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Prêmios de quadrinhos do Brasil: uma avaliação crítica
Por Marcio Baraldi
29/11/2010

Tempos atrás recebi um email de meu camarada Rodrigo Febrônio, do programa Banca de Quadrinhos, dizendo que eu já tinha ganho Prêmios Angelo Agostini demais e deveria deixar essa vaga para outros cartunistas. E eu fiquei refletindo sobre isso um bom tempo até chegar a conclusão: que ele está absolutamente CERTO!!! De fato eu já ganhei DEZ Agostinis e fiquei muito feliz por isso ter acontecido porque, afinal, tenho mais de duas décadas de trabalho incessante nesse mercado, nunca tive outra profissão que não a de cartunista, tenho 13 livros próprios lançados, participação em mais umas dez coletâneas, um vídeo-game (o primeiro para adolescentes 100% nacional), bonecos, camisetas, bottons, palhetas e outros merchadisings de meus personagens, publico em meia dúzia de revistas nas bancas todo mês, apareço na TV toda hora, e mesmo com tudo isso nunca tinha ganho nem rifa de ovo de páscoa! Triste, não? E eu fico feliz que a organização do Agostini e o público que nele vota fielmente todos os anos tenham reconhecido meu trabalho e minha árdua batalha nesses anos todos. Fico feliz por ter ganho, além desses prêmios, a confiança e  amizade de muuuuuita gente nesse mercado, do Oiapoque ao Chuí. Muitos camaradas de profissão que eu conheci nessa caminhada toda e muitos outros que nem conheço pessoalmente mas que me tratam com consideração de irmão e as vezes até de filho.

Mas acima de tudo está o bom-senso e a justiça para com a categoria! Por isso concordo com Febrônio e já a algum tempo solicitei a alguns membros da comissão organizadora do Agostini (a saber, Worney, Bira Dantas e Edson Pelicer) que EXCLUAM meu nome dos concorrentes por pelos menos um bom punhado de anos. Nem o livro que acabo de lançar, Vapt e Vupt, quero que faça parte da lista de lançamentos da cédula do Agostini. Não tenho mais cara pra subir naquele palco e receber o prêmio mais uma vez! Comecei pedindo pra ganhar e agora peço pra nem participar!

Há dezenas de outros cartunistas talentosos e livros bacanas esperando sua vez de ganhar esse prêmio também. A minha já foi, já estourei minha cota! E a crítica não é só pra mim não, entendo que o "QI", do Edgard Guimarães, não pode ganhar nem concorrer mais também. Sou grande broder do Edgard e grande fã de seu QI, o fanzine mais agregador da categoria que existe, mas o caboclo já ganhou tal prêmio por uns 20 anos seguidos. Nesse tempo todo quantos fanzines e publicações independentes maravilhosas apareceram e merecem seu lugar ao sol dos prêmios também? Eu mesmo quantas vezes votei em outros fanzines, como o Portal do Encantamento, do Queiroz, por exemplo, e fui voto vencido?

E não é só isso não, ainda mandei várias sugestões para a comissão, como por exemplo, a necessidade do Agostini criar algumas novas categorias como "Mídia sobre Quadrinhos" e "Jornalista Especializado", pois nesses anos todos surgiram três programas de TV, pelo menos uma revista e vários sites e blogs, além de muitos jornalistas especializados no ramo, todos trabalhando arduamente para divulgar o mundo dos Quadrinhos, e todo esse povo precisa de reconhecimento também!

Aliás a mesma crítica se estende ao Prêmio HQMix, em que ocorre o mesmo problema: as sucessivas premiações de uma mesma pessoa ou veículo. Vejamos o caso do Angeli por exemplo, que já foi premiado 15 vezes, ou seja, desde que a categoria chargista foi criada no Prêmio. Será que a essa altura do campeonato alguém duvida que o Angeli seja um ótimo chargista? Será que há a necessidade de premiá-lo por mais 15 anos seguidos para provar isso para a categoria? Será que ao invés de lhe darem essa “cadeira cativa” no prêmio não seria mais justo dividi-la com as outras dezenas de chargistas talentosíssimos espalhados de Norte a Sul do Brasil? E o mesmo pode-se dizer do UniversoHQ e de seu coordenador, o jornalista Sidney Gusman, que vêm sendo premiados sucessivamente desde que entraram no mercado, há dez anos atrás. Tenho total respeito pelo UHQ , que é um site pioneiro do ramo no Brasil, já resiste bravamente há dez anos, tem uma ótima e batalhadora equipe, mas que não são os únicos no mercado! Lógico que eles e o Sidão merecem muitos prêmios e todo sucesso do mundo, mas será que essas cadeiras também não precisam ser alternadas com outros tantos sites/blogs e profissionais que estão aí igualmente derramando seu suor para bem informar o público? Será que sites/blogs como Omelete, Fábrica de Quadrinhos, Impulso HQ, Papo de Quadrinhos, Gibizada, JBlog, HQManiacs, Blog dos Quadrinhos (o único que também sentou nessa cadeira até agora), entre outros, não têm competência para ganhar tal prêmio? E os três programas de TV (a saber, "HQ e Cia","HQ Além dos Balões"e "Banca de Quadrinhos") que já existem há quase cinco anos e nunca ganharam nada (a não ser os dois primeiros que ganharam um prêmio Bigorna)? Será que eles não são importantes o suficiente para tal?!?

Sem falar no Bigorna, né? Nós, que já estamos indo pro sétimo ano de vida, sempre tivemos um trabalho diferenciado dos outros sites, sempre defendemos explicitamente o Quadrinho Brasileiro, 90% de nosso conteúdo é feito por quadrinhistas e em prol da HQ nacional, somos de longe o site que mais dá espaço para os quadrinhistas brasileiros, através de notícias diárias, seções divertidas, artigos de interesse da categoria e sobretudo, entrevistas extensas com autores brasileiros, em que incentivamos o debate politizado e a reflexão sobre os problemas e soluções da categoria. Com todo respeito, mas QUEM MAIS faz isso no Brasil, com tanta intensidade?!? Mesmo assim, com tanta prestação de serviços para o Quadrinho Nacional, nunca ganhamos nem panetone no natal!

Sei que vão dizer que eu e outros dos citados acima, apesar de nunca ganharmos, somos indicados para tal premiação, mas sinceramente, pra mim ser um eterno "indicado" é o mesmo que ser um craque de futebol e ficar todo campeonato sentado no banco de reservas enquanto os outros marcam gol. Convenhamos, é chato, né? A menos que não me considerem um craque.

Sei ainda que vão dizer que tal premiação é auditada e tal, mas será que acima disso não está o bom-senso e a consideração pela categoria? Todo ano, após ambas as premiações, chove de críticas de quadrinhistas pela internet, referentes a ambos os prêmios e suas sucessivas repetições. Críticas oportunas e justas como as que o próprio Febrônio e outros fizeram a mim, por exemplo.

Será que não está na hora de ambos os prêmios levarem em consideração esses comentários e reclamações todas? Será que não está na hora de ambos criarem dispositivos para impedir tantas repetições, distribuindo melhor os prêmios para esta vasta categoria espalhada por todos os estados do Brasil? Será que este debate, esta reflexão e atitudes tomadas para realmente democratizar mais o acesso da categoria aos prêmios não seriam saudáveis e benéficas para todos, prêmios e categoria?

É verdade que a revista Mundo dos Super Heróis na sua edição de março deste ano, fez uma crítica ao Agostini e eu discordei (veja aqui), pois apesar de não duvidar de que seus autores tivessem boa intenção, considero que erraram na mão ao fazer um texto que questionava não apenas a organização do prêmio mas também a competência dos artistas ganhadores, todos excelentes profissionais. E é lógico que Bigorna vai defender o artista brasileiro, afinal é esse o espírito do site e para isso que estamos aqui.

Na verdade o que falta aos prêmios todos e ao cenário do Quadrinho Nacional como um todo é justamente a prática do debate. Trata-se de uma categoria completamente dispersa, desmobilizada e trancada cada qual em seu pequeno mundo, seu pequeno silêncio, sua pequena timidez. Não é à toa que as duas entidades de classe que a categoria possui, AQC e ACB, hoje não conseguem mobilizá-la em torno de debates e lutas importantes, como já aconteceu no passado. Não por culpa delas certamente, que são presididas por profissionais de respeitável trajetória. Porém hoje, tais entidades quase que se limitam a organizar seus respectivos prêmios, o Angelo Agostini e o HQ Mix, o que com certeza já é uma tarefa árdua, desgastante e diria até, ingrata.

No mais eu agradeço ao Febrônio e a outros colegas que me fizeram essa crítica que me possibilitou refletir e repensar algumas "velhas opiniões formadas sobre tudo" que todos nós temos. Pois o ser humano é assim mesmo, as vezes a gente precisa que alguém tome a dianteira e cutuque nossas consciências, provoque um debate pra gente sair das nossas "certezas absolutas" e entender que outras opiniões também são tão importantes quanto a nossa, e por vezes, mais recheadas de razão.

No mais, queremos, como sempre, reiterar a disposição do Bigorna em ser um canal permanente de debate não apenas desta mas de qualquer questão referente a categoria dos quadrinhistas. Há muito por debater, há muito por conquistar, há muito por crescer.

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