pelo grande rolo de ilustrações sequenciais (quase uma HQ) de uma série chamada Chôju-giga (ou "desenhos humorísticos de animais"), sendo uma com 10 metros de comprimento, com um traço leve e dinâmico. A peça se encontra exposta no Museu Internacional do Mangá, em Kyoto, no Japão.

Há exemplos de humor gráfico japonês ainda mais antigos, datados do século VII, com caricaturas de autoria desconhecida. A estilização e o exagero sempre foram parte da tradição japonesa de artes visuais, incluindo aí seus itens de exportação mais conhecidos, o mangá e o animê. Nada de realismo ou hiper-realismo, a base do desenho japonês sempre foi o traço contornado e estilizado. E quando o assunto é humor (mesmo adulto), o que se vê em geral é um humor escatológico, politicamente incorreto e beirando o infantil. Piadas sobre pum agradam adultos e crianças até hoje no Japão, bem como caretas exageradas.

No mangá Dr. Slump (de Akira Toriyama), é comum vermos piadas com fezes. Em uma cena hilária, o Suupaaman (paródia do Superman) quer provar que é mais corajoso que a pequena e superforte Arale. Ele toca com o dedo num montinho de cocô que vê no chão e acha isso uma grande demonstração de valentia. E Arale coloca a merda inteira na cabeça, sobre seu boné, para desespero do frustrado herói. É grosseiro e nojento? Pra gente, é. Para o japonês, é uma diversão só. E humor sexual, bem chulo, é visto normalmente até em revistas para adolescentes. Um famoso herói de mangá, Ryo Saeba, da série City Hunter (de Tsukasa Hojo), vivia aparecendo de "barraca armada" (descomunal, diga-se de passagem) cada vez que via uma garota bonita ou em trajes provocantes. Não há muito espaço para sutilezas quando o assunto é humor na Terra do Sol Nascente.

A ilustração de Tôba mostrada aqui eu não costumo chamar de mangá, mas é uma opinião bem pessoal, influenciada pela definição mais comum atualmente, que chama de mangá o quadrinho japonês (ou que siga suas linhas gráficas ou narrativas). O significado da palavra mangá, que no começo definia cartuns e caricaturas conforme idealizado pelo mestre das xilogravuras Hokusai, no século XIX, evoluiu ao longo do tempo. Há décadas a palavra é sinônimo tanto de histórias em quadrinhos quanto de revistas de quadrinhos no Japão. Por isso, prefiro me referir a esse material histórico como sendo parte da tradição de cartuns japoneses, para não confundir os leigos. Mas não deixa de ser mangá na concepção mais pura e ancestral da palavra, cuja tradução é "desenhos divertidos".

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